
Pesquisadores da UFC desenvolveram tecnologia que utiliza composto da castanha de caju para produzir materiais odontológicos mais duráveis e livres de bisfenol A. | Foto: Ribamar Neto/UFC
25 de julho de 2026 – Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveram uma tecnologia inovadora que pode transformar a fabricação de materiais odontológicos, como resinas, adesivos e dessensibilizantes dentinários. A novidade utiliza o cardanol, substância extraída do líquido da casca da castanha de caju (LCC), como alternativa aos derivados do bisfenol A (BPA), compostos amplamente empregados atualmente e associados a potenciais riscos à saúde.
A pesquisa resultou em uma patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e abre caminho para a produção de materiais mais resistentes, sustentáveis e biocompatíveis.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<
O cardanol é o principal componente do líquido da casca da castanha de caju, obtido durante o processamento industrial da amêndoa. A equipe da UFC identificou que suas propriedades químicas permitem a produção de monômeros metacrílicos, moléculas utilizadas na fabricação de resinas, plásticos e adesivos odontológicos.
Segundo o professor Diego Lomonaco, do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC, a inovação vai além de um único produto.
“O que torna isso interessante do ponto de vista industrial é que não se trata de um produto único, mas de uma plataforma molecular adaptável”, explica o pesquisador.
De acordo com Lomonaco, a patente contempla diversas possibilidades de aplicação para tratamentos odontológicos.
Os materiais produzidos a partir do cardanol apresentam maior interação com o colágeno da dentina, formando ligações que fortalecem a estrutura do dente e aumentam a aderência das restaurações.
Além disso, os novos compostos atuam como inibidores das metaloproteinases de matriz, enzimas responsáveis pela degradação natural do colágeno ao longo do tempo, fator que reduz a durabilidade das restaurações convencionais.
Outra característica importante é a hidrofobicidade do cardanol, que reduz a absorção de água pelos tecidos dentários, adesivos e resinas, dificultando a degradação dos materiais restauradores.
“Ao combinar a estabilização do colágeno, a inibição dessas enzimas e a maior resistência do material à degradação por água, essa tecnologia não apenas restaura a estrutura dental, mas contribui para preservar o tecido dentário e prolongar a vida útil das restaurações”, defende Lomonaco.

Uma das principais vantagens da tecnologia é substituir o Bis-GMA, derivado do bisfenol A (BPA), considerado um dos componentes mais utilizados na fabricação de materiais odontológicos.
O BPA é apontado por diversos estudos como um desregulador hormonal e está associado ao aumento do risco de doenças como câncer de mama, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e alterações reprodutivas e neuroendócrinas.
Segundo os pesquisadores, pequenas quantidades da substância podem ser liberadas na cavidade oral após restaurações dentárias, embora os impactos dessa exposição ainda estejam em investigação.
“A utilização do cardanol presente no líquido da castanha de caju técnico em composições odontológicas elimina essa preocupação toxicológica real que existe com o Bis-GMA”, afirma Diego Lomonaco.
“O cardanol e seus derivados têm sido estudados em termos de biocompatibilidade há anos. A literatura registra ausência de toxicidade, citotoxicidade e mutagenicidade relevantes para o LCC técnico”, reforça.
Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda precisará passar por ensaios pré-clínicos e clínicos antes de chegar aos consultórios odontológicos.
Segundo Lomonaco, a patente está em fase de prospecção para transferência de tecnologia e licenciamento para empresas do setor.
“O caminho mais direto é o licenciamento para empresas do setor odontológico com capacidade de desenvolvimento de produto e registro sanitário. O perfil da tecnologia é atrativo, temos matéria-prima brasileira, abundante, renovável, com narrativa de sustentabilidade e ausência de bisfenol A, dois apelos comerciais relevantes no mercado atual”, destaca.
Além dos benefícios à saúde, a inovação também promove o reaproveitamento do líquido da casca da castanha de caju, atualmente considerado um resíduo industrial, fortalecendo o conceito de economia circular e sustentabilidade.

A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores do Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da UFC em parceria com especialistas da área de Odontologia.
Participaram da pesquisa os professores Diego Lomonaco, Victor Pinheiro Feitosa, atualmente na Universidade de Iowa (EUA), e Madiana Magalhães, da Faculdade Paulo Picanço, além dos pesquisadores Rita De Cassia Sousa Pereira, Lucas Renan Rocha da Silva e Selma Elaine Mazzetto.
Segundo Lomonaco, a colaboração entre diferentes áreas foi determinante para o sucesso da inovação.
“A química forneceu a matéria-prima e a rota sintética; a Odontologia definiu os problemas reais a resolver e validou os resultados.”
Com informações da Agência UFC
Leia também | Retatrutida ilegal avança e preocupa Anvisa
Tags: UFC, Universidade Federal do Ceará, castanha de caju, cardanol, líquido da casca da castanha de caju, LCC, odontologia, materiais odontológicos, resina dentária, adesivo odontológico, bisfenol A, BPA, Bis-GMA, inovação, pesquisa científica, patente, INPI, saúde bucal, sustentabilidade, economia circular, Ceará, ciência, tecnologia, Portal Terra da Luz