

O Itamaraty repudiou as declarações do presidente argentino Javier Milei sobre Lula e o sistema eleitoral brasileiro. | Foto: Tomas Cuesta/Getty Images
21 de outubro de 2026 – O Ministério das Relações Exteriores, conhecido como Itamaraty, divulgou nota de repúdio nesta terça-feira (20) contra novas declarações do presidente da Argentina, Javier Milei, dirigidas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao sistema eleitoral brasileiro. Para o governo brasileiro, as manifestações representam uma tentativa de interferência externa no processo democrático do país.
As declarações ocorrem às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25). Em publicações nas redes sociais, Milei compartilhou trechos de entrevistas e debates eleitorais e insinuou a possibilidade de fraude na votação brasileira.
Na nota, o Itamaraty criticou as manifestações do chefe de Estado argentino e afirmou que os comentários ultrapassam os limites aceitáveis das relações diplomáticas entre os dois países.
“As ofensas de hoje do Presidente da República Argentina ao Brasil, desta vez dirigidas ao Poder Judiciário e ao sistema de voto eletrônico, constituem nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”, afirmou a pasta das Relações Exteriores.
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Em uma publicação na rede social X, Javier Milei compartilhou um trecho de uma entrevista concedida por Lula ao SBT na noite de segunda-feira (19). Na sequência, escreveu que esperava que “o último truque de campanha suja não inclua roubar a eleição”.
O presidente argentino também compartilhou um trecho do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no domingo (18), no qual se referiu ao presidente brasileiro como um “autoritário adorado pelos progressistas locais”.
Milei é um aliado declarado da família Bolsonaro e tem feito críticas recorrentes ao governo Lula. As novas manifestações ampliaram a tensão diplomática entre Brasília e Buenos Aires em um momento decisivo do calendário eleitoral brasileiro.
Na manifestação oficial, o governo brasileiro também criticou a repetição de alegações sobre a integridade do processo eleitoral e associou as declarações de Milei a discursos de grupos que contestaram os resultados das eleições anteriores.
O Itamaraty afirmou que o presidente argentino “reitera mentiras difundidas por aqueles que perderam as eleições e protagonizaram o golpe militar fracassado, há quatro anos”. A pasta acrescentou que a manifestação é “antidemocrática”, além de ser incompatível com a postura esperada de um chefe de Estado de um país considerado amigo.
O comunicado também defendeu a segurança do sistema eletrônico de votação brasileiro.
Ainda segundo a nota, “o sistema brasileiro de voto eletrônico é comprovadamente seguro, nunca registrou irregularidades e observadores eleitorais do mundo inteiro já ratificaram essa realidade no primeiro turno das eleições”.
Ao concluir o posicionamento, o Itamaraty reforçou que a escolha dos representantes brasileiros cabe exclusivamente aos eleitores do país.
“A decisão sobre o futuro do Brasil cabe exclusivamente ao povo brasileiro, que se manifestará livremente nas urnas, e sem qualquer tipo de ingerência externa, no domingo, dia 25”, afirmou o ministério.
As declarações de Milei ocorrem em meio ao desgaste das relações bilaterais entre Brasil e Argentina, agravado por sucessivos ataques verbais do presidente argentino a Lula e a autoridades brasileiras.
Desde agosto de 2026, o Brasil não mantém embaixador em Buenos Aires, enquanto o embaixador argentino deixou Brasília. A representação brasileira no país vizinho passou a ser conduzida por um encarregado de negócios, posto de nível diplomático inferior ao de embaixador.
Em 26 de julho, o embaixador brasileiro Julio Bitelli foi convocado a retornar a Brasília após Milei insultar Lula durante uma convenção partidária do Partido Liberal (PL), que lançou o senador Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República.
Na ocasião, o presidente argentino chamou Lula de “presidiário” e também atacou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Apesar das divergências políticas, Brasil e Argentina possuem relações econômicas estreitas. O Brasil é o principal parceiro comercial argentino, considerando as compras e vendas de mercadorias entre os dois países.
As duas nações também são importantes integrantes do Mercosul e mantêm uma relação diplomática histórica, construída ao longo de mais de dois séculos.
As economias brasileira e argentina são fortemente integradas, especialmente nos setores automotivo e industrial. Nesse cenário, o agravamento das tensões políticas representa um desafio para a relação bilateral, que combina divergências entre governos e interesses econômicos compartilhados.
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