

Os zoantídeos do gênero Palythoa (foto) são parentes próximos dos corais e anêmonas; neles, foram encontradas as bactérias que produzem a substância usada no combate às doenças. | Foto: divulgação
27 de maio de 2026 – Uma substância produzida por bactérias encontradas em organismos marinhos do litoral cearense pode se tornar uma nova aliada no combate ao câncer de próstata e de ovário. A descoberta é resultado de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade de São Paulo (USP), publicado na revista internacional Chemistry and Biodiversity.
Os cientistas coletaram animais invertebrados nas praias da Taíba e Paracuru, no Ceará, para isolar bactérias capazes de produzir compostos bioativos. A substância identificada, chamada piericidina A1, apresentou atividade anticâncer superior à de agentes quimioterápicos convencionais em testes laboratoriais.
A piericidina A1 é um produto natural produzido por bactérias do gênero Streptomyces, encontradas sobre zoantídeos do gênero Palythoa, organismos marinhos parentes próximos de corais e anêmonas.

Durante a pesquisa, os cientistas avaliaram a capacidade da substância de causar a morte celular em diferentes tipos de câncer. Os resultados mostraram eficácia contra células de câncer de próstata, ovário, algumas linhagens de câncer de intestino e tumores cerebrais.
Segundo os pesquisadores, os efeitos ocorreram em concentrações extremamente baixas, atingindo nível picomolar, considerado mil vezes menor que o nanomolar, o que indica elevada potência biológica.
“Acreditar que aquelas concentrações eram verdadeiras, para mim, foi o maior desafio”, afirmou a pesquisadora de pós-doutorado Katharine Florêncio, do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), da UFC.
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A pesquisadora Bianca Sahm, atualmente em pós-doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, explicou que inicialmente o grupo desconfiou dos resultados obtidos.
“As cientistas optaram por utilizar uma segunda metodologia, que confirmou os bons resultados”, destacou o estudo.
Os pesquisadores também investigaram o mecanismo de ação da piericidina A1. A substância atua bloqueando o transporte de elétrons na membrana da mitocôndria, impedindo a produção de energia celular e levando à morte ou à redução da proliferação das células tumorais.
Apesar dos resultados promissores, os cientistas ressaltam que os testes ainda são preliminares dentro do processo de desenvolvimento de um novo medicamento.
Segundo Bianca Sahm, atualmente não existe um fármaco disponível para uso clínico com este mecanismo de ação, principalmente devido ao risco de toxicidade em células saudáveis.
Ainda assim, as pesquisadoras acreditam que a substância pode futuramente ser utilizada como adjuvante no tratamento contra o câncer, potencializando a ação de outros medicamentos e enfraquecendo células tumorais.
Os próximos passos incluem testes de segurança, seletividade e avaliação da substância em combinação com quimioterápicos já utilizados na prática clínica.
Os pesquisadores coletaram zoantídeos nas praias cearenses e levaram o material para o Laboratório de Bioprospecção e Biotecnologia Marinha (LaBBMar), no NPDM/UFC.

No laboratório, as bactérias presentes nos organismos marinhos foram isoladas e cultivadas em placas de petri. Após o crescimento, os microrganismos passaram por fermentação e extração com solventes orgânicos.
Os extratos produzidos foram testados inicialmente em células de câncer de próstata. A fração que apresentou melhor atividade anticâncer passou por análises químicas detalhadas, que identificaram a piericidina A1 como responsável pelos resultados observados.
Segundo os pesquisadores, o método utilizado, chamado fracionamento bioguiado, é uma das abordagens mais tradicionais da bioprospecção, área que busca substâncias úteis à saúde humana a partir de organismos vivos.
Com informaçãoes da Agência UFC
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