

Especialistas alertam que o uso sem orientação médica de medicamentos com corticoides pode causar glaucoma e comprometer a visão de forma permanente. | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
08 de junho de 2026 – O uso inadequado de corticoides, especialmente sem prescrição ou acompanhamento médico, pode provocar sérios danos à saúde ocular e aumentar os casos de glaucoma no Brasil. O alerta é do presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Roberto Murad Vessani.
O glaucoma é uma doença que afeta o nervo óptico e está associado ao aumento da pressão intraocular. A condição não tem cura e, quando não tratada adequadamente, pode levar à cegueira.
Segundo estimativas, cerca de 1,7 milhão de brasileiros convivem com a doença. De acordo com Vessani, entre 2,5% e 3,5% das pessoas acima dos 40 anos já apresentam glaucoma.
Medicamentos contendo corticoides, como colírios, pomadas e comprimidos, são amplamente utilizados para tratar inflamações, alergias, crises respiratórias, sinusites e dores inflamatórias. O problema surge quando essas substâncias passam a ser utilizadas de forma frequente e sem supervisão médica.
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Os corticoides podem dificultar a drenagem natural do líquido que circula dentro dos olhos, provocando seu acúmulo e elevando a pressão intraocular.
Quando essa pressão permanece elevada por longos períodos, pode causar lesões permanentes no nervo óptico e desencadear o glaucoma.
Além dos riscos para a visão, o uso indiscriminado dessas substâncias pode provocar aumento da glicose no sangue, agravamento do diabetes, ganho de peso, retenção de líquidos, hipertensão arterial, enfraquecimento dos ossos, alterações hormonais e maior suscetibilidade a infecções.
A Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) encaminharam uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a entidades médicas alertando sobre os riscos do uso indiscriminado de fórmulas contendo corticoides.
“É muito grave. Na verdade, é um problema de saúde pública”, afirmou Roberto Vessani.
As entidades defendem medidas semelhantes às adotadas para os antibióticos, cuja comercialização exige controle rigoroso por meio de receita médica.
“Para nós, é muito importante que o uso de corticoides nas diversas formas tenha o mesmo rigor que ocorre em relação aos antibióticos”, destacou Vessani.
Segundo ele, um sistema mais rígido ajudaria a evitar a automedicação e garantiria maior segurança aos pacientes.
De acordo com o presidente da SBG, cerca de 90% dos pacientes que já possuem glaucoma apresentam sensibilidade ao uso de corticoides, o que pode provocar aumentos significativos da pressão ocular.
“Comprometendo mais ainda a situação do glaucoma desse paciente”, explicou.
O especialista também chama atenção para os riscos entre crianças que utilizam colírios com corticoides para tratar alergias oculares. Sem acompanhamento adequado, o uso contínuo pode elevar a pressão intraocular e até favorecer o surgimento precoce de catarata.
As entidades oftalmológicas vêm promovendo campanhas educativas para informar médicos de diversas especialidades sobre os riscos associados ao uso prolongado de corticoides.
Segundo Vessani, profissionais de áreas como ortopedia, reumatologia, pediatria e geriatria frequentemente prescrevem esses medicamentos para pacientes que podem já ter glaucoma ou predisposição à doença.
“Isso ajuda a diminuir riscos e a evitar situações que possam causar problemas maiores para a visão das pessoas que estão sendo tratadas de condições crônicas de saúde das diferentes especialidades”, afirmou.
Especialistas recomendam que pacientes em uso prolongado de corticoides realizem acompanhamento oftalmológico regular, incluindo a medição da pressão intraocular.
O cuidado deve ser reforçado especialmente entre crianças, idosos e pessoas com histórico familiar de glaucoma.
Segundo Vessani, o risco aumenta significativamente com o avanço da idade.
“As pessoas têm outras condições de saúde que, frequentemente, podem precisar do uso crônico de corticoides. Há muitos pacientes de 70, 80 anos que, muitas vezes, têm glaucoma e, devido a um problema de saúde que exige o uso crônico de corticoides, estes medicamentos podem trazer problemas para os olhos dessas pessoas”, alertou.
As entidades médicas reforçam que a informação e a conscientização da população e dos profissionais de saúde são fundamentais para reduzir os riscos e evitar casos de perda visual evitável.
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