

Pesquisadores da UFC e instituições internacionais investigam como o mercúrio tóxico pode agravar distúrbios metabólicos e cardiovasculares. | Foto: Guilherme Silva/UFC
30 de maio de 2026 – Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) participaram de uma colaboração científica internacional que revelou novos impactos da exposição ao mercúrio tóxico no organismo. O estudo, publicado neste mês na revista científica Chemical Research in Toxicology, indica que o metilmercúrio — forma mais tóxica do elemento químico — pode afetar o metabolismo, agravando alterações relacionadas ao colesterol, triglicerídeos e doenças cardiovasculares.
A pesquisa foi desenvolvida em parceria entre a UFC, a Universidade de Bristol, no Reino Unido, e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
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Os pesquisadores observaram que, em organismos com deficiência de Apolipoproteína E (ApoE), proteína responsável pelo transporte e metabolismo de lipídios, a exposição ao metilmercúrio elevou os níveis de colesterol e triglicerídeos, além de aumentar enzimas associadas ao acúmulo de gordura no fígado.
Também foram identificadas alterações na estrutura do tecido adiposo e um aumento do risco de problemas cardiovasculares.
O trabalho teve origem na tese de doutorado da pesquisadora Synara Lopes, orientada pelo professor Reinaldo Oriá, do Departamento de Morfologia da Faculdade de Medicina da UFC.
A pesquisa envolveu o Laboratório da Biologia da Cicatrização, Ontogenia e Nutrição de Tecidos (Labiconte), da UFC, coordenado por Reinaldo Oriá, além de especialistas das áreas de Bioquímica, Biologia Molecular, Farmacologia, Morfologia e modelagem computacional.
Também participaram pesquisadores da Universidade de Fortaleza (Unifor), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A iniciativa integra um projeto de internacionalização aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
A investigação combinou experimentos com camundongos e simulações computacionais conduzidas pelo professor Norberto de Kássio Vieira Monteiro, do Programa de Pós-Graduação em Química da UFC.
Os resultados demonstraram que a ausência ou o comprometimento estrutural da proteína ApoE torna o organismo mais vulnerável aos efeitos tóxicos do metilmercúrio.
Segundo os pesquisadores, os achados ajudam a compreender melhor os mecanismos envolvidos na intoxicação mercurial e poderão contribuir para futuras estratégias nutricionais destinadas a reduzir os impactos da exposição em populações vulneráveis.

O professor Reinaldo Oriá destacou a relevância dos resultados para a saúde pública brasileira.
“A intoxicação mercurial é endêmica em regiões da Amazônia e outras áreas do Brasil. Os achados do nosso trabalho indicam um potencial efeito do metilmercúrio agravando distúrbios metabólicos, assim chamando a atenção desse problema de saúde pública que pode aumentar o risco de doenças cardiovasculares em indivíduos de maior risco”, afirmou o pesquisador.
Segundo ele, a equipe pretende aprofundar os estudos por meio de novas análises sobre os efeitos neuroendócrinos da intoxicação causada pelo mercúrio.
Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram camundongos com ausência da proteína ApoE e animais com a proteína preservada.
Parte dos animais foi exposta, durante 20 dias, à água contaminada com metilmercúrio. Os pesquisadores identificaram concentrações significativamente maiores do contaminante nos pelos, no fígado e nos tecidos adiposos dos grupos expostos.
Os resultados mostraram que os animais sem ApoE apresentaram efeitos ainda mais severos, sugerindo que indivíduos com dislipidemia podem sofrer consequências mais graves quando expostos ao mercúrio.
Entre os possíveis impactos estão o agravamento do risco cardiovascular e a aceleração do acúmulo de placas de gordura nas artérias.
Os cientistas também investigaram as interações entre o metilmercúrio e diferentes formas da proteína ApoE presentes em humanos.
As análises computacionais indicaram que as variantes ApoE2 e ApoE3 apresentam maior capacidade de ligação ao metilmercúrio, enquanto a variante ApoE4 não demonstrou interação estável.
Segundo os pesquisadores, isso pode significar que portadores da variante ApoE4 sejam mais suscetíveis aos efeitos tóxicos do mercúrio.
“Isso é uma hipótese. O nosso grupo planeja uma pesquisa futura para investigar essa possibilidade. Já se sabe que humanos portadores do gene APOE4 apresentam mais susceptibilidade à neurotoxicidade induzida pelo mercúrio. Precisamos investigar com mais profundidade se é esse, de fato, o mecanismo”, explicou Reinaldo Oriá.
Os pesquisadores ressaltam que novas investigações serão necessárias para confirmar os resultados e ampliar a compreensão sobre os efeitos do metilmercúrio na saúde humana.
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