
Davi Alcolumbre segura pautas prioritárias do governo no Senado enquanto projetos com impacto fiscal avançam no Congresso | Foto: Carlos Moura/Agência Senado
14 de junho de 2026 – A semana de esforço concentrado no Senado terminou sem avanços nas pautas prioritárias do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ampliou o desgaste entre o Executivo e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
Propostas consideradas centrais pelo governo, como a PEC do fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública, seguem sem definição de tramitação. Ao mesmo tempo, avançaram no Senado projetos classificados pela equipe econômica como “pautas-bomba”, com potencial de gerar impacto superior a R$ 150 bilhões nas contas públicas.
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A expectativa do governo era que o Senado desse algum sinal de avanço na tramitação da PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais em até 14 meses e abre caminho para o fim da escala 6×1.
A proposta foi aprovada há mais de duas semanas na Câmara dos Deputados, mas ainda aguarda despacho de Alcolumbre para seguir na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), presidida pelo senador Otto Alencar (PSD-BA).
Uma reunião entre Alcolumbre e Otto estava marcada para a última terça-feira (09/06), mas foi desmarcada pelo presidente do Senado em cima da hora.
“Eu cheguei cedo da Bahia para tratar desse assunto [PEC da 6×1], mas em cima da hora ele desmarcou comigo. Não tem nenhuma novidade [sobre 6×1]”, afirmou Otto Alencar.
Além da PEC da escala 6×1, Otto Alencar também aguarda o envio de outras duas propostas de interesse do Executivo: a PEC da Segurança Pública e o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE).
Na próxima semana, o Senado funcionará em sessões semipresenciais, mas Otto afirmou que irá a Brasília se Alcolumbre marcar uma nova reunião para discutir a tramitação das pautas. Segundo o senador, porém, o presidente da Casa ainda “não deu nenhum sinal” de encontro.
“Talvez eu vá com o [Jaques] Wagner para ver se a gente conversa, mas depende do Davi. Se por acaso ele me chamar, como já me chamou e marcou. Ele desmarcou e eu também, por ter uma ótima relação com ele, eu não vou para esse confronto porque não vai resolver nada”, pontuou Otto Alencar.
Alcolumbre já fez chegar a Lula que as pautas prioritárias do governo só devem avançar após uma reunião entre os dois para encaminhar as matérias. Interlocutores dos dois lados tentam viabilizar o encontro, mas a agenda é considerada improvável no momento.
A relação entre Lula e Alcolumbre, que já vinha desgastada, ficou ainda mais tensa após a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). A articulação contrária à indicação foi atribuída ao presidente do Senado.
Enquanto as propostas do governo seguem paradas, Alcolumbre acelerou a tramitação de projetos com impacto fiscal elevado.
Na mesma terça-feira em que desmarcou a reunião com Otto Alencar, Alcolumbre recebeu na residência oficial do Senado os ministros José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, e Dario Durigan, da Fazenda.
Os ministros pediram que o presidente do Senado segurasse projetos considerados prejudiciais ao equilíbrio fiscal, entre eles a proposta que cria uma linha especial de crédito rural para renegociação de dívidas de produtores.
Segundo cálculos da Fazenda, o projeto pode gerar custo de R$ 140 bilhões para o Tesouro Nacional nos próximos anos, elevando a dívida pública.
Apesar da tentativa de negociação, o texto foi aprovado em votação simbólica, sem registro individual dos votos dos parlamentares.
Além do projeto de renegociação das dívidas rurais, a CCJ do Senado aprovou, também em votação simbólica, uma PEC que prevê aposentadoria integral e com paridade para agentes de saúde e de combate a endemias.
A equipe econômica estima que a medida amplie a insuficiência financeira dos regimes de previdência em R$ 3 bilhões por ano. Já o Ministério da Previdência Social calcula impacto de R$ 99 bilhões, considerando União, estados, Distrito Federal e municípios.
No fim do mês passado, a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) também aprovou projeto que aumenta o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13,6 mil em jornada de 20 horas semanais. A estimativa é de aumento de R$ 8,4 bilhões por ano nas despesas da União, sem contar estados, municípios e a rede Ebserh.
A pressão do Senado sobre o governo já provoca reflexos na Câmara dos Deputados. Diante da aprovação das pautas-bomba e da indefinição sobre a PEC da escala 6×1, o Planalto decidiu manter a urgência constitucional do projeto enviado pelo Executivo sobre redução da jornada de trabalho.
A medida mantém a pauta da Câmara trancada e desagradou o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), com quem Lula havia estreitado relação nas últimas semanas.
Para sair do impasse, Motta decidiu pautar o projeto do governo como único item da próxima semana. A estratégia é votar o texto, mas adaptá-lo ao conteúdo da PEC já aprovada pelos deputados.
O objetivo é destravar a pauta e abrir espaço para a análise de projetos como o Marco Legal da Inteligência Artificial e o aumento do limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI).
A votação na Câmara deve ocorrer em sessões híbridas, já que muitos deputados estão mobilizados em suas bases por causa das eleições e das festas juninas, especialmente no Nordeste.
Aliados de Hugo Motta avaliam que o presidente da Câmara tenta manter visibilidade antes do recesso parlamentar. A expectativa é de um segundo semestre mais esvaziado, cenário que pode ser agravado caso a pauta continue trancada e sem votações relevantes.
O impasse entre governo, Senado e Câmara mostra a dificuldade do Executivo em avançar com sua agenda legislativa em meio a disputas políticas, pressões corporativas e projetos com forte impacto nas contas públicas.
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