

Caminhada com Maria inspira reflexão sobre fé, matrimônio, respeito às mulheres e o papel da evangelização na construção de famílias baseadas no diálogo, no cuidado e na dignidade | Foto: rerpodução
18 de agosto de 2026 – No último dia 15 de agosto, Fortaleza voltou a testemunhar uma das mais belas manifestações públicas de fé do nosso povo. A 24ª Caminhada com Maria levou uma multidão às ruas para celebrar Nossa Senhora da Assunção, Padroeira de Fortaleza. Milhares de pessoas caminharam, rezaram e cantaram, demonstrando publicamente seu amor à Mãe de Jesus.
Para mim, esta caminhada teve um significado ainda mais especial. Ao lado da minha esposa, Lia, tive a graça de servir como Guardião de Nossa Senhora. E havia uma razão muito particular para agradecer: celebrávamos também 29 anos de matrimônio.
Depois de quase três décadas caminhando juntos pela vida, estávamos novamente lado a lado, agora caminhando com Maria, servindo àquela que nos conduz a Cristo e agradecendo a Deus pela nossa família e pela história que Ele nos permitiu construir.
Tenho profunda devoção a Nossa Senhora. Maria ocupa um lugar especial na minha caminhada de fé. Creio na sua poderosa intercessão e acredito que, quanto mais verdadeiramente nos aproximamos dela, mais somos conduzidos ao seu Filho. Maria não nos afasta de Cristo. Maria nos leva a Cristo.
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Enquanto contemplava aquela multidão caminhando pelas ruas de Fortaleza, uma inquietação me acompanhava: como pode um país de tão profunda tradição cristã, no qual a devoção a Nossa Senhora permanece tão viva, continuar convivendo com índices tão graves de violência contra as mulheres?
Essa pergunta não diminui em nada minha devoção a Maria. Pelo contrário. Ela nasce exatamente dela.
Tenho uma convicção pessoal: acredito que a violência seria ainda maior se não existissem a verdadeira devoção, a evangelização e o trabalho silencioso que a Igreja realiza diariamente dentro das famílias.
Quantas relações foram restauradas pela fé? Quantos homens mudaram seus comportamentos depois de um verdadeiro encontro com Cristo? Quantos casais aprenderam a dialogar, perdoar e recomeçar? Quantas famílias foram preservadas porque alguém decidiu abandonar o orgulho, procurar ajuda e permitir que Deus transformasse seu coração?
Essas histórias dificilmente aparecem nas estatísticas.
A violência aparece. O feminicídio aparece. A tragédia vira notícia. Mas a família que se reconciliou, o marido que mudou sua maneira de tratar a esposa, o casal que reaprendeu a conversar e a família que encontrou na fé forças para reconstruir seus vínculos quase nunca ocupam as manchetes.
E são justamente essas transformações silenciosas que me fazem acreditar ainda mais na força da evangelização.
É necessário, porém, distinguir a devoção verdadeira de uma religiosidade apenas exterior.
Não basta carregar uma imagem de Nossa Senhora. Não basta participar de uma procissão. Não basta rezar uma Ave-Maria se aquilo que pronunciamos com os lábios não alcançar nosso coração e nossas atitudes.
A verdadeira devoção a Maria produz conversão, porque Maria sempre nos conduz a Jesus. Nas Bodas de Caná, suas palavras continuam atravessando os séculos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5).
Quem verdadeiramente encontra Maria é levado ao encontro de Cristo. E quem verdadeiramente encontra Cristo precisa permitir que esse encontro transforme também a maneira como ama.
É aqui que precisamos recuperar o verdadeiro significado cristão do matrimônio.
As Sagradas Escrituras nos ensinam: “Assim, eles já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6). São Paulo igualmente afirma que “os maridos devem amar suas mulheres como a seus próprios corpos” e conclui: “Quem ama sua mulher ama a si mesmo” (Ef 5,28).
Se marido e mulher são uma só carne, como alguém pode ferir aquela que é sua própria carne?
Como pode haver amor onde existe violência? Como pode haver comunhão onde existe medo? Como pode existir matrimônio verdadeiramente cristão quando um procura dominar, humilhar, ameaçar ou agredir o outro?
Quem compreende verdadeiramente o sacramento do matrimônio sabe que a esposa não é propriedade do marido. O amor cristão não aprisiona.
Amor não é posse. Amor não é controle. Amor não é violência.
O amor cristão é doação, cuidado, respeito, paciência e perdão. É aprender a caminhar juntos mesmo quando existem diferenças. É compreender que aquele que está ao nosso lado possui uma dignidade que jamais pode ser violada.
Diante do crescimento dos feminicídios e das diferentes formas de violência contra a mulher, não podemos olhar apenas para o Direito Penal.
Evidentemente, precisamos de leis firmes, medidas protetivas eficazes, instituições preparadas, prevenção e punição rigorosa para os agressores. Mas precisamos igualmente enfrentar aquilo que acontece antes da violência.
Precisamos formar pessoas para amar.
Precisamos evangelizar as famílias.
Precisamos ensinar aos nossos filhos que força não significa domínio; que ciúme não é prova de amor; que ninguém é proprietário de ninguém; e que nenhuma frustração, separação ou divergência autoriza um homem a violentar uma mulher.
É justamente nesse campo que reconheço, com esperança e gratidão, o extraordinário trabalho que Cristo realiza por meio de sua Igreja.
Um exemplo concreto dessa missão é o Encontro de Casais com Cristo – ECC.
Ao longo de sua história, o ECC tem aproximado casais da Igreja e ajudado inúmeras famílias a redescobrirem o diálogo, o perdão, a espiritualidade conjugal e o sentido cristão do matrimônio.
Mais do que simplesmente reunir marido e mulher, procura ajudá-los a compreender que o matrimônio cristão precisa ser vivido em verdadeira comunhão entre o casal e Cristo.
Não existem famílias perfeitas. Existem divergências, crises, dificuldades financeiras, cansaço, incompreensões e momentos em que é necessário recomeçar. Mas nenhuma dessas dificuldades justifica a violência.
É exatamente nos momentos difíceis que precisamos recordar que aquele que está ao nosso lado não é nosso adversário.
Tenho visto a Igreja realizar silenciosamente esse trabalho. Casamentos reencontrando o diálogo. Homens revendo comportamentos. Mulheres sendo valorizadas. Famílias voltando a rezar juntas. Casais compreendendo que a felicidade conjugal não está em um dominar o outro, mas em ambos aprenderem a servir.
São almas sendo alcançadas por Cristo. São famílias sendo reconciliadas. São vidas sendo transformadas.
E talvez nunca consigamos medir quantas tragédias foram evitadas porque uma pessoa encontrou verdadeiramente Cristo antes que o ódio, o orgulho, o ciúme ou o sentimento de posse dominassem seu coração.
Não vejo qualquer contradição entre denunciar a violência contra a mulher e afirmar minha profunda devoção a Nossa Senhora. É justamente por ser devoto de Maria que não posso permanecer indiferente à violência contra as mulheres.
Maria foi mulher de coragem. Mulher de fé. Mulher que livremente disse “sim” ao plano de Deus. Mulher que permaneceu de pé diante da Cruz.
E há, sim, uma contradição quando alguém se ajoelha diante de uma imagem de Nossa Senhora, chama Maria de Mãe e, depois, é incapaz de reconhecer a dignidade da mulher que está ao seu lado.
Esse homem ainda precisa compreender verdadeiramente aquilo que significa ser devoto de Maria.
Naquele 15 de agosto, enquanto caminhava ao lado de Lia, celebrando nossos 29 anos de matrimônio e servindo como Guardiões de Nossa Senhora, pensei na graça de podermos continuar caminhando juntos.
Vinte e nove anos não significam uma história sem dificuldades. Significam uma história construída diariamente: com aprendizado, renúncia, perdão, companheirismo, fé e a compreensão de que o matrimônio também precisa ser uma caminhada com Cristo.
Por isso, diante de cada notícia de uma mulher agredida ou assassinada, minha fé não me permite apenas lamentar. Ela me obriga a perguntar:
Se somos um povo que ama tanto Nossa Senhora, por que ainda existem tantos homens que não aprenderam a amar e respeitar as mulheres?
Minha resposta não é abandonar a devoção. É exatamente o contrário.
Precisamos de mais verdadeira devoção. Mais evangelização. Mais famílias vivendo Cristo. Mais homens permitindo que Maria os conduza ao seu Filho.
Porque a verdadeira devoção não termina diante de uma imagem. Ela começa ali e precisa continuar dentro de casa, na maneira como tratamos nossa esposa, nossos filhos, nossa família e todas as pessoas que Deus coloca em nosso caminho.
Na Caminhada com Maria, percorremos quilômetros pelas ruas de Fortaleza. Mas existe uma caminhada ainda mais difícil: aquela que fazemos para dentro de nós mesmos.
Que Maria nos conduza nessa caminhada.
Que nos leve a Cristo.
E que Cristo transforme nossos corações e nossas famílias.
Porque quem compreende verdadeiramente o matrimônio sabe que não se fere a própria carne. E quem verdadeiramente ama Maria jamais poderá permanecer indiferente à violência contra uma mulher.
Talvez seja esta uma das grandes missões que devemos levar conosco depois que a Caminhada com Maria termina: caminhar com Maria, viver com Cristo e fazer de nossas famílias lugares onde nenhuma mulher precise ter medo de quem um dia lhe prometeu amor.
Harley Ximenes é advogado. Especialista em Direito Matrimonial Canônico, do Trabalho, Empresarial e Sindical.
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