

Estudo da UFC identificou microfibras e partículas de borracha entre os principais microplásticos encontrados nas águas pluviais de Fortaleza. | Foto: Victor Braga/UFC
30 de setembro de 2026 – Microfibras de tecidos e partículas de borracha associadas ao desgaste de pneus estão entre os microplásticos mais encontrados nas águas pluviais de Fortaleza, segundo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC). A pesquisa analisou a relação entre a ocupação urbana e o transporte dessas partículas pelas águas de escoamento até a região costeira.
O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema/UFC) e apontou que áreas com maior densidade populacional ou maior proporção de uso residencial apresentam maior quantidade de microplásticos nas águas pluviais.
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Considerado o primeiro estudo da América do Sul com esse foco de análise, o trabalho teve como autora a cientista ambiental Victória Santos, sob orientação do professor Michael Barbosa e co-orientação do professor Tommaso Giarrizo.
As amostras foram coletadas entre janeiro e abril de 2025, período chuvoso, em bacias de drenagem de quatro áreas da Capital: Meireles, Praia do Futuro I, Barra do Ceará e Cais do Porto. As análises e o tratamento dos dados foram concluídos em 2026.
Durante a coleta, os pesquisadores foram até as desembocaduras das galerias pluviais em dias de chuva. A água era recolhida 30 minutos após o início da precipitação e encaminhada para análise em laboratório, onde foram verificadas a concentração e as características dos microplásticos.
A seleção dos locais levou em consideração características de ocupação urbana, uso do solo e a conexão das bacias de drenagem com áreas de praia. Meireles e Praia do Futuro, por exemplo, apresentam intensa utilização pela população e pelo turismo.

As microfibras foram o tipo de partícula mais encontrado no estudo, representando entre 34,7% e 57,9% do total. Materiais relacionados a tecidos predominaram no trecho residencial da Barra do Ceará e nas regiões do Cais do Porto e da Praia do Futuro. Nesta última, a proporção chegou a quase 58%.
Segundo os pesquisadores, a presença das fibras em diferentes regiões pode estar relacionada à deposição das partículas durante as chuvas, além da ampla distribuição desse material no ambiente.
O estudo também identificou partículas de borracha, que representaram entre 17,3% e 44,9% dos microplásticos encontrados, com destaque para o Meireles. Os pesquisadores apontam que a origem pode estar relacionada ao desgaste de pneus de veículos e de meios de transporte individuais, como bicicletas e patinetes.
Já os fragmentos derivados de resíduos plásticos descartados de forma inadequada representaram entre 12,4% e 17,9% das partículas analisadas.

Entre os polímeros mais detectados estavam o polietileno, o polipropileno e o tereftalato de polietileno. Esses materiais são utilizados em produtos presentes no cotidiano, como sacolas, frascos, embalagens de alimentos, potes, fios e tecidos para roupas, além de materiais hospitalares e automotivos.
De acordo com a pesquisadora Victória Santos, as características de alguns desses polímeros podem facilitar sua permanência em suspensão e o transporte pela água, dependendo das condições das partículas e do escoamento.
Para o professor Michael Viana, a principal contribuição da pesquisa foi relacionar a quantidade de microplásticos às características do território onde as partículas são geradas e transportadas.
“Grande parte dos estudos sobre microplásticos historicamente olha para o poluente em si, onde ele está, em qual quantidade, de qual polímero é feito, sem necessariamente conectar esses resultados às características do território de onde ele saiu. A principal novidade do estudo é mostrar que a quantidade de microplásticos que a chuva carrega pelas ruas de Fortaleza até o mar não é igual em toda a cidade, mas varia de acordo com o jeito como cada bairro é ocupado”, explica o professor.
Um dos resultados que chamou a atenção dos pesquisadores foi o baixo índice de microplásticos encontrado no Cais do Porto. A expectativa, segundo o estudo, era de que regiões portuárias e industriais pudessem apresentar maiores concentrações devido ao fluxo de mercadorias e às atividades desenvolvidas nesses locais.
Para os pesquisadores, o resultado indica que a quantidade de microplásticos não depende apenas da classificação de uma região como portuária ou industrial, mas também do tipo de atividade realizada, das práticas de gestão de resíduos e das características específicas de cada área.
Os dados reforçam, segundo o professor Michael Viana, a necessidade de considerar a intensidade e o tipo de ocupação humana para compreender a ocorrência da poluição por microplásticos nas cidades.

O trabalho foi publicado na edição de agosto do periódico internacional Water, Air & Soil Pollution e contou com a colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), do Departamento de Física e do Laboratório de Recursos Hídricos (LRH) da UFC.
A pesquisa integra uma linha desenvolvida no Laboratório de Efluentes e Qualidade de Água (EQUAL), do Labomar, voltada ao estudo da ocorrência de microplásticos em diferentes matrizes ambientais, como água, sedimento, ar e organismos aquáticos, além dos riscos relacionados à exposição desses materiais.
Os pesquisadores destacam que o estudo contribui para preencher uma lacuna de pesquisas sobre a influência das características urbanas no transporte de microplásticos para o mar, especialmente em países do Sul Global.
A pesquisa também aponta a necessidade de ações para reduzir o transporte desses materiais aos ambientes costeiros. Entre as medidas citadas estão a limpeza periódica das ruas e dos sistemas de drenagem, a fiscalização e correção de ligações clandestinas de esgoto, a melhoria da gestão de resíduos sólidos e o descarte adequado de materiais pela população.
da Agência UFC
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