

Brasil testa plataforma suborbital capaz de levar experimentos à microgravidade e recuperar amostras por paraquedas no Rio Grande do Norte | Foto: CLBI/Divulgação
05 de setembro de 2026 – O Brasil iniciou os testes de uma plataforma científica que funciona como uma espécie de laboratório espacial acoplado a um foguete. A operação acontece no Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, em Parnamirim, no Rio Grande do Norte, e segue até 19 de setembro.
A iniciativa envolve a Força Aérea Brasileira (FAB) e avalia a Plataforma Suborbital de Microgravidade (PSM-R), desenvolvida para levar experimentos acima de 100 quilômetros de altitude, atingir condições de microgravidade e retornar à Terra com amostras intactas por meio de um sistema de paraquedas.
Se o teste for bem-sucedido, será a primeira vez que uma pesquisa com plataforma brasileira conseguirá resgatar itens lançados para análise física após condições reais de voo.
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Atualmente, a forma mais comum de transmissão de dados em pesquisas brasileiras desse tipo é a telemetria, que permite a coleta de informações a distância.
Com a recuperação da plataforma, os cientistas poderão analisar diretamente as amostras que passaram pela experiência em microgravidade.
Segundo a Agência Espacial Brasileira (AEB), esse ambiente permite o desenvolvimento de estudos científicos e tecnológicos em áreas como novos materiais, combustão, medicamentos e agricultura espacial.
A microgravidade não significa ausência total de gravidade, mas uma condição em que sua influência é significativamente reduzida. Nesse cenário, fenômenos físicos e químicos podem ocorrer de forma diferente, permitindo análises que não seriam possíveis nas mesmas condições na Terra.
O ex-servidor da Agência Espacial Brasileira e mestre em Mecatrônica Rui Botelho explica que, em pesquisas farmacêuticas, a microgravidade pode favorecer a formação de estruturas moleculares mais homogêneas.
“Certos cristais quando são produzidos artificialmente aqui na Terra não são cristais perfeitos, por conta da gravidade. Por mais que existam métodos que minimizem isso, no espaço, sem a gravidade, esses cristais crescem muito mais homogêneos e muito mais simétricos”, detalhou Rui Botelho.
O teste brasileiro será feito com o foguete VS-30 V16, de cerca de nove metros de comprimento, equivalente a um prédio de três andares.
O equipamento deverá atingir altitude superior a 100 quilômetros, cerca de dez vezes mais alto do que um avião comercial.
O Brasil já utiliza plataformas que funcionam como laboratórios espaciais, mas adquiridas no exterior.
Caso a tecnologia seja aprovada, o país poderá realizar lançamentos periódicos com equipamento nacional, ampliando a autonomia científica em voos suborbitais.
“Seremos capazes de produzir nossa própria plataforma. É um avanço na direção de nossa autonomia em voos suborbitais”, afirmou Marco Antonio Chamon, presidente da Agência Espacial Brasileira.

A Plataforma Suborbital de Microgravidade é enviada acoplada à parte superior do foguete brasileiro VS-30 V16.
Desenvolvido pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), o foguete é classificado como suborbital. Isso significa que ele não foi projetado para permanecer em órbita, mas para atingir altitudes superiores a 100 quilômetros.
“Esta plataforma suborbital de microgravidade é usada para levar experimentos até acima de 100 km, o que já é considerado espaço, e permanecer na condição de microgravidade em um tempo de 6 a 8 minutos”, explicou Luis Cláudio de Oliveira Silva, professor do curso de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Após o voo, a plataforma retorna presa ao paraquedas para que os experimentos embarcados sejam retirados e analisados.
Depois de atingir o ponto mais alto da trajetória e realizar os experimentos, a plataforma retorna à Terra. Primeiro, segue em queda livre. Em seguida, em determinada altitude, abre um paraquedas guia, que prepara o acionamento do sistema principal.
“É um paraquedas guia, que ele faz com que a plataforma tenha uma certa desaceleração, mas que todos os cabos do paraquedas principal sejam tensionados, de modo que o paraquedas não embole. Num certo momento, esse paraquedas completo se abre, freia a plataforma e diminui sua velocidade de queda, de modo a permitir que ela seja recuperada”, explicou Rui Botelho.
A cápsula deve cair no mar e ser resgatada por equipes especializadas.
O equipamento conta com GPS e sistema de rádio para indicar sua localização. Projetada para flutuar, a plataforma continua emitindo sinal mesmo após cair na água, permitindo que um helicóptero da FAB faça o resgate.
Embora o foguete lançador não seja reutilizável, a plataforma poderá ser reaproveitada até quatro vezes, reduzindo custos e tempo para novas missões.
Entre os experimentos que podem ser beneficiados está um estudo de agricultura espacial com microrganismos.
O professor Paulo Hercílio Viegas Rodrigues, do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), explica que um dos experimentos enviados é composto por um Cubesat 1U, um minissatélite, com microrganismos liofilizados e biodosímetros de radiação.
Os microrganismos liofilizados são fungos ou bactérias submetidos a um processo de desidratação a frio para resistirem à viagem. Já os biodosímetros medem a quantidade de radiação recebida durante o voo.
“Recuperar a carga útil após o lançamento será fundamental para o sucesso da missão como um todo. Na área agrícola, poderemos nos beneficiar em experimentos relacionados ao melhoramento genético, induzindo mutações em diferentes tipos de explantes e microrganismos, além do desenvolvimento de equipamentos para o cultivo de plântulas em órbita baixa”, explicou Paulo Hercílio Viegas Rodrigues.
O objetivo é comparar o comportamento dos microrganismos enviados ao espaço com outro minissatélite de controle mantido em terra.
“Desse modo, poderemos comparar os efeitos gerados nos microrganismos em um lançamento real e em um ambiente de microgravidade gerada por clinorotação”, afirmou o pesquisador.
Atualmente, testes desse tipo são realizados em estações como a Estação Espacial Internacional ou a chinesa Tiangong, com acesso e custos considerados restritivos.
Para os pesquisadores, uma plataforma nacional pode ampliar o acesso de universidades e empresas brasileiras a experimentos em microgravidade.
“Esse tipo de estudo é importante porque, no futuro, microrganismos poderão ser aliados fundamentais em missões espaciais de longa duração, contribuindo, por exemplo, para o cultivo de plantas, a ciclagem de nutrientes, a produção de alimentos e o desenvolvimento de sistemas biológicos mais sustentáveis fora da Terra”, defendeu Paulo Hercílio Viegas Rodrigues.
Segundo o professor Luis Cláudio de Oliveira Silva, os experimentos científicos e tecnológicos realizados em voos suborbitais e orbitais são selecionados pelo Programa Microgravidade da AEB.
“A intenção é que, uma vez que esta plataforma esteja totalmente testada e qualificada, este tipo de operação ocorra com certa frequência, levando pesquisas e experimentos de universidades e empresas privadas para o ambiente de microgravidade”, reforçou o professor.
O presidente da AEB, Marco Antonio Chamon, avalia que as bases de lançamento brasileiras, especialmente a de Alcântara, no Maranhão, estão entre as mais bem posicionadas do mundo, o que dá ao país vantagem estratégica no setor.
Segundo Chamon, existem atualmente cerca de 18 mil satélites ativos em órbita, e a estimativa é que esse número chegue a 500 mil até 2040.
“Manter nossas bases ativas e em operação permite não apenas testarmos nossos próprios foguetes, mas também oferecermos comercialmente esse serviço a outros países. A empresa coreana Innospace foi a primeira que utilizou esse serviço de forma comercial e outras estão em negociação para também utilizar o Centro de Lançamento de Alcântara”, afirmou.
O dirigente também destaca que o desenvolvimento de tecnologias espaciais nacionais pode gerar novas empresas, empregos qualificados e produtos de alto valor agregado.
“Desenvolvimento de tecnologias de alta complexidade, como as tecnologias espaciais, também gera criação de novas empresas, empregos de alta capacitação e produtos com alto valor agregado, movimentando a economia espacial. Essa economia está estimada hoje em US$ 600 bilhões e deve chegar, segundo cálculo do Fórum Econômico Mundial, em 1,8 trilhões de dólares em 2035”, pontuou.
Inaugurado em 1965, o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) foi o primeiro centro de lançamentos espaciais da América do Sul.
A estrutura fica em Parnamirim, na Grande Natal, e seu nome faz referência às falésias avermelhadas da região.
Segundo a FAB, a localização próxima ao equador magnético, a presença do Oceano Atlântico e a infraestrutura logística favorecem as atividades de lançamento.
O CLBI já participou de mais de 400 lançamentos de foguetes e acompanhou mais de 3 mil veículos, incluindo monitoramento de lançamentos de Alcântara e rastreamento dos foguetes Ariane, da Agência Espacial Europeia.
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