

O índice varia entre estados e até entre hospitais de uma mesma cidade, indicando que a decisão das famílias também pode ser influenciada pela forma como o processo é conduzido pelas instituições de saúde. | Foto: Divulgação/Ministério da Saúde
08 de setembro de 2026 – A taxa média de recusa familiar para a doação de órgãos no Brasil gira em torno de 45%, segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes. O índice varia entre estados e até entre hospitais de uma mesma cidade, indicando que a decisão das famílias também pode ser influenciada pela forma como o processo é conduzido pelas instituições de saúde.
A perda de um ente querido é um dos momentos mais difíceis para qualquer família. Quando ocorre a confirmação da morte encefálica, os familiares precisam decidir sobre a autorização para a doação de órgãos, que pode beneficiar pessoas que aguardam por um transplante.
Segundo o presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB), Cristiano Franke, muitas pessoas manifestam em vida o desejo de doar seus órgãos e várias famílias também estão dispostas a respeitar essa vontade. No entanto, falhas no acolhimento e na comunicação dentro dos hospitais podem dificultar a autorização.
“Muitas vezes as famílias não recebem todas as informações adequadamente, no momento e com um protocolo adequados para tomarem a melhor decisão. E muitas vezes também, as equipes médicas não estão preparadas para lidar com conversas difíceis, utilizando termos excessivamente técnicos e inacessíveis, ou realizando abordagens consideradas frias e comerciais em locais inadequados”, afirmou Franke.
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Para enfrentar esse cenário, a AMIB, em parceria com o Ministério da Saúde, capacitou 2.534 profissionais de saúde entre setembro de 2025 e agosto de 2026. O número supera em 25% a meta inicial do projeto, que previa a formação de 2 mil participantes.
A iniciativa busca ampliar o número de profissionais preparados para atuar nas diferentes etapas do processo de doação e transplante, incluindo a comunicação com familiares de potenciais doadores.
De acordo com Franke, a capacitação envolve a identificação de potenciais doadores, a determinação da morte encefálica e a manutenção clínica do paciente, além do diálogo com os familiares.
“Atingir mais de 2,5 mil profissionais capacitados mostra que estamos conseguindo levar conhecimento técnico para quem está na linha de frente de um processo que exige muita responsabilidade. Um diagnóstico de morte encefálica precisa seguir critérios rigorosos, assim como a manutenção do potencial doador e o diálogo com a família”, disse.
Até agosto, o projeto havia realizado 73 cursos, distribuídos em 23 módulos e com atividades em 25 estados brasileiros. Outros oito treinamentos ainda estão previstos até o encerramento da iniciativa. Em setembro, estão programadas capacitações em Fortaleza (CE) e Florianópolis (SC).
Entre os profissionais capacitados estão 933 médicos. Desse total, 473 receberam treinamento específico para a determinação da morte encefálica.
Também participaram médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, administradores, farmacêuticos, odontólogos, biólogos, além de um nutricionista e um pedagogo.
Os profissionais receberam orientações sobre o Gerenciamento no Processo de Doação e Transplante (GPDT) e sobre o uso da Comunicação em Situações Críticas (CSC).
Entre os fatores que podem levar uma família a não autorizar a doação estão a dificuldade de compreender ou aceitar o diagnóstico de morte encefálica, crenças religiosas, receio de alterações na integridade do corpo, desconfiança em relação ao processo e desconhecimento sobre a vontade manifestada pelo familiar em vida.
Também pode influenciar a percepção de que os profissionais de saúde estariam mais interessados na retirada dos órgãos do que no cuidado com o paciente ou com os familiares.
O receio de que o corpo seja alterado após a retirada dos órgãos é outro ponto que precisa ser esclarecido pelas equipes.
“As famílias têm receio de deformação do corpo e nós explicamos adequadamente como é feito o procedimento e a reconstituição do corpo, que não deixarão deformidades visíveis nos ritos funerais como o velório. Elas trazem isso com muita clareza e nós precisamos explicar isso com tempo e clareza”, explicou Franke.
Dados do Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mostram que 15.940 potenciais doadores foram registrados no Brasil em 2025. Desse total, 4.335 se tornaram doadores efetivos.
No mesmo período, 4.200 famílias não autorizaram a doação, o equivalente a 45% das entrevistas realizadas.
Apesar das recusas, o país registrou crescimento na taxa de doadores efetivos. Em 2025, foram 20,3 doadores por milhão de habitantes, contra 19,2 por milhão em 2024.
A qualificação dos profissionais e uma comunicação mais clara, acolhedora e humanizada são apontadas como estratégias para reduzir as recusas e ampliar o número de órgãos disponíveis para transplantes.
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