

Investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master reúne documentos e mensagens que apontam para contratos milionários, propostas envolvendo aeronaves, viagens internacionais e experiências de luxo relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes e familiares. | Foto: Ton Molina/Fotoarena
02 de setembro de 2026 — A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master aponta que o banqueiro Daniel Vorcaro teria oferecido uma série de vantagens econômicas, serviços de luxo e benefícios relacionados a viagens ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e a integrantes de sua família. As informações constam em documentos reunidos no inquérito.
Entre os pontos analisados pelos investigadores estão contratos de honorários advocatícios com o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro; propostas envolvendo cotas de aeronaves; despesas relacionadas a uma viagem a Londres; e uma experiência de luxo em Campos do Jordão.
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Um dos principais pontos da investigação envolve a relação financeira entre empresas ligadas a Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes.
Em um dos contratos identificados pela PF, o Banco Master se comprometeu a pagar 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório. Considerando os tributos previstos no acordo, o valor bruto de cada parcela chegava a R$ 3.646.529,77.
Segundo a Polícia Federal, o nome “Ministro Alexandre de Moraes” aparece nos metadados de duas versões da minuta do contrato. Em 11 de janeiro de 2024, Viviane teria enviado uma primeira versão a Daniel Vorcaro, cujo arquivo registrava como última modificação um usuário identificado com o nome do ministro.
Em 17 de janeiro, uma nova versão foi encaminhada ao banqueiro. Conforme a análise dos metadados feita pela PF, o documento também teria sido modificado pela mesma identificação de usuário em 15 de janeiro.
Os investigadores ressaltam, contudo, que os metadados constituem um indício técnico e, isoladamente, não comprovam quem estava fisicamente utilizando o computador ou quais alterações foram realizadas.
O contrato foi assinado em 23 de janeiro de 2024 por Daniel Vorcaro e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva.
Entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025, a investigação encontrou quatro comprovantes de transferências destinadas ao escritório de Viviane. Os pagamentos, no valor de R$ 3.422.268,14 cada, após descontos específicos, totalizaram aproximadamente R$ 13,6 milhões.
Mensagens analisadas pela PF indicam que Vorcaro tratava os repasses ao escritório como prioridade. Em uma conversa ocorrida em março de 2024, o banqueiro afirmou que aquele era “o pagamento mais importante” e que não poderia “atrasar um dia”.
A PF também identificou um segundo contrato de honorários envolvendo o escritório da esposa de Moraes. O documento estabelecia um “limite máximo remuneratório” de R$ 50 milhões líquidos, a título de pró-labore, ao longo de 36 meses.
Conforme a investigação, o pagamento poderia ocorrer por transferência bancária da Viking Participações, empresa que tem Vorcaro como sócio, ou por meio de “dação em pagamento” de bens imóveis, móveis ou serviços.
Em maio de 2025, o advogado Leonardo Palhares teria encaminhado a Vorcaro duas propostas para quitar o contrato. Uma delas previa R$ 40 milhões por meio da entrega de cotas de duas aeronaves e os R$ 10 milhões restantes como reembolso de despesas relacionadas ao uso dos equipamentos.
Os ativos citados pela PF estavam vinculados às empresas F24 e F53. A primeira seria proprietária de uma aeronave Legacy 650, enquanto a segunda estaria em processo de aquisição de um helicóptero Airbus Helicopters EC 155 B1.
Em uma conversa reproduzida no relatório, Marcos da Mata, sócio de Vorcaro, perguntou a Viviane de Moraes: “Estão gostando da utilização das cotas de vocês?”. A advogada respondeu: “Sim, estamos gostando muito”.
Após a divulgação do relatório, o escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que não assinou um segundo contrato com empresas de Daniel Vorcaro e que não aceitou os termos da negociação. O escritório também declarou que, por esse motivo, não recebeu cotas de aeronaves ou outros ativos mencionados na proposta.
A investigação também menciona uma recepção no Six Senses Botanique, na região de Campos do Jordão, em São Paulo, descrita pela PF como uma experiência oferecida por Vorcaro a uma comitiva relacionada nas mensagens a “Alex”.
Segundo o relatório, a programação previa almoço, contratação de um chef particular identificado como Zé Maria, passeios a cavalo e atendimento por funcionários ligados ao banqueiro.
O planejamento teria sido elaborado para nove convidados e quatro seguranças. Em uma mensagem enviada a um contato identificado como Thatiane Prime, Vorcaro afirmou que faria um almoço e destacou: “Tem que ser experiência completa. Convidados ultra vips”.
O relatório apresentado no material da investigação menciona dezembro de 2026 para esse episódio. A referência, contudo, é posterior à data desta publicação, 2 de setembro de 2026, e por isso deve ser considerada uma informação a ser esclarecida no documento original.
Outro episódio analisado pela PF envolve a participação de Alexandre de Moraes no I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, realizado entre 24 e 27 de abril de 2024.
Segundo a investigação, as despesas relacionadas à viagem seriam custeadas. Em 28 de março de 2024, uma mensagem atribuída a Moraes e enviada ao ministro Gilmar Mendes tratava da participação no evento.
“ A estadia poderá ser até 28/4. É organizado pelo CONJUR, Correio Braziliense e Banco Master. Topa?”, dizia a mensagem reproduzida pela investigação.
Os diálogos analisados pela PF indicam ainda que Moraes teria participado de discussões relacionadas a convidados, vetos e programação do evento.
A estrutura destinada às autoridades incluía transporte terrestre com veículos Mercedes-Benz S-Class e motoristas para participantes classificados como VIPs. Entre os nomes citados estavam Alexandre de Moraes e o ministro Dias Toffoli.
Na segunda edição do evento, prevista para 2025, mas que não chegou a ser realizada, uma funcionária de marketing identificada como Ana Matos teria informado a Vorcaro que um assessor de Alexandre de Moraes havia entrado em contato para tratar da emissão da passagem aérea.
Segundo o relatório, Vorcaro respondeu: “Pode fazer”.
As informações fazem parte das apurações da Polícia Federal sobre as relações entre Daniel Vorcaro, empresas ligadas ao Banco Master e pessoas próximas ao ministro Alexandre de Moraes. A presença de determinados nomes, contratos ou diálogos nos documentos investigativos, por si só, não representa comprovação de irregularidade ou crime.
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