

Vacina brasileira desenvolvida pela Fiocruz com tecnologia de RNA mensageiro avança para testes clínicos em humanos e pode abrir caminho para novas pesquisas contra o câncer e outras doenças. | Foto: Bernardo Portella
02 de setembro de 2026 — O Brasil está prestes a iniciar uma nova etapa no desenvolvimento de tecnologias de saúde. A vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar aos estudos clínicos em humanos.
O imunizante será o primeiro desenvolvido integralmente no Brasil com tecnologia de mRNA a chegar à etapa de testes em pessoas. Para pesquisadores, o avanço representa mais do que a criação de uma nova vacina contra a Covid-19: ele pode consolidar uma plataforma tecnológica capaz de ser adaptada para diferentes doenças, incluindo o câncer.
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O RNA mensageiro funciona como uma espécie de instrução genética temporária para as células. Diferentemente de vacinas tradicionais, que podem utilizar proteínas prontas ou versões enfraquecidas ou inativadas de microrganismos, a tecnologia entrega às células a informação necessária para que elas próprias produzam uma proteína específica.
No caso da vacina brasileira contra a Covid-19, o mRNA orienta temporariamente as células a produzirem a proteína Spike do coronavírus. O sistema imunológico reconhece essa proteína e desenvolve uma resposta de defesa, incluindo a produção de anticorpos.
A principal diferença da vacina da Fiocruz está na origem dos componentes. Tanto a estrutura genética do imunizante quanto a nanopartícula lipídica responsável por proteger e transportar o RNA foram desenvolvidas no Brasil.
Com a autorização da Anvisa, a tecnologia passa agora do laboratório para os testes clínicos. O recrutamento de voluntários para a Fase 1 está previsto para o primeiro trimestre de 2027, após a aprovação do protocolo pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Os participantes deverão ser acompanhados durante um ano.
Para Patrícia Neves, pesquisadora da Fiocruz e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do imunizante, a conquista representa um marco para a ciência brasileira.
“Isso é um grande marco para o Brasil, para que a gente se posicione como líder da biotecnologia na América Latina nessa área. É um marco para a soberania do país e para a pesquisa brasileira”, afirma.
O potencial da tecnologia vai além das vacinas contra doenças infecciosas. Como a estrutura básica do mRNA pode ser mantida enquanto a mensagem genética é modificada, a mesma plataforma pode ser adaptada para diferentes aplicações médicas.
Um dos campos que mais despertam interesse internacional é o tratamento contra o câncer.
Em agosto, Moderna e Merck divulgaram resultados preliminares de uma vacina experimental de mRNA contra o melanoma, um dos tipos mais agressivos de câncer de pele. O estudo indicou redução do risco de retorno do tumor após a cirurgia.
A estratégia é utilizar o mRNA para orientar as células a produzir determinadas proteínas capazes de estimular uma resposta do sistema imunológico contra as células tumorais.
No Brasil, pesquisadores também trabalham em aplicações semelhantes.
Uma das pesquisas nacionais utiliza RNA mensageiro para fazer com que células tumorais produzam uma proteína com atividade antitumoral. Em testes com animais, a estratégia conseguiu reduzir em até 85% o volume de tumores sólidos, incluindo tumores de cólon.
Outra frente envolve uma nova abordagem para a terapia CAR-T, utilizada principalmente no tratamento de alguns tipos de câncer do sangue.
Atualmente, o CAR-T exige que células de defesa do próprio paciente sejam retiradas, modificadas geneticamente em laboratório e posteriormente reinfundidas no organismo. O processo é complexo e caro.
A proposta baseada em mRNA pretende utilizar uma nanopartícula para entregar diretamente às células do paciente a informação genética necessária à modificação. Com isso, seria possível eliminar a etapa de retirada e manipulação das células fora do organismo.
A tecnologia ainda está em fase de pesquisa e não significa que esses tratamentos já estejam disponíveis para pacientes.
O avanço da vacina da Fiocruz é resultado de anos de investimento e pesquisa. Desde 2021, a instituição é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como centro de referência em tecnologia de mRNA para a América Latina e o Caribe.
O Ministério da Saúde anunciou investimento de R$ 210 milhões para ampliar a plataforma no país. Os recursos devem apoiar pesquisas realizadas pela Fiocruz, pelo Instituto Butantan e pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CT-Vacinas), em Minas Gerais.
Para Fernanda Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, o domínio da plataforma pode colocar o Brasil em uma posição estratégica no cenário internacional.
“A pesquisa brasileira pode ser capaz de competir internacionalmente, produzindo inovação e desenvolvimento tecnológico no país. O mRNA pode abrir centenas de oportunidades que ainda não foram abertas e o objetivo é dominar esse conhecimento”, explica.
A pesquisadora Santuza Teixeira, professora do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do CT-Vacinas, destaca que a capacidade brasileira não está restrita à produção de vacinas.
“As pessoas acham que fazer tratamentos complexos com mRNA pode ser algo que só as pessoas nos Estados Unidos podem fazer. Para além da vacina, todas essas pesquisas são brasileiras. O Brasil tem uma ciência forte capaz de desenvolver inovação”, explica.
Além das pesquisas relacionadas ao câncer, pesquisadores brasileiros estudam a utilização do mRNA no desenvolvimento de outros imunizantes e tratamentos.
Entre as doenças que estão no radar estão dengue, doença de Chagas e malária. O domínio de uma plataforma nacional pode ser especialmente estratégico para enfermidades que afetam de maneira significativa países do chamado Sul Global.
Segundo Patrícia Neves, a capacidade de desenvolver a tecnologia integralmente no país pode mudar a posição brasileira no cenário internacional.
“Desenvolvemos tudo que era necessário para o país ter seu primeiro produto nacional com mRNA e isso muda o jogo. Agora, podemos ser transferidores de conhecimento e de tecnologia. Isso muda a correlação de forças na região e tem uma importância na cooperação com o Sul Global”, explica.
O início dos testes em humanos ainda não significa que a vacina esteja pronta para uso. A Fase 1 terá como principal objetivo avaliar segurança e resposta inicial ao imunizante. Outras etapas de estudos clínicos serão necessárias antes de uma eventual aprovação para utilização ampla.
Ainda assim, a chegada de uma vacina brasileira de mRNA aos testes clínicos representa um avanço importante para a ciência nacional e cria uma base tecnológica que poderá ser aproveitada em futuras pesquisas contra diferentes doenças.
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