

Estudo da UFPE mostra que o ruído provocado por embarcações e turistas pode prejudicar a comunicação dos peixes e afetar os recifes de corais. | Foto: Edmar Paz/Divulgação
20 de julho de 2026 – O barulho provocado por embarcações, motos aquáticas e pela intensa movimentação de turistas pode comprometer a comunicação entre peixes e afetar diretamente o equilíbrio dos ecossistemas marinhos. A conclusão é de um estudo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20) na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori.
A pesquisa revela que a poluição sonora interfere na emissão dos sons utilizados pelos peixes para reprodução, alimentação, defesa de território e interação entre indivíduos, colocando em risco a saúde dos recifes de corais.
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Segundo um dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, os resultados mostraram uma diminuição significativa na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes em áreas com maior atividade humana.
“Houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”, afirma Túlio Freire Xavier.
De acordo com o pesquisador, a redução foi observada justamente nos locais onde havia maior intensidade de ruídos provocados por embarcações e turistas.
“Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”, explica.
Os pesquisadores destacam que muitas espécies utilizam sons para localizar parceiros, defender territórios, encontrar alimento e alertar sobre a presença de predadores.
“Se essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos também podem ser afetados”, ressalta Túlio Freire Xavier.
O estudo identificou nove tipos diferentes de sons emitidos por peixes, sendo que três deles deixaram de ser registrados nas áreas mais impactadas pela presença humana.
Além disso, foi constatada uma redução da chamada complexidade acústica, indicador que mede a diversidade dos sons produzidos nos recifes ao longo do tempo.
O trabalho foi realizado nas praias de Carneiros, localizada na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe, e Tamandaré, na APA Costa dos Corais, dois dos principais destinos turísticos do litoral pernambucano.
Durante o monitoramento, foram registradas 80 horas de gravações subaquáticas, distribuídas em sessões de dez horas contínuas. Paralelamente, mergulhadores realizaram censos visuais para identificar e contar as espécies presentes.
Ao todo, foram encontradas entre 18 e 23 espécies de peixes, sendo quase 1,4 mil indivíduos registrados apenas em Carneiros.
As coletas ocorreram entre janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada turística, além de uma nova etapa em abril de 2023.
Embora a pesquisa tenha sido desenvolvida no litoral de Pernambuco, os cientistas alertam que os efeitos da poluição sonora podem ocorrer em outras áreas marinhas com intenso tráfego de embarcações.
“Sempre que houver intenso tráfego de embarcações, turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes, existe potencial para impactos semelhantes”, afirma Túlio Freire Xavier.
Segundo ele, ecossistemas como Abrolhos e Fernando de Noronha também podem enfrentar situações semelhantes.
Os pesquisadores ressaltam que ainda não existem parâmetros internacionais consolidados para definir níveis seguros de ruído em ambientes recifais.
“Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”, destaca o pesquisador.
Para minimizar os impactos, o estudo sugere medidas como organizar rotas de embarcações, reduzir a velocidade em áreas ambientalmente sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades náuticas sobre os recifes.
“Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade”, conclui Túlio Freire Xavier.
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