

Documento da Polícia Federal detalha articulações atribuídas a Daniel Vorcaro nos dias anteriores à Operação Compliance Zero e aponta, segundo os investigadores, indícios de que o ex-banqueiro teria conhecimento antecipado da ação policial. | Foto: reprodução
11 de setembro de 2026 – Um documento da Polícia Federal (PF), cujo sigilo foi retirado na noite desta quinta-feira (10), detalha as articulações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a deflagração da Operação Compliance Zero, que resultou em sua prisão. Segundo a corporação, os registros indicam que Vorcaro teria tomado conhecimento antecipado da ação policial e planejado deixar o país na véspera do cumprimento dos mandados.
De acordo com a PF, os elementos reunidos reforçam a hipótese de que a viagem internacional planejada pelo então dono do Banco Master não teria sido uma coincidência. A corporação considera “improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência”.
A retirada do sigilo ocorreu após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinar a abertura das principais investigações relacionadas ao Banco Master que tramitam na Corte. A medida atendeu a uma solicitação feita horas antes pelo presidente do STF, Edson Fachin.
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Segundo o documento, a PF identificou uma série de registros e contatos mantidos por Vorcaro antes da deflagração da operação.
Em 21 de outubro de 2025, o banqueiro teria registrado no aplicativo “Notas” os nomes de representantes da Polícia Federal que participaram de uma reunião reservada com o Banco Central. Para os investigadores, o registro pode indicar que ele teve acesso antecipado a informações consideradas reservadas.
Em 16 de novembro, dois dias antes da operação, Vorcaro teria feito uma nova anotação questionando sobre uma possível proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. A PF afirma que, como o inquérito tramitava sob sigilo, o episódio reforça a suspeita de eventual vazamento de informações.
No dia 17 de novembro, um dia antes da deflagração da operação, Vorcaro recebeu, às 7h28, mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Pouco depois, às 8h48, teria informado que agendaria um voo com saída do aeroporto de Congonhas.
Ainda naquela manhã, a PF identificou contatos entre Vorcaro e o jornalista Diego Escosteguy relacionados a uma reportagem que seria publicada. Após as 11h, o banqueiro recebeu o link da matéria e o encaminhou imediatamente ao advogado.
A reportagem mencionava a existência de um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. Na sequência, Warde protocolou uma petição na Justiça Federal pedindo acesso ao conteúdo da investigação e citando a reportagem como fonte da informação.
A PF também identificou contatos de Vorcaro com servidores do Banco Central, entre eles Paulo Sérgio e Belline, desde as primeiras horas de 17 de novembro.
Segundo os investigadores, os interlocutores consideraram “fundamental” que Vorcaro conversasse com o diretor do Banco Central Ailton Aquino. Uma reunião virtual foi então articulada para aquele mesmo dia.
Vorcaro teria proposto o horário das 13h. Paulo Sérgio confirmou o encontro para 13h15, enquanto Belline encaminhou o link às 13h35.
Após a reunião, passou a circular uma reportagem sobre a suposta venda do Banco Master ao Grupo Fictor. Para a PF, a ausência de surpresa demonstrada pelos servidores diante da publicação seria um indício de alinhamento prévio.
No mesmo dia, segundo a corporação, também surgiram elementos de que Vorcaro teria divulgado à imprensa a informação sobre o interesse do Grupo Fictor na aquisição do Banco Master.
Na noite de 17 de novembro de 2025, agentes policiais interceptaram Vorcaro no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo. Segundo a PF, ele estava prestes a embarcar em um jato particular com destino final aos Emirados Árabes.
A Operação Compliance Zero – fase I foi oficialmente deflagrada em 18 de novembro, após decisão judicial favorável aos pedidos apresentados pela Polícia Federal.
Para a corporação, a sequência dos acontecimentos demonstra que Vorcaro estaria “ciente da futura e iminente atuação policial” e teria utilizado contatos com servidores do Banco Central para viabilizar uma reunião no dia imediatamente anterior à operação.
A PF sustenta ainda que os elementos reunidos apontam para conhecimento antecipado de atos processuais, articulações com interlocutores de órgãos de controle e planejamento para deixar o país próximo à deflagração da operação.
“Diante de todo o exposto, conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de DANIEL VORCARO e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos ‘tentáculos’ em estruturas públicas e privadas”, diz a PF.
Cerca de dez dias após a primeira prisão, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região determinou a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do Banco Master.
Segundo a Polícia Federal, um dos argumentos considerados para a concessão da liberdade foi justamente o teor da reunião realizada com o Banco Central.
As informações reunidas posteriormente foram utilizadas pela PF para embasar um novo pedido de prisão preventiva de Vorcaro, assinado em 27 de fevereiro de 2026.
Em março deste ano, o ex-banqueiro foi preso novamente.
Outro elemento citado nos documentos é uma troca de mensagens entre Alexandre de Moraes, ministro do STF, e Daniel Vorcaro. Segundo relatório encaminhado pela Polícia Federal à Corte, os diálogos indicariam que os dois discutiam a possibilidade de uma operação da PF que teria o então dono do Banco Master como alvo.
O relatório teve o sigilo retirado por André Mendonça em 1º de setembro.
Em uma das mensagens, enviada em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro questiona Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”
Dois dias depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos.
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