

Até o momento, o Itamaraty e o Palácio do Planalto ainda não divulgaram posicionamento oficial sobre a decisão anunciada pelos Estados Unidos. | Foto: Getty Images
29 de maio de 2026 – A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais marcou um novo capítulo de tensão diplomática entre Brasília e Washington. A medida, anunciada pelo Departamento de Estado norte-americano nesta quinta-feira (28), foi interpretada como uma derrota política e diplomática para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro afirmam que a decisão surpreendeu até mesmo diplomatas que acompanhavam as negociações entre os dois países. O tema vinha sendo tratado com cautela pela administração Lula, que tentava evitar o avanço da medida desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump, em 2025.
O governo brasileiro se posicionava contra a classificação das facções como grupos terroristas. Entre os argumentos apresentados estavam o risco de interferência na soberania nacional e possíveis interpretações que permitissem ações militares norte-americanas sob justificativa de combate ao terrorismo.
Além disso, o Palácio do Planalto sustentava que a legislação brasileira diferencia organizações criminosas de grupos terroristas.
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A decisão dos Estados Unidos ocorreu um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encerrar viagem oficial a Washington, onde se reuniu com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Segundo Flávio, ele voltou a defender junto ao governo norte-americano que o PCC e o CV fossem oficialmente classificados como organizações terroristas.
“Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais”, afirmou o senador após reunião com Marco Rubio.
Interlocutores do governo Lula avaliam que setores ligados ao bolsonarismo atuaram para gerar desgaste político à gestão petista, levando o governo a se posicionar contra a medida e posteriormente ser alvo de críticas.
Segundo informações divulgadas pela BBC News Brasil, o governo federal prepara uma resposta oficial à decisão dos EUA. Reuniões internas envolvendo o Ministério das Relações Exteriores, a Presidência da República e outras pastas devem ocorrer nos próximos dias.
A tendência é que o Brasil reforce o discurso de cooperação internacional no combate ao crime organizado, ao mesmo tempo em que defende ações já adotadas pelas autoridades brasileiras contra as facções criminosas.
Integrantes do governo também demonstram preocupação com possíveis impactos econômicos da medida, principalmente no sistema financeiro brasileiro. O receio é de que bancos e empresas possam sofrer sanções por eventuais vínculos comerciais indiretos com integrantes das facções.
A possibilidade de classificar facções brasileiras como organizações terroristas já vinha sendo discutida nos Estados Unidos há anos, mas ganhou força após o retorno de Donald Trump à Casa Branca em 2025.
Em março deste ano, o Departamento de Estado norte-americano já havia indicado que considerava o PCC e o CV ameaças à segurança regional devido ao tráfico de drogas, violência e atuação transnacional.
Na ocasião, o governo Lula intensificou esforços diplomáticos para evitar a medida e passou a defender publicamente uma maior cooperação internacional no combate ao crime organizado, em vez da classificação terrorista.
Durante discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, Lula criticou a equiparação entre crime organizado e terrorismo.
“É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas”, declarou o presidente na ocasião.
Até o momento, o Itamaraty e o Palácio do Planalto ainda não divulgaram posicionamento oficial sobre a decisão anunciada pelos Estados Unidos.
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