

Mercado financeiro acompanha os efeitos da disputa presidencial de 2026 sobre a Bolsa, o câmbio e o fluxo de capital estrangeiro no Brasil | Foto: reprodução
23 de maio de 2026 – O cenário eleitoral brasileiro já começou a provocar oscilações no mercado financeiro, mas ainda ocupa papel secundário diante das incertezas externas, especialmente o contexto geopolítico internacional. A avaliação é de analistas ouvidos pelo CNN Money, que apontam aumento da volatilidade nos ativos brasileiros, embora o foco dos investidores ainda esteja mais voltado ao exterior.
Nos últimos meses, movimentos políticos ligados à disputa presidencial de 2026 tiveram impacto sobre a Bolsa. Em 5 de dezembro de 2025, quando ainda se desenhava o cenário eleitoral, o Ibovespa fechou em queda superior a 4% após a notícia de que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) havia escolhido o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato à Presidência para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Mais recentemente, no dia 13 de maio, o Ibovespa voltou a registrar queda acima de 2% após reportagem do Intercept Brasil apontar que Flávio Bolsonaro teria negociado pagamentos com Daniel Vorcaro, ex-dono do liquidado Banco Master, para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Apesar das quedas pontuais ligadas ao noticiário político, especialistas avaliam que o processo eleitoral ainda não superou o peso do ambiente externo na formação de preços dos ativos brasileiros.
Segundo os analistas, até o período de definição oficial das candidaturas à Presidência, o mercado tende a manter maior atenção sobre fatores internacionais, como juros elevados, maior aversão global ao risco e tensões geopolíticas.
Bruno Perri, economista-chefe da Dom Investimentos, avalia que, em dias com poucas novidades sobre o conflito entre Estados Unidos e Irã, notícias relevantes sobre a eleição brasileira passam a ter influência mais perceptível no mercado.
Desse modo, para o especialista, as eleições ainda são coadjuvantes em relação ao Oriente Médio.
O economista e especialista em investimentos Danilo Coelho afirma que os reflexos eleitorais já podem ser percebidos na saída de capital estrangeiro da Bolsa brasileira.
Investidores estrangeiros retiraram mais de R$ 9,64 bilhões da B3 desde o início de maio, segundo dados compilados pela consultoria Elos Ayta. O movimento representa o maior recuo mensal parcial desde abril de 2024, quando o mês inteiro registrou saída de R$ 11,36 bilhões.
“O investidor estrangeiro tem tirado dinheiro da bolsa todos os dias desde a metade do mês passado. Isso tem feito o Ibovespa recuar para a casa dos 173 mil pontos e em alguns dias negociando até abaixo desse patamar. Estamos vendo um fluxo vendedor forte no mercado brasileiro”, analisa Coelho.
Para os próximos meses, a expectativa é de maior volatilidade na Bolsa e no câmbio, com o mercado mais sensível ao noticiário político e econômico.
De acordo com especialistas, a eleição de 2026 ocorre em um ambiente particularmente desafiador, marcado por juros elevados, aversão ao risco global, instabilidade internacional e preocupação com a situação fiscal brasileira.
“O período eleitoral tende a adicionar mais tensão a um mercado que já opera sob pressão, ampliando a volatilidade nos próximos meses”, afirma Raissa Florence, economista da Oz Câmbio.
Segundo Florence, esta eleição também traz um componente novo: o avanço da inteligência artificial no fluxo de informações e na dinâmica das campanhas. Para ela, a circulação mais rápida de notícias pode tornar o ambiente mais complexo e sujeito a mudanças bruscas de percepção.
“O Ibovespa vem sendo sustentado, em parte, pela entrada de capital estrangeiro, e o risco eleitoral em países emergentes costuma pesar nas decisões de alocação dos investidores internacionais”, avalia.
Com a expectativa de volatilidade elevada, especialistas recomendam atenção redobrada ao noticiário e maior equilíbrio na composição das carteiras de investimento.
Para Bruno Perri, é importante que o investidor mantenha ativos de menor risco, como renda fixa. Ele também cita ativos de proteção, como ouro e dólar, que historicamente podem apresentar comportamento inverso aos ativos de maior risco.
Danilo Coelho sugere que investidores avaliem a possibilidade de diversificação internacional como forma de reduzir a exposição à instabilidade doméstica.
“O investidor pode começar a olhar cada vez com mais carinho para uma alocação em bolsa americana, europeia ou algo em que o patrimônio dele fica fora das mazelas do nosso período eleitoral”, recomenda.
Raissa Florence também cita alternativas de longo prazo e menor risco, como Treasuries, nos Estados Unidos, e títulos públicos no Brasil. Ela destaca ainda a importância de buscar opções de crédito mais eficientes em um cenário de juros elevados.
Apesar da atenção crescente à disputa presidencial, analistas consideram precipitado apontar um “candidato preferido” do mercado neste momento. O foco, segundo eles, está menos nos nomes e mais na capacidade dos candidatos de apresentar responsabilidade fiscal, previsibilidade econômica e governança das contas públicas.
“O mercado tende a reagir de forma mais positiva a candidaturas que transmitam maior segurança institucional, reduzam percepções de risco e demonstrem disposição para enfrentar temas como equilíbrio fiscal, eficiência do gasto público e ambiente de negócios”, afirma Florence.
Para Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB e professor do Insper, o mercado ainda não tem um candidato considerado ideal. Segundo ele, o ponto central será a proposta do futuro presidente para enfrentar a trajetória da dívida pública.
“Nós estamos esperando um candidato, seja Bolsonaro ou qualquer outro, que enderece o problema da dívida pública, porque ela está em uma trajetória explosiva. Com a gastança do Lula, já começamos a pensar que o Banco Central vai postergar qualquer corte de juros”, afirmou.
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