

Estudo da Uece identificou erosão de até 7 metros por ano em trechos do rio Jaguaribe. A pesquisa analisou transformações entre 1958 e 2025 e investigou os efeitos do Açude Castanhão sobre a dinâmica fluvial. | Foto: Andrea Cavalcante.
19 de outubro de 2026 – Trechos do rio Jaguaribe, no Ceará, registram erosão das margens de até 7 metros por ano, especialmente em áreas com solo arenoso e pouca vegetação ciliar. O dado faz parte de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece), que analisou as transformações do curso fluvial entre 1958 e 2025 e identificou mudanças na dinâmica do rio após o início da operação do Açude Castanhão, em 2002.
A pesquisa aponta que a barragem alterou o fluxo de água e o transporte de sedimentos, influenciando os processos de erosão e deposição ao longo do Jaguaribe. Os efeitos, entretanto, variam conforme as características de cada trecho, a cobertura vegetal e as intervenções humanas realizadas nas margens e no leito.
O trabalho é assinado pelos professores Andrea Almeida Cavalcante e Davi Rodrigues Rabelo, do curso de Geografia do Centro de Ciências e Tecnologia (CCT) da Uece, além de Marcos de Brito Bezerra. O artigo, intitulado “Morphological Changes and Alterations in Erosion–Accretion Patterns in a Semiarid Brazilian River”, foi publicado na revista científica internacional Earth Surface Processes and Landforms, da editora Wiley.
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Para investigar as transformações do Jaguaribe, os pesquisadores utilizaram fotografias aéreas históricas, imagens de satélite, levantamentos de campo e dados hidrológicos e sedimentológicos. A análise das mudanças na configuração do rio abrange o período de 1958 a 2025, enquanto os dados de campo e de monitoramento hidrossedimentológico usados na interpretação se concentram principalmente entre 2007 e 2010.
Entre os resultados, o estudo identificou uma redução de aproximadamente 76% na vazão média diária do rio e de cerca de 41% na concentração de sedimentos em suspensão na água, após as mudanças associadas à operação do Açude Castanhão.
Com a diminuição do volume de água e da quantidade de materiais transportados pela correnteza, a carga de sedimentos levada pelo rio caiu mais de 50%, segundo a pesquisa. Essa alteração interfere na distribuição de areia, argila e outros materiais, modificando a formação de depósitos e a configuração do leito fluvial.
A redução dos grandes picos de vazão também diminuiu a capacidade do rio de movimentar e redistribuir sedimentos. Em determinados setores, isso favoreceu a estabilização de bancos de areia e a expansão da vegetação sobre áreas de deposição.
As mudanças, porém, não significam que o Jaguaribe tenha deixado de sofrer alterações. A pesquisa identificou a continuidade de processos de erosão das margens, deslocamento localizado do canal e retrabalhamento de depósitos sedimentares.
As taxas de recuo das margens variam ao longo do rio. Nos trechos monitorados com margens arenosas e pouca vegetação ciliar, a erosão lateral chegou a 7 metros por ano. Já nas áreas com maior cobertura vegetal, a suscetibilidade à erosão foi menor.
A vegetação ciliar contribui para a proteção das margens, ajudando a manter o solo mais estável. Quando essa cobertura é reduzida, o terreno pode ficar mais vulnerável à ação da correnteza, sobretudo em locais com características naturais favoráveis ao desgaste.
Segundo o professor Davi Rabelo, a dinâmica do Jaguaribe precisa ser compreendida a partir da interação entre diferentes fatores. Além da regulação das vazões pelo Castanhão, a pesquisa considera a influência dos rios tributários, das passagens molhadas, do uso da terra, da vegetação e das características geomorfológicas de cada setor.
Essa combinação ajuda a explicar por que determinados trechos apresentam erosão intensa, enquanto outros registram maior deposição de sedimentos ou estabilização das barras fluviais. Dessa forma, os efeitos da barragem não são uniformes em toda a extensão do rio.
A bacia hidrográfica do Jaguaribe possui aproximadamente 74 mil quilômetros quadrados e ocupa cerca de metade do território cearense. O rio é considerado estratégico para os recursos hídricos superficiais do estado, o que torna o acompanhamento de suas transformações relevante para o planejamento ambiental e territorial.
De acordo com os pesquisadores, os resultados podem contribuir para discussões sobre a gestão dos recursos hídricos, a conservação da vegetação ciliar e o controle da erosão. O estudo também amplia o conhecimento sobre os efeitos de barragens e de outras intervenções humanas nos sistemas fluviais de regiões semiáridas.
A pesquisa caracteriza o Jaguaribe como um rio de leito de cascalhos e padrão wandering, expressão utilizada para descrever canais com barras sedimentares e mudanças de trajetória. Esse comportamento pode incluir migração do canal, deposição de materiais e estabilização parcial de determinados setores.
Ao reunir registros históricos e dados de campo, o trabalho oferece subsídios para compreender como mudanças na vazão, no transporte de sedimentos e no uso das margens interferem na evolução do rio Jaguaribe ao longo do tempo.
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Tags: Uece, rio Jaguaribe, erosão fluvial, Açude Castanhão, meio ambiente, recursos hídricos, vegetação ciliar, transporte de sedimentos, bacia do Jaguaribe, pesquisa científica, geografia, mudanças ambientais, planejamento ambiental, Ceará, Portal Terra da Luz