

A construção de um muro nas proximidades da Lagoa do Cauípe, em Caucaia, motivou protestos de moradores e trabalhadores do turismo que temem restrições ao acesso. A Semace embargou a intervenção em área protegida e aplicou multa de R$ 40 mil. O grupo Vila Galé afirma que pretende adequar o projeto e preservar a circulação da população | Foto: Gabriela Feitosa/g1 CE
19 de outubro de 2026 – A construção de um muro nas proximidades da Lagoa do Cauípe, um dos principais destinos turísticos de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, provocou a mobilização de moradores, bugueiros, instrutores de kitesurf e pequenos comerciantes que dependem economicamente da região. A comunidade teme que a intervenção restrinja o acesso público ao espaço natural e comprometa atividades tradicionais ligadas ao turismo.
A obra, de responsabilidade do grupo hoteleiro Vila Galé, foi embargada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) em 1º de outubro. Durante a fiscalização, o órgão constatou a execução do alicerce de um muro em Área de Preservação Permanente (APP), dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) do Lagamar do Cauípe, sem a apresentação da documentação necessária para autorizar a intervenção naquele local.
Além de determinar a paralisação imediata dos trabalhos, a Semace lavrou auto de infração e aplicou multa administrativa de R$ 40 mil.
O grupo Vila Galé sustenta que a construção estava prevista em projeto aprovado pelos órgãos competentes e afirma que fará ajustes na localização do muro, garantindo a continuidade do acesso à região.
A controvérsia envolve a preservação ambiental, o direito de circulação e o sustento de trabalhadores que há décadas utilizam a lagoa como espaço de trabalho, lazer e convivência comunitária.
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Localizada na região do Cumbuco, a Lagoa do Cauípe é conhecida internacionalmente pelas condições favoráveis à prática de kitesurf, atraindo praticantes e turistas de diferentes países.
O destino também movimenta uma cadeia econômica formada por bugueiros, instrutores de esportes aquáticos, comerciantes, trabalhadores de barracas e prestadores de serviços turísticos.
Para essas famílias, a lagoa representa mais do que uma atração turística: faz parte da identidade cultural da comunidade e garante renda para trabalhadores que construíram sua trajetória profissional na região.
Moradores afirmam que a construção do muro poderia comprometer uma das vias utilizadas para chegar à lagoa, dificultando a circulação de visitantes, trabalhadores e residentes.
Os questionamentos levaram a comunidade a organizar protestos e solicitar a intervenção dos órgãos ambientais.
Em 5 de outubro, moradores e trabalhadores realizaram uma manifestação com faixas em defesa do acesso à lagoa e contra a possibilidade de privatização do espaço.
O velejador e instrutor de kitesurf Vitor Santos, de 38 anos, afirma que frequenta a Lagoa do Cauípe desde os 14 anos e construiu sua atividade profissional no turismo local.
Segundo ele, as preocupações da comunidade começaram antes da instalação do alicerce do muro, diante de restrições à circulação em determinadas ocasiões.
“Eu frequento aqui desde os 14 anos. Agora eu tenho 38. Há muito tempo que eu trabalho com isso, junto com a comunidade”, relatou.
Vitor afirma que, durante eventos realizados na região, trechos da faixa de areia já teriam sido cercados, limitando a movimentação de frequentadores.
“Os eventos que eles fazem aqui, eles cercam toda a área de areia”, declarou.
O instrutor também relata que os trabalhadores passaram a se mobilizar quando perceberam o início das obras.
“Desde o começo do ano já estão querendo fazer isso. Só que agora aproveitaram as eleições e começaram a fazer o muro. Quando começaram, a gente se juntou, parou a obra e chamou a Semace. A Semace chegou e multou eles”, afirmou.
A fala de Vitor expressa a percepção dos trabalhadores sobre a finalidade da intervenção. A alegação de tentativa de privatização é contestada pelo empreendimento responsável pela obra.
A representante dos bugueiros Neidinha Sousa afirma que uma eventual restrição de acesso poderá atingir diretamente o sustento de profissionais que vivem da atividade turística.
Segundo ela, o grupo que representa reúne 189 pessoas diretamente ligadas ao trabalho na região.
“Eu sou representante dos bugueiros, então são 189 pessoas diretamente que sobrevivem daqui e ia ter um impacto muito grande”, declarou.
Neidinha também destaca o vínculo histórico das famílias com a Lagoa do Cauípe.
“A gente nasceu e viveu aqui. Então a gente não tem como abrir mão do espaço que é nosso, porque a gente nasceu aqui e a gente não vai abrir mão disso aqui”, afirmou.
A representante teme que uma eventual mudança nas condições de circulação comprometa tanto o acesso da comunidade quanto o movimento de turistas.
“Querem privatizar, querem fechar pra entrar só os que eles querem. Não é assim. Não tem condição de ser. Vai ter muito impacto isso aí. E a gente não vai deixar”, declarou.
O quantitativo de 189 profissionais é informado pela representante da categoria e não corresponde a um levantamento oficial de empregos ameaçados.
O bugueiro Fabrício Rodrigues também manifesta preocupação com as consequências econômicas de eventuais restrições à Lagoa do Cauípe.
Ele ressalta que o turismo constitui uma fonte importante de renda para famílias da comunidade, incluindo profissionais que atuam há gerações nos passeios pela região.
“Estava um pouco complicado semanas atrás, porque a galera estava querendo privatizar a lagoa. Fica difícil pra gente que depende do turismo”, relatou.

Para Fabrício, a continuidade das atividades depende da manutenção do acesso e da presença de visitantes.
“A gente não pode deixar acabar a lagoa. A galera do kite também depende daqui”, afirmou.
O trabalhador defende que as decisões sobre o espaço considerem a população que mora no entorno e depende das atividades turísticas para sobreviver.
As manifestações dos três entrevistados evidenciam uma preocupação comum: a possibilidade de que mudanças físicas no acesso provoquem efeitos econômicos e sociais sobre a comunidade.
A Superintendência Estadual do Meio Ambiente informou que recebeu a denúncia na manhã de 1º de outubro e realizou uma vistoria ainda naquela tarde.
No local, os fiscais encontraram a base do alicerce de um muro em construção.
Segundo o órgão, a intervenção estava localizada em Área de Preservação Permanente, dentro dos limites da APA do Lagamar do Cauípe.
A Semace esclareceu que uma obra com essas características exige regularização ambiental prévia e anuência do órgão gestor da unidade de conservação.
“Em razão das características e da localização da intervenção, sua realização depende de prévia regularização ambiental, incluindo a anuência do órgão gestor da unidade de conservação. No momento da fiscalização, não foi apresentada documentação que autorizasse a execução da obra na área protegida”, informou a autarquia.
Diante da irregularidade constatada, a fiscalização aplicou multa de R$ 40 mil e determinou o embargo da obra.
“A fiscalização foi realizada no mesmo dia do recebimento da denúncia, com adoção imediata das medidas administrativas cabíveis”, acrescentou a Semace.
O embargo determina a paralisação da intervenção questionada, não equivalendo automaticamente à suspensão de todas as atividades licenciadas do empreendimento.
O Instituto do Meio Ambiente de Caucaia (Imac) também se manifestou sobre a controvérsia.
Segundo o órgão municipal, o empreendimento possui licença para a construção de um hotel-clube, mas a autorização existente não contempla o muro identificado na fiscalização.
“A licença vigente não autoriza a construção do muro mencionado”, informou o Imac.
O instituto ressaltou que as intervenções em terrenos particulares localizados em áreas ambientalmente protegidas devem observar os limites estabelecidos nas licenças e na legislação.
A Prefeitura de Caucaia informou ainda que acompanha o caso e atua para esclarecer quais obras estão efetivamente autorizadas.
A manifestação municipal reforça a distinção entre a existência de licença para o empreendimento turístico e a necessidade de autorização específica para intervenções que possam atingir áreas protegidas.
Procurado pela imprensa, o grupo português Vila Galé contestou a interpretação de que o muro seria uma intervenção sem respaldo no projeto do empreendimento.
Em nota, a empresa afirmou que a estrutura estava sendo executada em conformidade com um “projeto que se encontra legalmente aprovado por todas as entidades municipais e ambientais”.
O grupo informou, entretanto, que identificou mudanças naturais no braço do Rio Cauípe próximo à propriedade e que pretende modificar o posicionamento da estrutura.
“Constatamos, no entanto, que o braço do rio que confina com a propriedade sofreu um alargamento natural desde a data da aprovação do projeto até agora e iremos reajustar o projeto alterando a localização do muro e garantindo os necessários afastamentos das margens do rio”, declarou.
A empresa acrescentou que pretende adotar um afastamento de 30 metros das margens, superior aos 15 metros que afirma serem legalmente exigidos no caso.
O Vila Galé também garantiu que a construção não impedirá a circulação de pessoas.
“O muro não vai impedir o acesso de pedestres, banhistas e trabalhadores à região, que é garantido por um caminho de acesso”, informou.
A afirmação da empresa diverge da preocupação manifestada pelos moradores e trabalhadores. A definição sobre a regularidade de qualquer projeto revisado dependerá da análise dos órgãos competentes.
O Mira Beach Club, estabelecimento que funciona no espaço do empreendimento Vila Galé, informou que não é proprietário do terreno nem responsável pelas obras realizadas nas proximidades da Lagoa do Cauípe.
Em nota, o estabelecimento declarou defender a conservação ambiental e a manutenção do acesso à lagoa.
“Reiteramos nosso compromisso com a preservação e o acesso livre e irrestrito da população à Lagoa do Cauípe, um patrimônio natural de grande importância para a região, que deve permanecer acessível a todos”, informou.
A manifestação busca diferenciar a atuação do estabelecimento comercial da responsabilidade pela construção do muro.
Além da construção do muro, frequentadores relataram ao g1 que teria ocorrido cobrança de valores entre R$ 30 e R$ 40 para acesso à região em determinados fins de semana.
De acordo com os relatos, as cobranças teriam sido feitas por pessoas associadas ao empreendimento.
Essas denúncias não foram comprovadas pela fiscalização ambiental divulgada até o momento. Também não há confirmação de que o acesso público à lagoa tenha sido legalmente convertido em serviço pago.
É necessário distinguir eventuais cobranças por serviços privados, como estacionamento ou estrutura de lazer, de restrições ao acesso a espaços públicos e recursos ambientais.
A regularidade de cada situação depende das características da área, da legislação aplicável e das autorizações existentes.
A Lagoa do Cauípe integra um importante conjunto de ambientes naturais do litoral oeste cearense.
A APA do Lagamar do Cauípe foi criada pelo Decreto Estadual nº 24.957, de 5 de junho de 1998, e possui aproximadamente 1.884 hectares.
A unidade abrange ambientes associados ao Rio Cauípe, dunas móveis e fixas, vegetação nativa e habitats utilizados por diferentes espécies da fauna regional.
Além de sua importância ecológica, o território apresenta grande potencial para turismo de natureza, atividades esportivas e lazer.
A preservação das condições ambientais é fundamental para manter o equilíbrio dos ecossistemas e as atividades econômicas que dependem deles.
Por isso, intervenções na região exigem cuidados especiais, principalmente quando envolvem margens de cursos d’água, dunas e áreas protegidas.
O embargo interrompeu a construção do muro, mas não encerrou as preocupações dos trabalhadores.
Moradores e representantes de atividades turísticas defendem que qualquer solução preserve as condições de acesso e seja discutida com as comunidades afetadas.
A reivindicação envolve tanto a proteção ambiental quanto a permanência das atividades de turismo responsáveis por gerar renda na região.
Do outro lado, o empreendimento sustenta que pode adaptar o projeto e manter um caminho disponível para visitantes, trabalhadores e moradores.
A solução dependerá da avaliação técnica das autoridades, do cumprimento das exigências ambientais e do esclarecimento sobre as condições de circulação.
Para os trabalhadores que frequentam o Cauípe há décadas, a prioridade é assegurar que o desenvolvimento turístico não comprometa o acesso à paisagem natural que sustenta suas atividades e integra a história da comunidade.
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