

Implantes hormonais são alvo de debate por riscos à saúde e lacunas na regulamentação no Brasil. | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
06 de maio de 2026 – Mesmo após restrições sanitárias, implantes hormonais com potencial anabolizante continuam sendo ofertados no Brasil por meio de uma brecha regulatória que vem sendo explorada por médicos, clínicas e farmácias de manipulação. A prática é alvo de investigações do Ministério Público e de alertas do Conselho Federal de Medicina (CFM), que aponta possíveis infrações éticas.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe o uso de hormônios como gestrinona, oxandrolona e testosterona para fins estéticos. No entanto, esses implantes seguem sendo prescritos sob a justificativa de tratamento para doenças como endometriose, síndrome dos ovários policísticos (SOP), lipedema e sintomas da menopausa — mesmo sem comprovação científica robusta de eficácia nessas indicações.
O mercado é altamente lucrativo. Implantes adquiridos por cerca de R$ 200 são revendidos por valores que podem chegar a R$ 12 mil. Além disso, há indícios de um modelo que integra prescrição, cursos de capacitação e venda dos produtos, criando um sistema que beneficia financeiramente os próprios profissionais envolvidos.
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A base do funcionamento desse mercado está na legislação que permite a manipulação de medicamentos a partir de substâncias autorizadas pela Anvisa. No entanto, a norma não especifica a forma de administração, o que abre espaço para o uso em implantes subcutâneos.
Em 2024, a Anvisa chegou a proibir totalmente esses produtos, mas recuou meses depois, mantendo apenas a vedação para fins estéticos. A mudança permitiu que o setor se reorganizasse, reposicionando os implantes como tratamentos médicos.
Embora a legislação determine que farmácias de manipulação produzam medicamentos sob prescrição individual, documentos indicam fabricação em larga escala, o que é irregular. Há registros de lotes com centenas de implantes padronizados.
O Ministério Público já acionou a Justiça contra empresas do setor por supostas irregularidades, incluindo manipulação sem prescrição adequada.
O Conselho Federal de Medicina alerta para possíveis conflitos de interesse no modelo de negócio. Segundo o conselheiro Bruno Leandro de Souza, a relação entre médicos prescritores, cursos e farmácias pode ferir o Código de Ética Médica.
“Existe um potencial conflito de interesse que deve ser investigado. Estamos vendo o médico induzindo o paciente a utilizar um produto de uma farmácia à qual ele pode estar vinculado”, afirmou.
O CFM também destaca que a prescrição de hormônios com fins estéticos ou anabolizantes pode configurar infração ética.
A investigação aponta que mulheres são o público mais impactado. Nas redes sociais, médicos associam sintomas diversos à suposta deficiência hormonal, oferecendo implantes como solução para libido, estética e bem-estar.
Especialistas criticam a abordagem. “Esse tipo de prática pode reduzir questões complexas da saúde feminina a soluções simplistas e sem respaldo científico”, avaliam entidades médicas.
Um dos casos analisados pela reportagem envolve uma paciente que sofreu complicações graves após implante hormonal. A Justiça reconheceu o nexo entre o procedimento e o problema de saúde, determinando indenização.
A paciente relatou que não foi informada sobre os riscos. “Em nenhum momento me disseram que eram hormônios anabolizantes”, afirmou.
Entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) classificam o cenário como um problema de saúde pública e pedem regras mais rígidas.
Segundo especialistas, os implantes não possuem bula, dados consistentes de segurança e podem causar efeitos graves como infarto, AVC e trombose.
“O maior problema é que, uma vez implantado, não é possível interromper imediatamente o efeito do hormônio”, alertam médicos.
Matéria excusiva de Poliana Casemiro, Talyta Vespa, g1
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Tags: implantes hormonais, anabolizantes, saúde pública, Anvisa, CFM, ética médica, hormônios, mercado farmacêutico, investigação, medicina, mulheres, menopausa, Portal Terra Da Luz