
Leilão de reserva de capacidade reacende debate sobre segurança energética, baterias, termelétricas e risco de apagões no Brasil | Foto: Rogério Peccioli
03 de junho de 2026 – O deputado federal Danilo Forte (PP-CE) voltou a criticar, nesta terça-feira (2), o Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCap) de 2026, promovido pelo governo federal para reforçar a segurança energética do país. A nova investida ocorreu durante audiência na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados, mesmo após decisões judiciais manterem o processo e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) homologar contratos do certame.
O leilão, realizado em março, contratou 19 GW de potência para garantir o fornecimento de energia em horários de pico ou em situações de maior pressão sobre o sistema elétrico, como períodos de seca prolongada. No Ceará, a previsão é de R$ 10 bilhões em investimentos e criação de cerca de 5 mil empregos diretos.
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Durante a audiência, representantes do Ministério de Minas e Energia (MME), do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentaram informações sobre o cenário atual do sistema elétrico brasileiro. Os técnicos defenderam que a contratação de reserva de capacidade é necessária para reduzir riscos de falta de energia nos próximos anos.
Danilo Forte, no entanto, voltou a defender a reabertura do processo para incluir a contratação de baterias, tecnologia associada ao armazenamento de energia e considerada estratégica para o avanço das fontes renováveis, como solar e eólica.
“Já foi adjudicado e homologado algo em torno de 1,8 giga, que corresponde a 6,6% do valor do leilão. Eu acho que poderíamos encontrar uma solução entre o que já está adjudicado e homologado continuasse e se abrisse um espaço para esse cancelamento desse leilão e a reabertura de um processo. Aí sim um processo transparente, com a contratação das baterias”, afirmou durante a audiência.
O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Gustavo Ataide, que participou da audiência como ministro em exercício, reconheceu que as baterias podem ter papel importante no futuro do setor elétrico. Segundo ele, porém, a tecnologia ainda não possui maturidade regulatória e operacional suficiente para substituir, em larga escala, a reserva contratada no LRCap.
“Não cabe a gente aqui pensar numa contratação de 19 gigas a partir de uma tecnologia em que nós ainda não temos um arcabouço regulatório consolidado, questões operativas, uma experiência, uma expertise operativa. Então, é um dever do poder público atuar com segurança, com parcimônia, e olhando para todos esses fatores”, disse.
O próprio deputado Danilo Forte admitiu, durante a audiência, que as empresas brasileiras ainda não teriam capacidade de entregar baterias em curto prazo.
“Aí o senhor anuncia que uma portaria, e essa portaria levando em consideração o conteúdo nacional. Só que conteúdo nacional para entregar essas baterias para 2027, 2028. Nós não temos, nós não temos condição. Então vai ser mais uma vez uma enganação, porque nós não temos condições no Brasil de produzir essas baterias para entregar na crise que vocês estão prevendo aí para 2030”, afirmou o parlamentar.
O diretor de planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, afirmou que, mesmo com os contratos do LRCap, o risco de falta de potência ainda chega a 40% em 2030, quando o limite considerado adequado seria de 5%. Segundo ele, caso o leilão fosse cancelado, o risco de falta de energia poderia chegar a 100%.
“Ou seja, mesmo com o volume que foi contratado nesse LRCap, a gente ainda não conseguiu atender, para o horizonte de estudo do ONS, que é de 2026 a 2030, os requisitos necessários para manter o sistema elétrico brasileiro dentro dos critérios de suprimento preconizados pelo Conselho Nacional de Política Energética”, afirmou.
De acordo com Gustavo Ataide, o leilão também contribuirá para evitar bandeira vermelha na conta de energia neste mês e poderá gerar economia de R$ 1,3 bilhão em 2027.
Entre os 100 projetos contratados no leilão, 51 estão localizados no Nordeste. O Ceará foi o estado com maior volume de potência contratado, com 2.985 MW distribuídos em sete usinas, sendo quatro novas e três já existentes.
Um dos projetos previstos envolve a construção de uma nova usina no Complexo do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, com capacidade para movimentar 18 milhões de metros cúbicos de gás natural por ano. A obra tem início previsto para este ano e deve entrar em operação em 2030.
A discussão coloca o Ceará no centro do debate sobre segurança energética, investimentos, geração de empregos, matriz elétrica e desenvolvimento industrial. Ao mesmo tempo, amplia a cobrança pública sobre os interesses envolvidos na tentativa de revisão ou cancelamento do leilão.

Danilo Forte preside a Frente Parlamentar em Defesa das Energias Renováveis e tem defendido soluções como baterias e maior participação de fontes solar e eólica. A posição, no entanto, é contestada por representantes do setor elétrico que apontam riscos operacionais e regulatórios caso o país substitua, de forma imediata, a contratação de potência firme por tecnologias ainda em fase de estruturação no mercado nacional.
O debate também reacende questionamentos sobre a relação política entre o parlamentar e setores empresariais ligados à geração renovável, incluindo o empresário Mário Araripe, fundador da Casa dos Ventos. O tema deve continuar em discussão na Câmara dos Deputados, no governo federal e entre agentes do setor elétrico.
Para especialistas e autoridades do setor, o desafio é conciliar expansão das energias limpas, segurança de abastecimento, modicidade tarifária e planejamento de longo prazo, sem comprometer investimentos já contratados nem aumentar o risco de apagões para consumidores e empresas.
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