

Imagem ilustrativa simboliza a reflexão sobre o tempo, a despedida, a fé e o sentido da vida diante da finitude humana | Ilustração feita com auxílio de IA
03 de setembro de 2026 – Ontem vivi uma experiência que me fez pensar profundamente sobre a vida. Fui ao velório do pai de uma amiga e, depois, acompanhei seu sepultamento. No momento da despedida, estavam ali apenas familiares e amigos mais próximos.
Uma filha se despedia do pai com lágrimas nos olhos, mas também com enorme orgulho ao falar dele, do homem que foi e do exemplo que deixou. Em suas palavras e atitudes, percebia-se não apenas o amor pelo pai, mas também uma profunda confiança em Deus.
Ao seu lado, uma esposa se despedia do homem com quem compartilhou mais de cinquenta anos de matrimônio. Filhos, netos, sobrinhos e amigos cercavam aquele momento de silêncio, dor e serenidade.
E algo me chamou especialmente a atenção: apesar da tristeza natural da despedida, era possível perceber que aquela era uma família feliz. Havia amor ali. Havia história. Havia fé. Havia vida compartilhada.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<
Enquanto acompanhava aquela despedida, pensei que talvez uma das maiores demonstrações de que uma vida valeu a pena esteja justamente naquilo que as pessoas dizem e sentem quando ela termina.
Não vi apenas uma filha chorando a ausência do pai. Vi uma filha falando dele com orgulho, reconhecendo seus exemplos e agradecendo, de alguma maneira, pela história que tiveram juntos.
Minha percepção era a de uma família que conviveu, amou e construiu uma história bonita. Aquelas lágrimas não falavam apenas da morte. Falavam, sobretudo, da vida. Sofremos a ausência porque tivemos o privilégio da presença.
Foi impossível não lembrar de Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e sobrevivente dos campos de concentração nazistas, que dedicou grande parte de sua obra à busca humana pelo sentido da vida.
Para Frankl, não existe uma resposta pronta e universal para a pergunta “qual é o sentido da vida?”. O sentido se revela na maneira como respondemos à existência, especialmente por meio daquilo que fazemos, daquilo e daqueles que amamos e da postura que assumimos diante do sofrimento que não podemos evitar.
E, olhando aquela família, pensei: talvez estivesse diante de uma resposta.
Mais de cinquenta anos de matrimônio são uma resposta. Uma filha que, mesmo no momento da despedida, consegue falar com orgulho do pai e do exemplo que recebeu é uma resposta. Netos que acompanham o avô até sua última morada são uma resposta. Uma família reunida, serena e emocionada é uma resposta.
No final das contas, quando retiramos os cargos, os títulos, o patrimônio, as disputas e as vaidades, o que sobra?
Sobram as pessoas que amamos e aquilo que construímos dentro delas.
Talvez seja esse um dos grandes sentidos da existência: deixar nossa presença na vida daqueles que caminharam conosco.
Mas, naquele sepultamento, aconteceu algo que me tocou ainda mais. Enquanto a família se despedia, Deus nos presenteou com um lindíssimo pôr do sol. O céu parecia participar silenciosamente daquele momento.
E, quando o sepultamento terminou, a lua surgiu, linda e majestosa.
Não preciso interpretar aquilo como um sinal sobrenatural para reconhecer sua beleza. O sol se pôs. A lua apareceu. Um ciclo terminava diante dos nossos olhos enquanto outro continuava.
A natureza parecia nos recordar, silenciosamente, que tudo tem seu tempo.
Então, olhei para além dos muros do cemitério. O mundo continuava. Carros, trânsito, buzinas, pressa, compromissos, celulares, gente correndo para chegar não sei onde.
Enquanto uma família parava para se despedir de alguém que amava, milhares de pessoas continuavam sua rotina como se o tempo fosse infinito.
E uma pergunta me veio imediatamente: será que temos tempo para viver?
Estamos sempre correndo. Sempre atrasados. Sempre buscando alguma coisa. Mas será que sabemos exatamente o que estamos procurando?
Talvez estejamos confundindo viver com estar ocupado. Trabalhamos mais, queremos produzir mais, acumular mais, aparecer mais, conquistar mais.
Nossa agenda está cheia, mas será que nossa vida também está?
Temos milhares de contatos e, muitas vezes, pouco tempo para quem está sentado ao nosso lado. Fotografamos momentos que mal conseguimos viver. Corremos para o próximo compromisso antes mesmo de terminar o atual.
E talvez a grande tragédia não seja perceber que a vida é curta. A verdadeira tragédia pode ser descobrir, tarde demais, que tivemos tempo, mas o gastamos com coisas que pouco importavam.
Frankl compreendeu, nas circunstâncias mais terríveis que um ser humano poderia enfrentar, que a existência precisa de sentido.
E aquele sepultamento me fez pensar que talvez o sentido seja muito mais simples do que imaginamos.
Está no amor, na família, na amizade, na presença, no abraço, no perdão, na fé e na capacidade de construir uma história que continue existindo dentro das pessoas quando já não estivermos aqui.
Uma vida com sentido não precisa necessariamente ser uma vida extraordinária aos olhos do mundo. Precisa ter significado para aqueles com quem a compartilhamos.
Para quem tem fé, há ainda uma dimensão maior. O cristianismo nunca ensinou que a morte possui a palavra definitiva.
Cristo nos oferece a esperança da Ressurreição: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25).
Talvez por isso aquele pôr do sol tenha me tocado tanto. O sol desapareceu no horizonte, mas a luz não deixou de existir. Logo depois, a lua surgiu.
Para nós, cristãos, a morte é despedida e sofrimento, mas também passagem e esperança. Choramos porque amamos; sentimos saudade porque convivemos; e seguimos porque acreditamos.
Saí daquele cemitério pensando que, paradoxalmente, talvez houvesse mais vida dentro daqueles muros do que fora deles.
Lá dentro havia uma filha falando com orgulho do pai e do exemplo que ele deixou. Havia uma esposa carregando mais de cinquenta anos de uma história construída a dois. Havia uma família reunida pela saudade, mas sustentada pelo amor e pela fé.
Do lado de fora, o mundo continuava correndo.
E talvez seja essa a pergunta que a morte, silenciosamente, faz a cada um de nós: você está realmente vivendo?
Porque morrer faz parte da vida. O que não podemos permitir é chegar ao fim e descobrir que passamos por ela depressa demais para perceber o que realmente importava.
Por Harley Ximenes
Advogado. Especialista em Direito do Trabalho, Empresarial e Sindical.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para portalterradaluz.
Leia também | Jorge Vercillo lança “Todo Sempre” nas rádios

Tags: morte, vida, sentido da vida, reflexão sobre a vida, Viktor Frankl, fé, família, amor, luto, despedida, esperança, espiritualidade, cristianismo, ressurreição, tempo, relações humanas, propósito de vida, legado, memória, convivência familiar, valores humanos, artigo de opinião, Harley Ximenes, Portal Terra da Luz