

Projeto Futuros Verdes no Nordeste percorre os nove estados da região para mapear oportunidades ligadas à economia de baixo carbono | Foto: Ari Versiani/PAC
16 de agosto de 2026 – Um projeto começou a percorrer os nove estados do Nordeste para mapear oportunidades econômicas, setores produtivos, capacidades e competências capazes de contribuir para a transição da região para uma economia de baixo carbono.
A iniciativa, chamada Futuros Verdes no Nordeste, reúne o Instituto Clima e Sociedade (iCS) e o Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife (CESAR).
A proposta é ouvir especialistas e representantes do setor produtivo para transformar conhecimento sobre sustentabilidade em orientações estratégicas adaptadas à diversidade dos territórios nordestinos.
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O mapeamento também pretende identificar necessidades de formação e capacitação de profissionais diante das novas exigências impostas pelas mudanças climáticas e pela transformação dos modelos produtivos.
Para Diogo Araújo, biólogo, analista do CESAR e um dos coordenadores do projeto, a transição para uma economia de baixo carbono não acontece de forma automática.
“As oportunidades não se distribuem automaticamente e também não vai ter uma transformação de forma tão natural e tão automática […]. Então é por isso que o Futuros Verdes no Nordeste nasce. Para compreender essa complexidade”, afirma Diogo Araújo.
O Nordeste reúne, ao mesmo tempo, alguns dos principais desafios provocados pelas mudanças climáticas e um conjunto de potencialidades para o desenvolvimento de alternativas produtivas mais sustentáveis.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a Caatinga é um dos biomas mais ameaçados pela desertificação no mundo.
Em 2025, de acordo com o MapBiomas, três dos cinco estados que mais desmataram estavam no Nordeste: Maranhão, Piauí e Bahia.
Quatro das sete cidades brasileiras mais ameaçadas pela elevação do nível do mar também estão na região, segundo a Climate Central: Recife, São Luís, Fortaleza e Salvador.
Apesar dos riscos climáticos, a região também concentra importantes oportunidades.
O Nordeste responde por 92% de toda a energia eólica produzida no Brasil.
A região também abriga cinco das dez maiores usinas solares do país e tem no turismo uma importante fonte de geração de recursos.
Esses fatores reforçam o papel estratégico do Nordeste na construção de uma economia mais sustentável e menos dependente de carbono.
Para o gerente de Recursos Naturais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Cardoso, as oportunidades podem ser ainda mais amplas.
“Você tem potencialidade na bioeconomia, na biodiversidade da caatinga, na questão de biomassa e energia renovável, tanto com etanol quanto energia solar, as energias renováveis, solar e eólica, tudo isso você tem potencialidade”, lista Mário Cardoso.
O desafio, segundo ele, é transformar esse potencial em desenvolvimento concreto.
“Agora, como transformar essa potencialidade em desenvolvimento?”, questiona.
Para Cardoso, a resposta passa por cadeia de produção, demanda do setor produtivo, potencial de mercado, viabilidade técnica e capacidade de implementação.
“Tem locais que têm vocação para a produção de energia eólica? Tem. Mas ele também depende da linha de transmissão. Potencial, por si só, não gera desenvolvimento. Tem toda uma estratégia por trás, uma condição, uma infraestrutura, uma regulação, tudo o que suporte esse potencial. Não tem resposta simples, não tem solução de prateleira”, afirma Mário Cardoso.
A capacidade de implementação também depende da formação de profissionais habilitados para as novas demandas.
Para Nicolis Amaral, do Instituto Clima e Sociedade, é preciso ajustar a formação dos trabalhadores que enfrentarão os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
“As profissões começam a se transformar por demanda”, explica Nicolis Amaral.
Engenheira química de formação, ela cita a própria trajetória como exemplo das mudanças necessárias.
“A gente começa a olhar essa grade curricular mais engessada. Eu, por exemplo, sou engenheira química. A minha engenharia química foi focada no petróleo, não foi focada na economia verde. Então, ao longo do tempo, fui me especializando […] hoje eu me vejo como especialista em descarbonização por cursos adicionais, não pela minha graduação”, relata.
Nicolis participa do projeto que percorre o Nordeste para mapear oportunidades e pensar a capacitação de profissionais voltados às novas exigências da economia sustentável.
Para ela, a transformação produtiva deve gerar novas demandas no mercado de trabalho.
“Tudo que é demandado é a transformação e o emprego verde vai exigir uma transformação contínua. Tem demanda, tem mercado, tem projeto, tem investimento, junto vem empregabilidade”, defende Nicolis Amaral.
Para Mário Cardoso, transformar as potencialidades do Nordeste em desenvolvimento exige planejamento e velocidade.
Ele lembra que empresas que não adotam processos mais sustentáveis podem perder espaço no mercado.
O especialista cita exigências ambientais estabelecidas por países e blocos econômicos, como a União Europeia, como exemplo de pressão crescente sobre cadeias produtivas.
O desafio, segundo Cardoso, é impedir que a degradação ambiental elimine oportunidades antes mesmo que elas se transformem em cadeias produtivas.
“Quando a gente trata da bioeconomia, muitas vezes o desmatamento vem antes e acaba com tudo. A gente tem que correr. Tem que começar a pensar de uma maneira mais pragmática, porque o mundo está andando muito depressa. Hoje, [se] a gente não consegue fazer, o outro lá fora faz e daqui a gente compra dele. Se a gente não transforma nossa bioeconomia, nosso açaí por exemplo, num produto realmente de peso no Brasil, daqui a pouco a gente vai estar comprando ele de outra pessoa, de outro país”, alerta Mário Cardoso.
O projeto Futuros Verdes no Nordeste busca compreender como diferentes territórios podem participar da transição para uma economia de baixo carbono.
A iniciativa parte da constatação de que a região enfrenta vulnerabilidades ambientais importantes, mas também reúne condições para liderar novos modelos produtivos.
Energia eólica, energia solar, bioeconomia, biodiversidade, turismo sustentável e capacitação profissional aparecem como caminhos para transformar potencialidades em desenvolvimento.
Projeto: Futuros Verdes no Nordeste
Objetivo: mapear oportunidades econômicas, setores produtivos, capacidades e competências para a transição de baixo carbono
Abrangência: nove estados do Nordeste
Instituições envolvidas: Instituto Clima e Sociedade e Centro de Estudos e Sistemas Avançados de Recife
Públicos ouvidos: especialistas, representantes do setor produtivo e atores ligados à sustentabilidade
Focos do mapeamento: economia verde, baixo carbono, energia renovável, bioeconomia, capacitação profissional e desenvolvimento sustentável
Especialistas citados: Diogo Araújo, Mário Cardoso e Nicolis Amaral
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