
Cascas de laranja despejadas em área degradada ajudaram a regenerar floresta tropical na Costa Rica, segundo pesquisa de Princeton | Foto: Reuters
29 de agosto de 2026 – O que parecia apenas descarte de resíduos agrícolas se transformou em um caso surpreendente de recuperação ambiental.
Em meados dos anos 1990, cerca de mil caminhões despejaram cascas de laranja em uma área degradada de um parque nacional na Costa Rica.
Anos depois, pesquisadores da Universidade de Princeton identificaram que a ação ajudou a recuperar o solo, aumentar a biomassa vegetal e ampliar o sequestro de carbono sem custos adicionais.
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Em 2017, uma equipe liderada por pesquisadores de Princeton analisou a área 16 anos após o depósito das cascas de laranja.
O estudo apontou aumento de 176% na biomassa acima do solo, formada principalmente pela madeira das árvores.
Os pesquisadores também observaram melhora na qualidade do solo e crescimento expressivo da cobertura vegetal na região estudada.
A proposta surgiu a partir do trabalho dos ecologistas Daniel Janzen e Winnie Hallwachs, ambos formados em Princeton em 1976.
O casal atuou por muitos anos como pesquisador e consultor técnico na Área de Conservação Guanacaste (ACG), na Costa Rica.
Em 1997, eles apresentaram uma proposta à Del Oro, fabricante de suco de laranja que havia iniciado operações na fronteira norte da área de conservação.
A ideia era simples: se a empresa doasse parte de suas terras florestais ao parque, poderia depositar resíduos de laranja para biodegradação, sem custo, em terrenos degradados.
Um ano depois da assinatura do contrato, uma empresa concorrente processou a Del Oro sob a acusação de “danificar um parque nacional”.
A concorrente venceu o processo, e a área onde as cascas haviam sido depositadas acabou sendo ignorada por cerca de 15 anos.
Durante esse período, o local permaneceu praticamente sem interferência humana.
Quando os pesquisadores retornaram ao local, encontraram uma transformação inesperada.
Timothy Treuer, coautor principal do estudo, afirmou que ficou surpreso ao visitar a área pela primeira vez depois de tantos anos.
“Estava tão completamente tomado por árvores e trepadeiras que eu nem conseguia ver a placa de 2 metros de comprimento com letras amarelas brilhantes que indicava o local, a poucos metros da estrada”, disse Timothy Treuer.
Jonathan Choi, que também colaborou com o estudo e transformou a pesquisa em sua tese de conclusão de curso, relatou a dificuldade para se deslocar na área.
Segundo ele, foi preciso “escalar a vegetação rasteira e abrir caminho através de paredes de trepadeiras” para conseguir caminhar pelo terreno.
A equipe avaliou dois conjuntos de amostras de solo para verificar se as cascas de laranja haviam enriquecido os nutrientes da área.
O primeiro conjunto foi coletado e analisado no ano 2000 pela coautora Laura Shanks, do Beloit College.
O segundo conjunto foi coletado em 2014 por Jonathan Choi.
Os dados de Laura Shanks ainda não haviam sido publicados, por isso foram combinados com a análise de Choi para compor o estudo.
As amostras foram avaliadas por métodos diferentes, mas comparáveis.
Os resultados mostraram diferença expressiva entre as áreas que receberam cascas de laranja e as que não receberam o material orgânico.
A área fertilizada com resíduos agrícolas apresentou solo mais rico, maior biomassa arbórea, maior diversidade de espécies de árvores e maior cobertura do dossel florestal.
A conclusão dos pesquisadores foi que o uso dos resíduos ajudou a acelerar a regeneração da vegetação em uma área antes degradada.
Além da recuperação do solo, o estudo apontou aumento no sequestro de carbono.
Esse processo ocorre quando a vegetação absorve dióxido de carbono da atmosfera e armazena carbono em troncos, galhos, raízes e no solo.
No caso da Costa Rica, a regeneração promovida pelas cascas de laranja indica que resíduos agrícolas podem ter papel importante em estratégias de restauração ambiental.
O caso mostra como soluções simples, quando bem planejadas e acompanhadas por critérios técnicos, podem contribuir para a recuperação de ecossistemas degradados.
A experiência também reforça a importância de integrar produção agrícola, conservação ambiental e pesquisa científica.
Para os pesquisadores, a transformação da área na Costa Rica abre caminho para novos estudos sobre o uso de resíduos orgânicos na restauração de florestas tropicais.
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