

Novo consenso internacional orienta o uso seguro de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, com foco em dose individualizada, alimentação, exercício e saúde mental | Foto: Adobe Stock
19 de julho de 2026 – Os medicamentos que transformaram o tratamento da obesidade, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entraram em uma nova etapa de discussão médica. Depois de anos em que o debate esteve concentrado na quantidade de peso eliminada, especialistas passaram a discutir como usar essas terapias com segurança ao longo do tempo e quando pode ser necessário reduzir a dose, pausar ou interromper o tratamento.
A mudança de abordagem foi reforçada pela publicação do primeiro consenso internacional dedicado aos cuidados nutricionais, físicos e psicológicos de pessoas que utilizam medicamentos da classe das incretinas.
Publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, o documento foi elaborado por três entidades europeias: European Association for the Study of Obesity (EASO), European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e European Coalition for People Living with Obesity (ECPO).
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O consenso não altera as indicações dos medicamentos, mas propõe uma mudança de perspectiva: emagrecer deixa de ser o único objetivo do tratamento.
A preservação da massa muscular, a qualidade da alimentação, a prática de exercícios, o acompanhamento da saúde mental e a individualização das decisões sobre dose passam a ser considerados elementos centrais no cuidado.
“A grande importância deste primeiro consenso está em mostrar que o tratamento não se restringe a tomar a injeção e perder peso”, afirmou Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Segundo ele, o mérito do documento está em deslocar o foco do número na balança para um cuidado mais amplo, priorizando qualidade de vida, melhora das comorbidades e prevenção de riscos associados à perda de peso sem monitoramento, como desnutrição, perda de massa muscular e sofrimento psíquico.
Uma das principais mensagens do consenso é que nem todo paciente precisa chegar à dose máxima prevista em bula.
De acordo com o documento, a decisão deve considerar a resposta clínica individual, os benefícios obtidos, os efeitos adversos e os objetivos de tratamento de cada pessoa.
Pacientes que já apresentam boa saciedade, emagrecem de forma adequada e toleram bem a medicação podem não precisar de doses mais altas.
“A dose máxima não é obrigatória, porque os alvos são ajustáveis individualmente”, explicou Fernando Valente.
O endocrinologista destaca que pacientes muito distantes da meta, que precisam perder grande quantidade de peso, podem caminhar para doses maiores. Já pessoas com doenças metabólicas, como diabetes, hipertensão, triglicérides elevados, gordura no fígado ou apneia do sono, mas sem grande excesso de peso, podem se beneficiar de doses menores.
O consenso também trata de uma das dúvidas mais comuns entre pacientes: existe um momento certo para parar?
A resposta é que a decisão deve ser compartilhada entre médico e paciente, levando em conta benefícios, riscos, tolerância, evolução clínica e contexto individual.
Reduzir a dose, adiar um aumento programado, fazer uma pausa temporária ou suspender o medicamento podem ser condutas adequadas em determinadas situações.
Entre os sinais que exigem reavaliação estão náuseas e vômitos persistentes, dificuldade de manter hidratação adequada, perda de peso rápida demais, incapacidade de ingerir nutrientes suficientes e indícios de desnutrição.
O documento também chama atenção para casos em que a ingestão alimentar se mantém abaixo de 800 calorias por dia por período prolongado, situação que exige cuidado redobrado.
Para Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), interromper o tratamento nem sempre significa falha.
A pausa pode ocorrer porque o paciente atingiu uma meta adequada, porque a tolerância piorou a ponto de comprometer a adesão ou porque, em alguns casos, emagrecer mais deixa de ser desejável.
“São medicamentos muito importantes, mas, como tudo na medicina, exigem cuidado e individualização de acordo com a evolução e o contexto de cada paciente”, afirmou Rodrigo Lamounier.
Em idosos, por exemplo, o avanço excessivo da perda de peso pode aumentar riscos ligados à fragilidade, quedas e perda de funcionalidade.
O consenso reforça que perder peso não significa, necessariamente, ganhar saúde.
Parte do peso eliminado durante o tratamento pode corresponder à perda de massa muscular. Quando isso ocorre em excesso, aumentam os riscos de fraqueza, limitação para atividades diárias e sarcopenia, condição associada à redução da força e da quantidade de músculos.
“Pouco adianta reduzir o número na balança à custa de uma piora nutricional, de cansaço, de queda de cabelo intensa ou da incapacidade de se exercitar e viver bem — e, nos mais vulneráveis, do aumento do risco de quedas e fraturas”, alertou Fernando Valente.
Por isso, o acompanhamento deve observar não apenas os quilos eliminados, mas também a capacidade física, o estado nutricional e a preservação da força.
Para reduzir o risco de perda de massa magra, o consenso recomenda ingestão diária de cerca de 1 a 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado, com mínimo de 60 gramas por dia, distribuídas ao longo das refeições.
Quando a alimentação não atinge essa meta, suplementos podem ser considerados, sempre após avaliação individual.
A prática de exercícios de força, como a musculação, também passa a ocupar papel central na estratégia de cuidado para quem utiliza agonistas de GLP-1 e medicamentos semelhantes.
“No que diz respeito ao músculo, a funcionalidade é mais importante do que a quantidade”, afirmou Rodrigo Lamounier.
Segundo ele, especialmente entre idosos, é importante avaliar o que o músculo permite fazer no dia a dia, como levantar de uma cadeira sem apoio das mãos ou manter boa força de preensão.
O consenso alerta que a redução do apetite provocada pelos medicamentos pode comprometer o consumo de vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes essenciais.
Por isso, a alimentação deve priorizar alimentos densos em nutrientes, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes adequadas de proteína.
Emagrecer rápido demais também pode trazer riscos. Segundo Valente, perdas excessivamente aceleradas podem favorecer anemia, cálculos na vesícula e outros problemas clínicos.
O documento propõe um acompanhamento escalonado, mais próximo nos casos de maior vulnerabilidade, como idosos, pessoas com histórico de cirurgia bariátrica, transtornos alimentares, desnutrição ou perda de peso muito acelerada.
Nesses casos, podem ser indicados exames como hemograma e avaliação de ferro, zinco, vitaminas do complexo B, vitamina B12, tiamina, ácido fólico e vitamina D.
Além dos aspectos metabólicos, o consenso dedica atenção aos efeitos psicológicos do tratamento.
Pela primeira vez, um documento internacional incorpora o conceito de food noise, expressão usada para descrever pensamentos persistentes e intrusivos sobre comida.
“É o pensamento persistente e intrusivo em relação à comida, da pessoa que pensa o tempo todo em comer; os medicamentos reduzem esse ruído ao atuar nas áreas de recompensa do cérebro”, explicou Fernando Valente.
O efeito pode ajudar o paciente a comer em resposta à fome física, e não por estímulos emocionais, sociais ou impulsivos.
Ao mesmo tempo, essa mudança pode gerar desafios. Muitos pacientes usavam a comida como apoio emocional, hábito social ou forma de lidar com ansiedade e frustração.
“Muitos usam a comida como muleta emocional ou ritual social; ao perder esse apoio, podem viver uma crise de identidade e angústia”, ponderou Fernando Valente.
O consenso recomenda atenção especial à saúde mental, sobretudo em pessoas com histórico de transtornos alimentares.
O acompanhamento psicológico pode ajudar o paciente a construir novas formas de lazer, vínculo social e regulação emocional que não estejam centradas na comida.
Rodrigo Lamounier também chama atenção para a necessidade de avaliar, caso a caso, se o medicamento está contribuindo para melhora ou piora de sintomas emocionais.
“Não adianta perder peso e o sofrimento mental aumentar”, resumiu o especialista.
Embora os estudos não indiquem esse efeito como regra, a avaliação individualizada ao longo do tratamento é considerada essencial.
Uma das questões ainda em aberto é o que acontece quando o medicamento é interrompido.
Segundo Fernando Valente, o reganho de peso não é incomum, porque o organismo interpreta a perda de peso como uma ameaça, reduz o gasto energético e aumenta o apetite.
“O reganho de peso não é incomum, porque o corpo interpreta a perda como uma ameaça, reduz o gasto energético e aumenta o apetite”, explicou.
Sem o medicamento para ajudar a neutralizar esse mecanismo de adaptação e sem orientação adequada, há maior risco de recuperação dos quilos perdidos.
Entre as estratégias para reduzir o risco de reganho estão manter exercício físico regular, ajustar a alimentação com proteína adequada, priorizar carboidratos complexos, escolher gorduras insaturadas, evitar ultraprocessados e preservar consultas periódicas com médico ou equipe multidisciplinar.
Em alguns casos, especialistas podem discutir a manutenção do tratamento em dose menor ou a troca por uma medicação mais acessível, pensando na sustentabilidade do cuidado no longo prazo.
O consenso reforça que os medicamentos contra obesidade representam um avanço importante, mas devem ser usados com acompanhamento profissional, metas individualizadas e atenção aos efeitos físicos, nutricionais e emocionais.
A mensagem central é que o sucesso do tratamento não deve ser medido apenas pela balança, mas pela capacidade de preservar saúde, funcionalidade, qualidade de vida e segurança ao longo do tempo.
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