

Pix se tornou o principal meio de pagamento do Brasil e agora está no centro de uma disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos. | Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil
02 de junho de 2026 – O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) incluiu o Pix entre os principais pontos de crítica ao Brasil em relatório divulgado nesta semana sobre supostas práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses norte-americanos.
O documento, elaborado no âmbito de uma investigação iniciada em julho de 2025 durante o governo do presidente Donald Trump, afirma que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos recebe tratamento preferencial por parte do Banco Central do Brasil, o que, segundo os Estados Unidos, prejudicaria empresas norte-americanas do setor de pagamentos eletrônicos.
Entre as companhias citadas como afetadas estariam as bandeiras de cartões Visa e MasterCard, além do serviço Whatsapp Pay.
Segundo o relatório, o Banco Central exerceria simultaneamente as funções de regulador e operador do Pix, o que, na avaliação do USTR, poderia gerar conflitos de interesse.
“Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial concedido ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de tarifas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas à empresa líder nacional”, afirma o documento.
A conselheira jurídica-geral do USTR, Jennifer Thornton, também criticou o modelo de gestão do sistema brasileiro.
“O papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas. O banco agiu para prejudicar os provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e dar preferência ao Pix”, destacou.
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O relatório integra uma investigação iniciada há um ano pelo governo norte-americano para apurar supostas práticas comerciais desleais adotadas pelo Brasil.
Além das críticas ao Pix, o documento sugere medidas corretivas que incluem a possibilidade de aplicação de tarifas de até 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos.
O governo brasileiro e empresas potencialmente afetadas poderão apresentar manifestações e contribuições até o dia 15 de julho de 2026, prazo final para a conclusão do processo.
Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Pedro Paulo Zahluth Bastos, as críticas ao Pix refletem uma disputa econômica pelo mercado de pagamentos eletrônicos.
“O problema é que o Pix já é um sistema soberano, público e gratuito, que oferece uma alternativa a essas redes privadas, que geram muitos lucros, que são controlados pelos EUA”, avaliou.
O economista também rejeitou a interpretação de que o sistema brasileiro represente discriminação contra empresas estrangeiras.
“O Pix mostrou que uma infraestrutura pública pode deslocar o modelo privado, que extrai tarifas. E esse modelo está se espalhando, como na Índia. O interesse dos EUA é essa renda de intermediação que os comerciantes pagam entre 2% a 5% na transação dos cartões de crédito”, afirmou.
Desde seu lançamento pelo Banco Central em novembro de 2020, o Pix se consolidou como o principal meio de pagamento do país.
Atualmente, o sistema movimenta volumes financeiros superiores aos registrados por cartões de crédito e débito operados por grandes bandeiras internacionais.
Segundo Pedro Paulo Zahluth Bastos, a existência do Pix não impede a atuação de empresas privadas no mercado brasileiro.
“O Pix não está impedindo a operação dos cartões. Ele compete, claro, oferecendo um bem público, gratuito e que funciona. Não existe nenhuma proibição de que um bem público não possa ser oferecido por um Estado soberano”, ressaltou.
O relatório norte-americano destaca que instituições financeiras com mais de 500 mil contas são obrigadas a participar do sistema Pix.
O USTR também critica a exigência de que bancos e instituições participantes disponibilizem o Pix com destaque semelhante ao dado a outros meios de transferência e mantenham o serviço gratuito para pessoas físicas.
Para os representantes do governo norte-americano, essas regras criariam custos adicionais para empresas estrangeiras que atuam no setor financeiro.
Segundo informações divulgadas pela agência Bloomberg, empresas de tecnologia e grandes operadoras de cartões de crédito dos Estados Unidos teriam pressionado o governo de Donald Trump para adotar uma posição mais firme contra o sistema brasileiro.
Analistas apontam que o crescimento do Pix reduziu significativamente a dependência dos consumidores brasileiros de soluções privadas de pagamento, afetando receitas obtidas por meio de tarifas cobradas nas transações.
Especialistas destacam que a discussão ultrapassa a concorrência comercial e envolve temas como soberania tecnológica, inovação financeira e autonomia dos sistemas nacionais de pagamentos.
O Pix é considerado uma das iniciativas de maior sucesso do sistema financeiro brasileiro nas últimas décadas, sendo frequentemente citado como referência internacional por organismos econômicos e bancos centrais de diversos países.
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