

Megaoperação Contenção mobilizou cerca de 2.500 policiais civis e militares nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025. Um ano depois, levantamento aponta 33 alvos ainda foragidos e redução nos registros de tiroteios, enquanto especialistas questionam os resultados da ação no combate ao crime organizado | Foto: José Lucena/TheNewsS2/Estadão Conteúdo
28 de outubro de 2026 – Um ano após a Megaoperação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, pelo menos 33 alvos de mandados de prisão continuam foragidos. A ação policial, realizada em 28 de outubro de 2025, deixou 122 mortos, incluindo cinco agentes de segurança, e mobilizou aproximadamente 2.500 policiais civis e militares.
Entre os procurados estão lideranças do Comando Vermelho (CV), como Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, além de integrantes identificados como Gardenal e Pedro Bala. Segundo levantamento do g1, os três continuam vivendo na região da Penha.
Apesar da redução nos registros de tiroteios e mortes violentas em períodos posteriores à operação, especialistas ouvidos pela reportagem alertam que os indicadores não comprovam o enfraquecimento da facção criminosa nem a perda de seu controle territorial.
Moradores, autoridades e pesquisadores também relataram que a rotina das comunidades permanece marcada pela presença do crime organizado.
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A Megaoperação Contenção foi realizada em 28 de outubro de 2025, com o objetivo de cumprir mandados judiciais contra integrantes do Comando Vermelho, incluindo lideranças apontadas como responsáveis pela atuação da organização em diferentes regiões do estado.
A ofensiva envolveu aproximadamente 2.500 agentes das polícias Civil e Militar e terminou com 122 mortes, entre elas as de cinco profissionais de segurança.
Após a operação, moradores relataram ter encontrado dezenas de corpos em uma área de mata. Os cadáveres foram transportados durante a madrugada para a Praça São Lucas, localizada na Estrada José Rucas, uma das principais vias da região.
As imagens dos corpos reunidos na praça tiveram repercussão nacional e internacional, provocando debates sobre a atuação das forças de segurança e a letalidade da operação.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e outras entidades se manifestaram contrariamente à ação em razão do elevado número de mortes.
Por outro lado, uma pesquisa Quaest divulgada menos de um mês após a operação apontou que 67% dos brasileiros aprovavam a iniciativa policial, enquanto 25% desaprovavam.
Antes da operação, o Ministério Público denunciou 69 suspeitos de envolvimento com a organização criminosa.
A Justiça aceitou a denúncia e determinou a prisão de 51 investigados. Também foram expedidos mandados de busca e apreensão para 145 endereços relacionados a 54 denunciados.
No dia da ação, 99 pessoas foram presas. Desse total, 17 eram alvos de mandados judiciais e outras 82 foram detidas em flagrante.
Um dos investigados com ordem de prisão, Ygor Freitas de Andrade, conhecido como Matuê e apontado como chefe do tráfico na Gardênia Azul, morreu antes da operação.
Passados 12 meses, 33 dos alvos permanecem foragidos.
Entre eles está Edgar Alves de Andrade, o Doca ou Urso, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho.
As informações constam de relatórios elaborados pelo governo do Rio de Janeiro com dados da Polícia Civil e encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF), como parte da prestação de contas sobre os resultados da operação.
Segundo apuração do g1, Doca e outros integrantes importantes da facção, como Gardenal e Pedro Bala, continuam vivendo no Complexo da Penha.
Dados do Instituto Fogo Cruzado mostram redução nos registros de confrontos armados nos complexos da Penha e do Alemão após a megaoperação.
Nos 12 meses anteriores à ação policial, foram contabilizados 41 tiroteios, que deixaram 12 mortos e 17 feridos.
Nos 11 meses e 15 dias seguintes, o instituto registrou 16 tiroteios, com uma pessoa morta e outra ferida.
A redução no número absoluto de ocorrências foi de aproximadamente 61%, embora os períodos analisados tenham durações ligeiramente diferentes.
Dos 41 tiroteios registrados anteriormente, 33 ocorreram durante ações ou operações policiais.
No período posterior, quatro dos 16 confrontos aconteceram durante ações policiais, sendo um classificado especificamente como operação.

O levantamento do Instituto Fogo Cruzado identificou redução de 60% na quantidade de operações policiais em dois períodos equivalentes de seis meses.
Entre abril e setembro de 2025, foram registradas cinco operações: três na Penha e duas no Alemão. Nenhuma terminou com mortos ou feridos, segundo o instituto.
Já entre novembro de 2025 e abril de 2026, ocorreram duas operações, ambas no Complexo da Penha.
Os números indicam diminuição da atividade policial na região durante os intervalos analisados, mas não permitem concluir, isoladamente, que houve redução da presença ou da capacidade de atuação das organizações criminosas.
Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ) apontam redução de indicadores de violência na área da 22ª Circunscrição Integrada de Segurança Pública (CISP), correspondente à região atendida pela 22ª Delegacia de Polícia.
O território analisado é mais amplo que os complexos da Penha e do Alemão, abrangendo também áreas de Brás de Pina, Olaria, Penha e Penha Circular.
A comparação considera os períodos de novembro de 2024 a setembro de 2025 e de novembro de 2025 a setembro de 2026. O mês de outubro de 2025 foi excluído devido ao impacto excepcional da megaoperação nos indicadores.
| Indicador | Antes | Depois | Variação |
|---|---|---|---|
| Letalidade violenta | 71 | 55 | -23% |
| Homicídios | 39 | 34 | -13% |
| Mortes por intervenção de agentes do Estado | 7 | 6 | -14% |
| Prisões por tráfico de drogas | 28 | 24 | -14% |
A categoria de letalidade violenta inclui homicídios e mortes decorrentes de intervenção policial. Portanto, esses indicadores não devem ser somados, pois representam categorias que se sobrepõem.
A Secretaria de Segurança Pública e as polícias Civil e Militar não forneceram dados específicos sobre ocupação policial, controle das comunidades, barricadas ou presença de homens armados na região.
Para a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), não é possível atribuir diretamente à megaoperação a redução dos indicadores de violência.
A especialista lembra que o objetivo imediato da ofensiva era cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho.
Segundo ela, a avaliação dos resultados também precisa considerar a atuação da facção em outras regiões do estado, e não apenas os registros criminais das comunidades onde a operação ocorreu.
“Quando a polícia saiu, as bocas de fumo voltaram a funcionar e o território continua totalmente sob controle do Comando Vermelho. Não teve perda territorial por causa dessa operação”, afirmou Carolina Grillo.
A pesquisadora considera insuficiente utilizar exclusivamente os números de tiroteios e mortes para medir o impacto da ação sobre a estrutura da organização criminosa.
O analista de segurança Alessandro Visacro também avalia que operações dessa dimensão precisam integrar uma estratégia contínua de enfrentamento às organizações criminosas.
Segundo ele, o problema não se limita ao tráfico de drogas, mas envolve o domínio armado de territórios e a exploração econômica das comunidades.
“O grande problema do Rio, que é peculiar, é o controle territorial armado e a defesa exercida por grupos criminosos, e isso permite a exploração do território. A principal fonte de receita desses criminosos é a exploração, não é mais o tráfico de drogas”, explicou.
Durante a Megaoperação Contenção, foram apreendidas 122 armas de fogo, incluindo 96 fuzis de diversos calibres, 25 pistolas e um revólver.
Também foram recolhidos carregadores, munições e 12 artefatos explosivos. O prejuízo estimado ao Comando Vermelho com a apreensão do armamento foi de aproximadamente R$ 12 milhões.
Para Visacro, a quantidade e o tipo das armas apreendidas demonstram o poder de fogo das facções e a necessidade de medidas que atinjam suas estruturas financeiras e operacionais.
“As iniciativas são importantes, necessárias, mas sozinhas não surtem efeito. O arsenal do crime é impressionante. Se você pensar na megaoperação, podemos dizer que tivemos quase o mesmo número de mortos e fuzis apreendidos, ou seja, quase um fuzil por pessoa. Isso corresponde a quanto do arsenal do crime?”, questionou.
O especialista também destacou o emprego de granadas, explosivos, rádios e drones como demonstração da estrutura militarizada das organizações criminosas.
Segundo ele, o enfrentamento precisa alcançar não apenas os integrantes armados, mas também os recursos que sustentam o controle territorial.
“Ao longo dos anos, tivemos uma sucessão de oportunidades perdidas: invasão do Alemão, UPP, Olimpíada. O que a megaoperação trouxe de oportunidade? Ela serviu para mostrar o nível de degradação da segurança pública. É a realidade escancarada na nossa cara”, declarou Visacro.
Os efeitos da violência sobre a população também aparecem nos dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.
No Complexo do Alemão, aumentou o número de unidades municipais que precisaram interromper as atividades pelo menos uma vez em consequência de operações policiais ou confrontos armados.
Entre outubro de 2024 e setembro de 2025, 25 escolas foram afetadas. No período seguinte, de outubro de 2025 a setembro de 2026, o total subiu para 29 unidades, representando crescimento de 16%.
No Complexo da Penha, o número permaneceu estável: 16 escolas tiveram as atividades interrompidas ao menos uma vez em cada um dos períodos analisados.
O levantamento considera a quantidade de unidades afetadas, e não o total de dias sem aulas ou de estudantes prejudicados.
Os dados demonstram que episódios de violência continuam interferindo no funcionamento das escolas, mesmo após a megaoperação.
A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) informou que o impacto da violência nas escolas estaduais depende das características de cada ocorrência, podendo atingir um ou mais turnos.
Segundo a pasta, as unidades são orientadas a realizar a reposição dos conteúdos pedagógicos, buscando evitar prejuízos à aprendizagem.
A rede estadual também segue protocolos de Comunicação e Proteção de Unidades Escolares estabelecidos com o Ministério Público.
Além disso, mantém diálogo permanente com as polícias Militar e Civil e utiliza a metodologia do programa Acesso Mais Seguro, desenvolvida em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Nesta quarta-feira (28), a 3ª Defensoria Pública do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro divulgou um relatório com resultados da análise de imagens de câmeras corporais utilizadas por policiais durante a Megaoperação Contenção.
O documento aponta possíveis excessos e violações praticadas durante a ação nos complexos da Penha e do Alemão.
Entre as situações identificadas na análise estão denúncias de tortura, agressões e ameaças de morte.
O relatório também descreve imagens que, segundo a Defensoria, mostram sufocamento com pano ensanguentado, aplicação de choques elétricos em civis, ameaças de execução, destruição de provas por policiais e intimidação de moradores.
As conclusões apresentadas pelo órgão reforçam os questionamentos sobre a execução da operação e a necessidade de apuração das condutas registradas.
Um ano depois da ação que deixou 122 mortos, os levantamentos apontam redução em determinados indicadores de violência, mas também revelam que lideranças procuradas continuam foragidas, a presença territorial do Comando Vermelho permanece sob questionamento e moradores ainda enfrentam os efeitos da insegurança.
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