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Opinião A Geração Z não é o problema. O trabalho é que não acompanhou o mundo Por Rodrigo Dib, superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE

Trabalho: Geração Z desafia modelo corporativo atual

Existe um diagnóstico errado circulando nas empresas brasileiras. E ele é conveniente demais para ser ingênuo | Foto: reprodução

09 de abril de 2026 – Quando uma empresa perde um talento jovem no terceiro mês, a narrativa que se instala nos corredores raramente questiona o ambiente. Questiona o jovem.

“Ansioso demais.”
“Não soube esperar.”
“Essa geração não tem comprometimento.”

O diagnóstico se repete com uma uniformidade que deveria, por si só, gerar suspeita — porque quando todo mundo concorda tão rapidamente sobre algo complexo, é sinal de que ninguém está pensando direito.

O problema com esse diagnóstico não é que seja completamente falso e sim que para na parte mais cômoda.

Se o problema é só comportamental, a solução é simples: corrigir os jovens, treinar resiliência, pregar paciência.

Mas se o que chamamos de impaciência for, na verdade, uma incompatibilidade estrutural entre um modelo de trabalho desenhado para outro mundo e uma geração formada em condições radicalmente diferentes, então a conversa muda de tom — e de responsável.

Esse segundo caminho é o que o debate corporativo brasileiro insiste em não tomar.

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O ambiente que formou essa geração não foi acidente

Nenhuma geração é resultado só dela mesma.

Como sempre falo em fóruns que participo sobre o tema e também no meu livro “O Mundo é seu, mas calma lá”, uma geração é sempre produto direto do contexto em que cresceu.

E esse contexto, no caso da Geração Z, é o primeiro na história humana inteiramente organizado sob demanda: streaming que eliminou a grade fixa, e-commerce que encurtou a espera de semanas para horas, comunicação que tornou distância geográfica irrelevante, e agora inteligência artificial que comprime em segundos o que levaria horas de pesquisa.

Segundo o IBGE, mais de 90% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos usam a internet diariamente.

Não é dado de acesso — é dado de formação. É o ambiente em que aprenderam o que é normal esperar, o que é razoável exigir, o que significa eficiência.

A pergunta que o mercado evita fazer é simples: por que esperaríamos que essa geração chegasse ao trabalho com a mesma relação com tempo e hierarquia que um profissional formado nos anos 1990 — quando conhecimento era escasso, carreira era linear e referências de sucesso eram locais e geracionais?

Não é a mesma base cognitiva. Não é o mesmo repertório. Não é razoável esperar o mesmo comportamento e chamar de defeito quando ele não aparece.

A narrativa dominante insiste em falta de comprometimento. Os números contam uma história diferente.

44% da Geração Z rejeita empregos sem aprendizado contínuo ou desenvolvimento claro. Não é fuga do trabalho — é fuga da estagnação. Deloitte Global Survey, 2024.

23% dos jovens profissionais se consideram engajados no trabalho. O número baixo não reflete preguiça. Reflete desconexão com estruturas que não fazem sentido. Gallup State of the Global Workplace, 2024.

Há ainda o dado que ninguém gosta de colocar na mesma frase que a crítica aos jovens: o Fórum Econômico Mundial estima que 44% das habilidades profissionais devem mudar até 2027.

Isso significa que o mercado que cobra paciência para aprender “o jeito certo” está simultaneamente admitindo que esse jeito certo tem prazo de validade curto.

Existe uma incoerência aqui que merece ser nomeada: empresas pedem adaptabilidade como competência, mas resistem quando ela aparece na forma de questionamento do que sempre foi feito assim.

O paradoxo que ninguém quer citar

Existe uma ironia específica nesse debate que raramente aparece em artigos sobre Geração Z — talvez porque incomode os dois lados.

As empresas que mais encantaram essa geração, que moldaram seus valores sobre cultura, autonomia e propósito, são as mesmas que nos últimos dois anos protagonizaram as maiores demissões em massa da história recente e reverteram, uma após outra, suas políticas de trabalho flexível.

Google, Meta, Amazon: todas voltaram a cobrar presença, controle e o modelo que antes criticavam publicamente.

A Gen Z sente que comprou um ingresso para um show que foi cancelado na metade.

Isso não invalida os valores que a Geração Z internalizou.

Mas cria uma tensão real e pouco discutida: a geração que foi formada assistindo a promessa de que trabalho poderia ser diferente está encontrando, na prática, um mercado que recua dessa promessa.

Parte do desengajamento que o RH trata como traço de personalidade é, na verdade, resposta legítima a uma contradição estrutural — e não tem cura em treinamento de resiliência.

O que as organizações que funcionam já entenderam

As empresas que conseguem engajar esse perfil não fizeram milagres nem abandonaram os fundamentos.

Fizeram algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: pararam de usar tempo como principal proxy de valor.

Ciclos de feedback mais curtos, critérios de crescimento baseados em entrega e não em tempo de casa, clareza sobre trajetória desde o início — não como promessa vaga, mas como contrato transparente.

Autonomia com responsabilidade, não autonomia como slogan.

Flexibilidade personalizada, ou seja, desde que você me entregue o que é esperado, eu me adapto a você, sem problemas.

O detalhe mais revelador é que essas mudanças melhoram o desempenho em todas as faixas etárias.

Profissionais seniores também respondem melhor a feedback frequente, critérios claros e menos burocracia desnecessária.

O que reforça o que o debate insiste em ignorar: o problema nunca foi a geração.

A pergunta que ninguém está fazendo

Estamos em 2026. A inteligência artificial generativa já mudou, de forma irreversível, o que significa aprender, produzir e gerar valor profissional.

Um trabalho que antes levava um dia pode ser feito em horas. Uma pesquisa que exigia semanas pode ser estruturada em minutos.

O resultado — quando bem calibrado — continua sendo bom. O que mudou foi o tempo para chegar lá.

Isso obriga uma revisão que o mercado ainda adia: se produtividade mudou, se ferramentas mudaram, se a forma de aprender e gerar impacto mudou, por que promoção e salário ainda estão associados a anos de casa e experiência e não a entrega consistente?

Por que carreira ainda é pensada como espera, e não como evolução verificável?

Seguir medindo esforço pelo relógio, num ambiente onde o relógio deixou de ser a métrica relevante, não é tradição a ser preservada. É ineficiência a ser corrigida.

Construção de carreira continua exigindo consistência, esforço e tempo. Isso não mudou e não vai mudar.

O que a Geração Z desafia — e faz bem em desafiar — não é a necessidade de se desenvolver.

É a lógica de que desenvolvimento precisa ser lento por padrão, que hierarquia vale mais que entrega, que reconhecimento deve sempre chegar tarde.

Esse desafio, quando as empresas param de tratá-lo como ameaça e começam a tratá-lo como dado, é exatamente o tipo de pressão que melhora organizações.

A pergunta útil nunca foi “como corrigimos essa geração?”

A pergunta útil é: o que o nosso modelo precisa mudar para não perder quem vai sustentar o mercado nas próximas duas décadas?

Sinais ignorados viram custo. E esse custo — em rotatividade, em engajamento perdido, em talentos que foram embora — já está aparecendo nos balanços de quem escolheu não prestar atenção.

No final, a pergunta não é sobre eles. É sobre nós.

Estamos dispostos a revisar o que sempre funcionou — ou pelo menos o que sempre foi feito — com a mesma velocidade que exigimos deles?

Porque continuar respondendo a um mundo novo com respostas antigas não é uma sabedoria acumulada e sim o diagnóstico errado de sempre, repetido com confiança impressionante.


Rodrigo Dib é superintendente Institucional do Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para portalterradaluz.


Rodrigo Dib | Foto: divulgação

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Tags: Geração Z, mercado de trabalho, jovens profissionais, futuro do trabalho, inteligência artificial, engajamento profissional, produtividade, carreira, transformação digital, cultura organizacional, RH, inovação nas empresas, desenvolvimento profissional, IBGE, Deloitte, Gallup, Fórum Econômico Mundial, Portal Terra Da Luz

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O editor responsável pelo Portal Terra da Luz é o jornalista Hermann Hesse, profissional reconhecido pela atuação na imprensa cearense desde 1990. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou durante quase 20 anos na TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo, como repórter, produtor, editor, apresentador, editor-chefe do jornal mais importante e de maior audiência do Ceará, o CETV. Em 2011, assumiu a Coordenadoria de Comunicação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e, dois anos depois, foi Coordenador de Comunicação Institucional da Prefeitura de Fortaleza. Em janeiro de 2019, assumiu a direção de Jornalismo do Grupo Cidade de Comunicação, onde atuou por 2 anos e meio. No dia 12 julho de 2021 colocou no ar a primeira notícia e, desde então, é o responsável por todos os conteúdos publicados no Portal Terra da Luz. Entre agosto de 2022 e agosto de 2025 atuou, paralelamente, como diretor de Jornalismo da Band Ceará, emissora ligada diretamente à cabeça de rede, em São Paulo.

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