

O avanço dos cigarros eletrônicos entre adolescentes reacende o alerta sobre a dependência de nicotina e os desafios para o controle do tabagismo no Ceará. | Foto: Freepik
26 de agosto de 2026 — O Brasil apresentou avanços importantes no combate ao tabagismo nas últimas décadas, mas os dados mais recentes indicam que o consumo de nicotina entre adolescentes continua sendo motivo de preocupação. Enquanto a experimentação do cigarro convencional diminuiu no país, os dispositivos eletrônicos para fumar ganharam espaço entre os jovens.
No Ceará, o cenário chama ainda mais atenção. O Estado foi o único do país a registrar aumento na proporção de estudantes de 13 a 17 anos que afirmaram já ter experimentado cigarro convencional entre 2019 e 2024.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 18,7% dos estudantes cearenses de 13 a 17 anos disseram já ter experimentado cigarro em 2024, ante 17,6% em 2019.
No Brasil, a tendência foi diferente. A proporção caiu de 22,6% para 18,5% no mesmo período.
Para Alina Farias Franca, pneumologista da Clínica SiM, os números demonstram que as estratégias de prevenção precisam acompanhar as mudanças na forma de consumo da nicotina.
“O que mudou foi a forma de apresentação da nicotina. Para o adolescente, o cigarro eletrônico pode parecer distante da imagem tradicional do cigarro, mas isso não significa que seja inofensivo. A nicotina continua tendo alto potencial de dependência, e quanto mais cedo ocorre o contato, maior é a preocupação com a consolidação desse consumo ao longo da vida”, explica.
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O avanço dos cigarros eletrônicos acrescenta uma nova dimensão ao desafio. Na região Nordeste, 22,5% dos adolescentes de 13 a 17 anos já haviam experimentado cigarro eletrônico em 2024.
No Brasil, o percentual chegou a 29,6% em 2024, contra 16,8% em 2019, segundo os dados da PeNSE.
Para a pneumologista, sabores, formatos e a aparência dos dispositivos podem contribuir para diminuir a percepção de risco entre adolescentes e facilitar o primeiro contato com a nicotina.
“Um dos problemas é que a primeira experiência pode parecer inofensiva. O adolescente experimenta, repete em situações sociais e, quando percebe, já existe uma rotina de consumo. Por isso, a prevenção precisa acontecer antes da dependência estar instalada”, afirma Franca.
A adolescência é marcada por intenso desenvolvimento neurológico. Nesse período, a exposição à nicotina pode favorecer a instalação da dependência e interferir em mecanismos relacionados à atenção, à aprendizagem e ao controle de impulsos.
A especialista ressalta que o risco não está restrito ao cigarro convencional. A presença da nicotina nos dispositivos eletrônicos mantém a possibilidade de desenvolvimento de dependência.
A iniciação cada vez mais precoce também preocupa porque pode aumentar a probabilidade de manutenção do consumo ao longo da vida.
Entre os adultos, o país apresenta uma trajetória mais positiva no controle do tabagismo. De acordo com o Vigitel, a proporção de fumantes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal caiu de 15,7% em 2006 para 11,5% em 2024.
Apesar da redução histórica, o indicador permaneceu estatisticamente estável entre 2019 e 2024.
Em Fortaleza, o Vigitel registrou 6,5% de adultos fumantes em 2023, percentual que coloca a capital cearense entre as cidades brasileiras com menor prevalência do hábito.
Para Alina Farias Franca, os avanços entre adultos não significam que o combate à dependência possa ser interrompido.
“O Brasil teve uma evolução muito importante no controle do tabagismo, mas uma redução da prevalência não significa que podemos baixar a guarda. Ainda existem pessoas dependentes que precisam de tratamento e, ao mesmo tempo, precisamos impedir que adolescentes iniciem o consumo de nicotina”, afirma.
A pneumologista também destaca que pessoas que já fumam podem buscar atendimento mesmo sem apresentar sinais de uma doença pulmonar avançada. O acompanhamento profissional pode ajudar a avaliar o grau de dependência e estabelecer uma estratégia para interromper o consumo.
“Parar de fumar não deve ser tratado simplesmente como uma questão de força de vontade. A dependência de nicotina pode exigir acompanhamento profissional, mudanças comportamentais e, em alguns casos, tratamento medicamentoso. Uma recaída também não significa que a pessoa fracassou: pode fazer parte do processo até conseguir abandonar definitivamente o consumo”, destaca Franca.
Celebrado em 29 de agosto, o Dia Nacional de Combate ao Fumo reforça a necessidade de manter as ações de prevenção e controle do tabagismo.
O desafio atual envolve não apenas preservar os avanços obtidos contra o cigarro convencional, mas também evitar que os dispositivos eletrônicos contribuam para uma nova geração de pessoas dependentes de nicotina.
A prevenção da iniciação entre adolescentes, a informação sobre os riscos dos cigarros eletrônicos e o acesso ao tratamento para quem já desenvolveu dependência são apontados como medidas importantes para enfrentar o problema.
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