
Acordo do G7 para reduzir dependência da China em terras raras abre oportunidade para o Brasil negociar investimentos em minerais críticos | Foto: Ricardo Stuckert/PR
18 de junho de 2026 – O acordo fechado por líderes do G7 para reduzir a dependência da China em minerais críticos e terras raras foi recebido no Brasil como uma sinalização de que o país pode ganhar poder de negociação na reorganização das cadeias produtivas globais.
A decisão estabelece a meta de limitar a dependência de qualquer fornecedor único a menos de 60% no caso de terras raras e ímãs permanentes até 2030. A ambição de longo prazo é chegar a 50% o mais rápido possível. O plano também prevê coordenação de estoques estratégicos, diversificação de fornecedores, reciclagem e mecanismos apoiados pela Agência Internacional de Energia.
A medida mira diretamente a China, que domina etapas centrais da cadeia de terras raras, especialmente processamento, separação e produção de ímãs permanentes. Pequim reagiu defendendo seus controles de exportação sobre minerais críticos e criticou a formação de blocos econômicos exclusivos, sob o argumento de que isso pode prejudicar o comércio global.
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No governo brasileiro, a leitura é que a disputa entre Estados Unidos, União Europeia, Japão e China por fontes alternativas de minerais críticos abre espaço para o Brasil ocupar posição mais relevante no setor.
A avaliação é que o país pode usar o interesse internacional em terras raras, lítio, nióbio, grafite, cobre e níquel para exigir investimentos em beneficiamento, processamento, pesquisa, tecnologia e industrialização local.
O Brasil negocia acordos de minerais críticos em formatos diferentes com Estados Unidos, União Europeia e Japão. A conversa com os norte-americanos é considerada a mais avançada, mas ainda enfrenta entraves políticos e técnicos.
Dentro do governo, há preocupação em evitar que novos acordos fiquem restritos a memorandos amplos, sem resultados industriais concretos. A proposta norte-americana, por exemplo, menciona a construção de capacidades de refino em território brasileiro.
A ideia é que eventuais financiamentos sejam estruturados por instituições ligadas ao governo dos Estados Unidos, como a DFC, agência americana de financiamento ao desenvolvimento, e o Exim Bank, banco oficial de crédito à exportação do país. Esses recursos poderiam estar vinculados a contratos de compra futura, conhecidos como offtakes.
Um dos pontos que acendeu alerta em parte do governo é a menção a um possível “first look” para investimentos no setor. A expressão foi interpretada por interlocutores brasileiros como tentativa de garantir aos Estados Unidos prioridade na análise de uma primeira leva de projetos e oportunidades em minerais críticos no Brasil, ainda que sem exclusividade formal.
A movimentação do G7 reforça a tese da ala desenvolvimentista do governo de que o Estado brasileiro deve ter maior poder de coordenação sobre o setor. Esse grupo defende que parcerias internacionais sejam condicionadas à industrialização, transferência de tecnologia e formação de cadeias produtivas locais.
A discussão também se conecta ao debate em andamento no Congresso sobre a política nacional de minerais críticos. O texto aprovado pela Câmara e em análise no Senado amplia o papel do governo na definição de projetos prioritários e cria instrumentos para estimular a agregação de valor no Brasil.
A proposta também prevê a criação de um conselho ligado ao governo federal, com poder para avaliar e homologar operações e contratos internacionais envolvendo ativos do setor.
A estratégia brasileira segue a linha defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a Cúpula do G7, na França. Lula afirmou que países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, por meio de industrialização, transferência de tecnologia e formação de capacidades nacionais.
A diplomacia brasileira tem tratado a industrialização dos países detentores desses recursos como eixo central de sua posição internacional sobre o tema.
Nos bastidores, há incômodo em parte do governo com a atuação de atores do setor mineral que negociam diretamente com governos estrangeiros sem coordenação prévia com o Itamaraty. A avaliação é que esse tipo de movimento pode enfraquecer a posição negociadora do Brasil justamente em um momento de maior valorização estratégica dos minerais críticos.
No setor privado, a preocupação é que excesso de intervenção estatal ou regras pouco transparentes possam afastar investidores. Empresas avaliam que o Brasil tem potencial para se apresentar como alternativa confiável à China, mas precisa oferecer segurança jurídica, previsibilidade regulatória e capacidade de execução.
O desafio brasileiro será equilibrar atração de capital estrangeiro, proteção dos interesses nacionais e desenvolvimento de uma cadeia produtiva mais sofisticada. Em um cenário de disputa global por minerais críticos, o país tenta transformar riqueza natural em tecnologia, indústria e poder estratégico.
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