

Pesquisadora Tatiana Sampaio afirma que estudo sobre polilaminina passará por revisão antes de nova tentativa de publicação científica | Foto: reprodução/TV Globo
07 de março de 2026 – A pesquisadora Tatiana Sampaio afirmou que fará correções no artigo científico que apresenta a polilaminina como um possível tratamento para lesões na medula espinhal. Em entrevista exclusiva ao portal g1, ela reconheceu falhas na redação do estudo, inconsistências em gráficos e problemas na apresentação de alguns dados.
Segundo a cientista, o material passará por uma revisão completa antes de uma nova tentativa de publicação em revista científica. Apesar das correções previstas, Tatiana mantém a posição de que a substância apresenta potencial terapêutico para regeneração de conexões nervosas.
A polilaminina é uma proteína derivada da laminina, molécula presente naturalmente nos tecidos do corpo humano e responsável por dar suporte às células. A hipótese do estudo é que, ao ser aplicada na região lesionada da medula espinhal, a substância poderia estimular a recuperação das funções nervosas.
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O trabalho reúne resultados de cerca de duas décadas de estudos realizados na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa foi divulgada inicialmente em formato de pré-print, uma versão preliminar de artigo científico disponibilizada antes da revisão por outros especialistas.
Os testes em humanos começaram em 2018 e envolveram oito pacientes com lesão medular. Antes disso, os pesquisadores haviam realizado experimentos em cães.
A investigação ganhou grande repercussão pública em 2026 após o caso de Bruno Drummond, paciente que participou do estudo após sofrer lesão medular em 2018 e posteriormente voltou a andar. O episódio levou o tema a ganhar grande visibilidade nas redes sociais e na mídia.
O projeto recebeu investimento superior a R$ 100 milhões da farmacêutica Cristália, que pretende transformar a substância em medicamento.
Entre os pontos que serão corrigidos no artigo está um erro de identificação em um gráfico. Na versão atual do pré-print, um paciente que havia morrido poucos dias após o procedimento aparecia com evolução clínica registrada cerca de 400 dias depois.
Tatiana confirmou que houve erro de digitação e que os dados pertenciam, na verdade, a outro participante do estudo.
Outro ajuste envolve a forma de apresentação de exames de eletromiografia utilizados para avaliar a recuperação de pacientes. Segundo a pesquisadora, algumas imagens do estudo foram exibidas com dados brutos e serão substituídas por versões mais claras e tecnicamente adequadas.
Além das mudanças técnicas, a cientista afirmou que o texto passará por revisão geral para melhorar a explicação dos métodos e resultados.
Mesmo com as correções anunciadas, especialistas ainda apontam dúvidas sobre a eficácia da polilaminina. Um dos principais questionamentos é a ausência de grupo controle na pesquisa.
No estudo divulgado, todos os participantes receberam a substância e também passaram por procedimentos considerados padrão no tratamento de lesão medular, como cirurgia de descompressão da coluna e fisioterapia intensiva.
Segundo especialistas, isso dificulta determinar se a melhora observada nos pacientes foi causada pela polilaminina ou pelo conjunto das intervenções médicas.
O presidente da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Delson José da Silva, destacou que muitos pacientes podem apresentar recuperação parcial apenas com cirurgia e reabilitação.
Para que a polilaminina seja considerada um tratamento seguro e eficaz, ainda serão necessários ensaios clínicos regulatórios em humanos. O processo começa pela fase 1, que avalia a segurança do composto em pequenos grupos.
Em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início dessa etapa, que ainda aguarda aprovação ética para ser iniciada.
Caso os testes confirmem a segurança, a pesquisa deverá avançar para as fases 2 e 3, nas quais são avaliadas eficácia, dosagem adequada e possíveis efeitos adversos em populações maiores.
Desde a divulgação da pesquisa, a repercussão levou dezenas de pacientes com lesão medular a acionarem a Justiça em busca de acesso ao tratamento. Segundo o laboratório responsável, cerca de 40 ações judiciais já foram registradas, com 19 aplicações da substância realizadas por determinação judicial.
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