
O estudo alerta para a contaminação dos ecossistemas costeiros e reforça a necessidade de melhorar a gestão de resíduos e o saneamento. | Foto: divulgação/Labomar/UFC
03 de setembro de 2026 – Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou a presença de bisfenóis em caranguejos coletados em manguezais de Fortim, no litoral leste do Ceará. Em algumas amostras, os níveis das substâncias foram considerados “alarmantes” pelos pesquisadores.

O estudo também analisou caranguejos coletados em Itapissuma, em Pernambuco, e faz parte de um levantamento mais amplo sobre a presença de bisfenóis e outros contaminantes em manguezais do Norte e Nordeste brasileiros.
Os pesquisadores apontam que os caranguejos podem funcionar como indicadores biológicos da poluição nos manguezais. A presença dessas substâncias nos animais pode estar relacionada à entrada de contaminantes nos ecossistemas costeiros e reforça a necessidade de melhorar a gestão de resíduos sólidos e líquidos.
Segundo o professor Rivelino Cavalcante, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar-UFC) e coordenador do estudo, o descarte inadequado de determinados materiais pode contribuir para a contaminação ambiental.
“O problema é quando esse material vai para o descarte. Se ele vai para um aterro sanitário ou reciclagem, tudo bem. Agora, se ele vai parar num lixão, ou em um aterro não controlado, aí é onde está o problema, pois as substâncias contidas nele vão chegar no ambiente”, alerta.
A pesquisa foi realizada em 2025 e analisou amostras de caranguejos de Fortim e Itapissuma, áreas escolhidas por apresentarem manguezais importantes, mas submetidos a diferentes características e pressões ambientais.
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O estudo é apontado pelos pesquisadores como o primeiro a investigar a presença dessas substâncias em caranguejos por meio da análise da urina e da hemolinfa, líquido que exerce função semelhante ao sangue nos crustáceos.
Os bisfenóis foram encontrados nos dois materiais analisados. As concentrações foram, porém, consideravelmente maiores na hemolinfa e mais elevadas nos animais coletados em Fortim.
De acordo com os pesquisadores, a maior concentração na hemolinfa indica que os contaminantes estão circulando pelo organismo do caranguejo, enquanto a urina representa principalmente as substâncias que estão sendo eliminadas.
Entre os compostos identificados estão o bisfenol A (BPA), o bisfenol F (BPF) e o bisfenol C (BPC). Em grande parte das amostras, os níveis estimados de exposição ficaram acima de referências de ingestão diária tolerável utilizadas para seres humanos.
Um dos casos considerados mais preocupantes foi o do bisfenol F em caranguejos da espécie Cardisoma guanhumi coletados em Fortim.
O bisfenol A é conhecido por sua capacidade de interferir no funcionamento do sistema endócrino. Estudos científicos relacionam a exposição à substância a possíveis alterações imunológicas, reprodutivas, metabólicas e neurológicas, além de associações com alguns tipos de câncer.

No Brasil, o uso do BPA é proibido especificamente em mamadeiras e utensílios destinados à alimentação de lactentes e crianças de até três anos. Para outras aplicações, seu uso é permitido dentro dos limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Rivelino Cavalcante chama atenção também para a utilização de outros bisfenóis como alternativas ao BPA.
“Isso é preocupante, porque o BPF vem sendo utilizado como substituto do BPA em diversos produtos, mas estudos científicos já indicam que ele também apresenta atividade de desregulação endócrina e pode causar efeitos tóxicos semelhantes. O estudo reforça justamente que substituir o BPA por outros bisfenóis não significa, necessariamente, eliminar o risco ambiental ou para a saúde”, afirma.
O pesquisador ressalta, entretanto, que a pesquisa não avaliou diretamente os efeitos da exposição aos bisfenóis em seres humanos.
“Isso não quer dizer que uma pessoa terá um problema de saúde após consumir um único caranguejo, mas indica que o consumo frequente e contínuo de organismos contaminados pode aumentar o risco de efeitos associados aos desreguladores endócrinos, especialmente em grupos mais sensíveis, como crianças e gestantes”, avalia.
O estudo chama atenção ainda para uma prática comum entre consumidores de caranguejo no Ceará: utilizar a água do cozimento do crustáceo no preparo de pirão, caldo ou molho.
A preocupação ocorre porque parte dos contaminantes pode estar presente nos fluidos internos e em diferentes estruturas do animal. Durante o cozimento, essas substâncias podem eventualmente passar para a água.
Caso o líquido seja reutilizado no preparo de outros alimentos, o consumidor pode ingerir não apenas a carne, mas também compostos que tenham migrado para a água de cozimento.
Os pesquisadores, contudo, fazem uma ressalva importante: o estudo analisou caranguejos vivos, antes do preparo para consumo. Ainda são necessários estudos específicos com alimentos preparados para verificar se os contaminantes permanecem após o cozimento e em que concentrações.
Fortim está localizado no estuário do Rio Jaguaribe, área influenciada por atividades urbanas e agropecuárias, carcinicultura e turismo. Segundo os pesquisadores, a região também recebe resíduos domésticos e industriais ao longo da bacia hidrográfica.

“Todas essas fontes contribuem para a entrada de contaminantes, incluindo bisfenóis e outros, que acabam chegando aos manguezais. Como esses ecossistemas funcionam como áreas naturais de retenção de sedimentos, muitos contaminantes tendem a se acumular neles e podem ser incorporados pelos caranguejos durante sua alimentação e contato com o sedimento”, explica Cavalcante.
Fortim e Itapissuma fazem parte de um projeto mais amplo do Labomar que acompanha a ocorrência de bisfenóis e outros contaminantes em manguezais ao longo da costa do Norte e Nordeste, do Pará ao sul da Bahia.
Até o momento, o levantamento contempla aproximadamente 17 áreas de estudo e cerca de 300 caranguejos analisados. Segundo os pesquisadores, os resultados preliminares indicam a presença de bisfenóis em todos os manguezais estudados nessas regiões.
“Embora os resultados dos demais locais ainda estejam em fase de análise e publicação, já podemos adiantar que, pela primeira vez, detectamos a presença de bisfenóis em todos os manguezais estudados no Norte e Nordeste”, adianta o professor.
Para Rivelino Cavalcante, os resultados podem contribuir para a formulação de políticas públicas destinadas à proteção dos manguezais e à redução da entrada de contaminantes nos ecossistemas costeiros.
“Os resultados mostram que os bisfenóis já estão presentes em organismos de manguezais, indicando que o gerenciamento de resíduos sólidos, o tratamento de esgoto e outras fontes de poluição precisam ser repensados para reduzir a entrada desses contaminantes no ambiente”, defende.
O pesquisador também aponta a necessidade de ampliar programas de monitoramento, fiscalização e conservação dos ecossistemas costeiros, além de acompanhar diferentes análogos de bisfenol.
“É fundamental exigir avaliação toxicológica antes da substituição de um bisfenol por outro”, reforça.
Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o estudo não recomenda a interrupção do consumo de caranguejos. O objetivo é chamar atenção para a necessidade de monitoramento ambiental, melhoria do saneamento, tratamento de efluentes e destinação adequada dos resíduos.
“O caranguejo continua sendo um alimento importante para a cultura, a economia e a segurança alimentar de muitas comunidades. Os resultados do estudo servem como um alerta para que o poder público invista na redução da poluição que chega aos rios e manguezais”, afirma Cavalcante.
O artigo com os resultados da pesquisa foi publicado na revista internacional Marine Environmental Research. Além de Rivelino Cavalcante, assinam o trabalho os pesquisadores Tamyris Gondim, Gladston Junior e Francisco A.D. Filho.
*com informações da Agência UFC
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