
Evento climático extremo escancara desigualdade histórica, risco institucionalizado e o desafio da adaptação nas cidades brasileiras | Foto: reprodução/AFP
1 de março de 2026 – Abro os portais de notícia e, mais uma vez, uma tragédia é empacotada com a etiqueta da mudança do clima. A fórmula é conhecida: “evento extremo”, “chuva histórica”, “cidade em colapso”, “mortos e desaparecidos”. O repertório é tão repetido que corre o risco de virar anestesia. Não porque a dor diminuiu, mas porque a narrativa já vem pronta, como se o mundo estivesse produzindo, em série, a mesma cena com figurinos levemente diferentes.
Juiz de Fora aparece nesse fluxo de tragédias como um nome que eu reconheço. Não por intimidade geográfica, mas por camadas acumuladas de história, pesquisa e documentos. Eu sabia, sem conhecer cada rua, que ali existe um risco antigo, persistente, mapeado. Sabia que a cidade tem encostas, morros, vales e cicatrizes geológicas que fazem da chuva uma conversa perigosa com a gravidade. O que eu não sabia era o quanto esse risco está institucionalizado no papel. E foi justamente isso que me puxou.
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Assisti à entrevista da prefeita Margarida Salomão no UOL – Universo Online News. Foi uma fala rara. Ela não tentou apenas administrar a crise com frases genéricas. Ela fez algo mais ambíguo e, por isso mesmo, mais interessante: apresentou a tragédia como fruto de desigualdade urbana histórica, mas também como um teste para a capacidade administrativa do município. Disse que havia dados, mapeamento, plano de contingência, sala de situação, câmeras e articulação institucional. Em seguida, explicou os limites: burocracia no repasse de recursos, ocupações irregulares e uma chuva tão fora da curva que “não há estrutura que aguente”. A narrativa era, ao mesmo tempo, defensiva e diagnóstica, como se a cidade estivesse preparada e, ainda assim, inevitavelmente vulnerável.
Quando um gestor público afirma, na mesma entrevista, que tem dados e que enfrenta o inevitável, vale a pena fazer a pergunta que quase ninguém faz com calma: que tipo de preparo é esse? Preparei-me, então, como um leitor desconfiado e fui atrás do que a prefeita dizia existir.
É aí que este texto começa de verdade.
No site da prefeitura, encontrei o Plano de Contingência Municipal para o período chuvoso 2025–2026. Um documento com vocabulário de operação: cenários, níveis de alerta, responsabilidades, fluxos entre órgãos. Não é um panfleto, é um manual de guerra. E logo no começo, antes das tabelas, antes das rotinas administrativas, veio a frase que muda a escala moral do debate: Juiz de Fora estima que cerca de 25% dos seus moradores vivem em áreas de risco, 40.532 domicílios e 128.946 habitantes.
Um quarto da cidade.
É um número grande demais para caber na categoria “emergência”. Emergência pressupõe exceção, um evento que interrompe o curso normal da vida. Quando o risco alcança 25% da população, o risco deixa de ser um acidente e passa a ser um regime. Um modo de vida. Um modo de morar. Um modo de governar. E, a partir daí, o texto muda de eixo: não estamos falando apenas de uma chuva histórica, estamos falando de uma arquitetura urbana que transformou o clima em mecanismo recorrente de seleção social, quem pode ficar, quem precisa sair, quem não tem para onde ir.
O Plano municipal é, em muitos sentidos, uma prova de competência. Ele mostra que o município sabe o que tem nas mãos: mapeamento de áreas de risco, classificação, protocolos de acionamento, comunicação institucional. Mas, ao mesmo tempo, revela o tipo de competência que o Brasil costuma celebrar, competência para responder, não necessariamente para prevenir. Ele organiza o Estado para agir depois que o evento aconteceu, quando os rios já saíram do lugar, quando a encosta já deslizou, quando as pessoas já perderam móveis, documentos e, às vezes, parentes.
O ponto mais delicado, e mais político, é que o próprio Plano reconhece a retirada como instrumento. Em cenários de risco alto e muito alto, prevê retirada emergencial de pessoas e encaminhamentos, família ou abrigos; depois, quando aplicável, auxílio-moradia. Ou seja, remover existe. Só não existe como política pública com nome próprio, com método, com escala, com destino. Remover existe como verbo de crise, não como substantivo de Estado.
Aqui é onde o tabu aparece.
No Brasil, falar em remoção tem má reputação. A palavra carrega, com razão, a memória de expulsões, de higienismo, de arbitrariedade. Por isso, prefeitos evitam a palavra como se ela fosse moralmente tóxica. Mas a mudança do clima tem uma característica incômoda: ela não negocia com a nossa sensibilidade semântica. Em muitas cidades, adaptar não será sinônimo apenas de melhorar drenagem. Adaptar será sinônimo de mudar de lugar. Deslocar. Reassentar. Retirar. Criar destino.
A prefeita, na entrevista, toca nesse nervo com uma frase que deveria ser discutida em escolas, câmaras municipais e conselhos de urbanismo: não é simples dizer às pessoas que seria “mais racional” ou “mais barato” saírem do lugar onde vivem, onde construíram relações sociais e afetivas. A frase é verdadeira. Mas também é perigosa se virar justificativa para a inação. Porque pode produzir um impasse perfeito: como é injusto remover, removemos pouco; como removemos pouco, morremos muito; como morremos muito, chamamos de tragédia; como é tragédia, é exceção; como é exceção, seguimos sem política.
O que encontrei nos documentos municipais me levou a um segundo movimento: sair de Juiz de Fora e olhar o Brasil pelo retrovisor do governo federal.
Em 2023, a Casa Civil da Presidência produziu uma Nota Técnica para identificar os municípios mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, definindo critérios, indicadores e bases de dados que vão de registros de desastres, S2ID e Atlas, à setorização de risco da CPRM, além de vulnerabilidade a inundações da ANA e dias com chuvas intensas monitorados pelo Cemaden. O resultado foi uma lista de 1.942 municípios, 34,9% do total, que concentram 73,3% da população brasileira.
O dado é quase literário, se não fosse trágico: o Brasil conseguiu desenhar, com Excel e Power BI, um país onde a maioria das pessoas vive em municípios oficialmente classificados como mais suscetíveis a desastres geo-hidrológicos. A Nota Técnica explicita, inclusive, a ambição do método: identificar um conjunto que represente 100% dos óbitos registrados, mais de 95% dos desalojados e desabrigados e mais de 95% das pessoas expostas aos riscos.
Tradução simples: o Estado brasileiro sabe onde dói. Sabe quanto dói. Sabe como dói.
E, mesmo assim, segue, em boa parte das cidades, sem enfrentar o ponto que a mudança do clima coloca na mesa como exigência ética e administrativa: a política do “para onde ir”.
Juiz de Fora é um caso exemplar por uma razão desconfortável: ela não cabe no estereótipo do município desorganizado que “não fez o dever de casa”. O dever de casa, mapeamento, plano e alerta, foi feito. E, no entanto, a cidade segue com um quarto da sua população vivendo em áreas de risco. Quando evento extremo encontra vulnerabilidade extrema, o resultado não é apenas um desastre, é um espelho. Extremo X Extremo = Extremo ²
É desse espelho que este texto trata.
Élcio Batista é coordenador do Programa Cidade +2°C, Centro de Estudos das Cidades – Arq. Futuro, Insper
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Tags: Portal Terra Da Luz, Juiz de Fora, mudanças climáticas, eventos extremos, risco urbano, desigualdade social, adaptação climática, políticas públicas, gestão municipal, áreas de risco, planejamento urbano, desastres naturais, cidades brasileiras, clima e urbanismo, habitação e risco