

Jornalista e escritor André Giusti reflete sobre a influência das redações, da reportagem e das histórias reais na construção de sua trajetória literária e de sua linguagem na ficção | Foto: divulgação
10 de agosto de 2026 – Era uma tarde de sábado em 1991. Eu estava de plantão na redação da Rádio CBN quando atendi ao telefonema de um policial. Ele avisava que um casal de idosos, aparentemente estrangeiro, havia sido encontrado morto a tiros em um apartamento no Leblon.
Casal de velhos, talvez gringos, os dois mortos a tiros em um bairro chique, de gente rica. Indiscutivelmente, era notícia. Aos 23 anos, eu não poderia imaginar que voltaria da cena do crime não apenas com a matéria, mas também com o ponto de partida do primeiro conto que escrevi na vida, “A História Triste de Hans e Alice”, presente em meu livro de estreia, “Voando Pela Noite (Até de Manhã)”, publicado pela 7Letras em 1996, indicado ao Prêmio Jabuti no ano seguinte e atualmente em sua segunda edição.
A história do casal de alemães que fez um pacto de morte por causa da doença terminal do homem não foi a única adaptação para a literatura daquilo que vi como repórter. Se quase nunca me permitiu tempo para ser escritor, o jornalismo foi, ao longo da vida profissional, apresentando-me situações e elementos humanos que, nascidos na realidade, ganharam vida na ficção — às vezes mais crua do que quando eram apenas notícias.
A profissão me ajudou a construir minha visão social e minha formação política, pilares da literatura que me proponho a fazer. A vivência na reportagem e nas redações foi uma das principais, se não a principal, forja do escritor que, neste ano de 2026, completa 30 anos de publicação.
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Procuro trabalhar bastante o texto na forma, na objetividade, na clareza e na elegância. Como leitor, valorizo mais como se conta do que aquilo que se conta. Lendo, posso me desinteressar por uma obra se o texto não reúne os elementos que elenquei acima.
Prefiro uma história simples, até pueril, mas escrita de um modo que não deixe você largar o livro. E eu trabalho para que os leitores não larguem meus livros.
No texto está mais uma parte da herança que minha literatura recebeu do jornalismo. Sempre trabalhei na mídia eletrônica — rádio e TV e, nos últimos anos, internet —, o que me obrigou a desenvolver uma redação clara e objetiva.
Em uma matéria de rádio ou TV, ou mesmo em um site, a falta de objetividade e clareza espanta o público. Acredito que o mesmo acontece no livro.
Acostumado a descrever com agilidade imagens e situações, também isso o autor que sou aprendeu com o repórter que fui: fugir do abismo da monotonia cavado pelo excesso de descrição, que pode colocar a perder completamente um livro com uma bela ideia, mas de desenvolvimento arrastado.
Existiria o escritor André Giusti sem o jornalista André Giusti? Acho que sim, até porque, antes de entrar em uma redação, eu já fazia poesia e arriscava algumas crônicas.
Mas penso que não faria uma literatura tão assertiva e afiada, preocupada com o real — palavras de leitores e resenhistas —, no sentido de fazer com que o leitor experimente a prova do cotidiano em suas camadas de prazer e dor.
O escritor pode ser considerado uma espécie de repórter, um repórter da não-notícia, na medida em que presta atenção a uma cena sem importância e a uma pessoa anônima no meio da rua. Depois, junta aquela pessoa àquela situação em uma realidade que constrói em sua cabeça com toda a estrutura da verdade.
Porque a diferença entre ficção e realidade é que uma aconteceu; a outra, não, mas poderia ter acontecido.
E isso deixa nítido que, muitas vezes, o repórter pega o ficcionista pelo braço e fala: “Senta aqui, deixa eu te contar umas coisas”.
André Giusti é jornalista, com passagens pelo Sistema Globo de Rádio (Rádio CBN), Grupo Bandeirantes de Comunicação, Fundação Roquette Pinto (TVE-RJ), Rádio e TV Justiça, entre outros. Atualmente, é assessor de imprensa do Senado Federal e repórter freelancer do #Colabora. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 1997 com “Voando Pela Noite, Até de Manhã” (7Letras, 1996) e semifinalista do Oceanos 2024 com “As Filhas Moravam Com Ele” (Caos e Letras, 2023). “Só vale a pena se houver encanto” é seu 11º livro e primeiro romance. André Giusti no Instagram.
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