

China quer ampliar a produção interna de alimentos e reduzir dependência de importações, exigindo adaptação do agronegócio brasileiro | Foto: Shutterstock
15 de agosto de 2026 – A China quer produzir mais alimentos internamente e reduzir a dependência das importações. A estratégia foi reforçada no 15º Plano Quinquenal do país asiático, que estabelece metas de segurança alimentar para o período de 2026 a 2030.
O plano prevê ampliar a produção de grãos, investir mais em tecnologia e elevar a autossuficiência em alimentos como carne bovina, carne ovina e leite.
A mudança acende um alerta para o agronegócio brasileiro, já que o Brasil é hoje um dos principais fornecedores de soja, milho e carne para o mercado chinês.
A política chinesa de segurança alimentar é resumida em uma frase repetida há mais de uma década pelo presidente Xi Jinping.
“A tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa”, afirmou o líder chinês.
A ideia central é reduzir vulnerabilidades externas e fortalecer a produção doméstica de alimentos considerados estratégicos.
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O Plano Quinquenal chinês prevê elevar a capacidade de produção anual de grãos para 725 milhões de toneladas até 2030.
No ano passado, a China colheu pouco menos de 715 milhões de toneladas.
O documento também estabelece aumento da contribuição da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento agrícola, de 64% para 67%.
Outra meta é reduzir a participação do farelo de soja na ração animal, de cerca de 14% para menos de 10% até 2030.
O país também pretende produzir internamente ao menos 95% dos grãos básicos, como arroz e trigo, além de alcançar 85% de autossuficiência em carne bovina e ovina e 70% em leite.
Apesar da estratégia chinesa, especialistas avaliam que não há expectativa de ruptura comercial com o Brasil.
O país asiático ainda depende do exterior para produtos como soja e carne, justamente áreas em que o agronegócio brasileiro tem forte presença.
No ano passado, a China importou quase 112 milhões de toneladas de soja, e mais de 70% desse volume teve origem no Brasil.
A produção chinesa responde por apenas cerca de 20% da demanda interna do país.
Para Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China, o novo cenário exige adaptação das empresas brasileiras.
“O jogo dos próximos anos não é vender mais tonelada, é vender a melhor tonelada. Isso significa agregar valor, sair da commodity pura para corte premium, produto processado e marca. E diversificar destinos, para não ficar refém de um comprador só”, afirma Theo Paul Santana.
Segundo ele, o Brasil continuará relevante para o abastecimento chinês por limitações estruturais da própria China.
“Continuaremos importantes por um motivo que a própria China reconhece: ela pode fazer maravilhas em engenharia, mas ainda não dá para inventar terra e água”, acrescenta.
Embora tenha território maior que o Brasil, a China possui uma parcela limitada de terras aptas à agricultura.
Grande parte do país é formada por regiões montanhosas, áridas ou desérticas.
Além disso, a China concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta.
Por isso, os avanços previstos no plano chinês devem ocorrer principalmente pelo aumento da produtividade, com mais tecnologia, melhoramento genético de sementes e uso de maquinário avançado.
Para Larissa Wachholz, ex-assessora especial do Ministério da Agricultura e sócia da Vallya Associados, a China ainda está distante de se tornar totalmente autossuficiente.
Mesmo assim, ela afirma que o país tem capacidade de alcançar resultados consistentes quando define prioridades estratégicas.
“Acompanho a política pública chinesa há anos e vejo que, quando a China se compromete a fazer algo e coloca seus esforços de tecnologia, educação e recurso financeiro em prol disso, ela consegue ter resultado consistente”, diz Larissa Wachholz.
Alguns efeitos da nova estratégia chinesa já aparecem no agronegócio brasileiro.
No mercado de milho, o Brasil sentiu queda nas exportações para a China após uma safra recorde no país asiático.
As importações chinesas do cereal recuaram de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões em 2025.
Como resultado, o valor das exportações brasileiras de milho para a China caiu 20,8% no ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura.
Outro reflexo ocorreu no mercado de carne bovina.
Em janeiro, a China estabeleceu uma sobretaxa de 55% sobre as importações de carne brasileira que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas.
Segundo levantamento do consultor Fernando Enrique Iglesias, da Safras & Mercado, esse limite já havia sido atingido em julho.
Para Theo Santana, a medida busca proteger a produção local, mas não elimina a dependência chinesa da carne importada.
“A cota nasceu de uma investigação de salvaguarda, e o próprio Ministério do Comércio chinês foi explícito ao justificá-la: a carne importada estava prejudicando a indústria doméstica, e a medida serviria para estabilizar o rebanho e dar tempo aos produtores chineses de se reorganizar”, afirma Santana.
O especialista avalia que a política chinesa tem limites.
“A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina e consome perto de 11 ou 12 milhões. Esse buraco é estrutural, e a OCDE projeta que ele chegue perto de 4 milhões de toneladas por ano até 2032”, diz.
Para ele, as cotas administram o ritmo das importações, mas não fecham o mercado.
“Ou seja, a cota administra o ritmo da importação e protege o pecuarista local, mas não elimina a dependência. É um escudo temporário, não uma porta que fecha”, resume.
Uma das principais saídas para o Brasil é diversificar destinos de exportação.
Segundo Theo Santana, o país abriu mais de 200 novos mercados em 2025, sendo quase 20 deles para carne bovina.
Ainda assim, substituir parte do mercado chinês não será simples, já que a China compra metade de tudo o que o Brasil exporta de carne bovina.
A adaptação também passa por agregar valor aos produtos, desenvolver marcas, ampliar vendas de cortes premium e investir em produtos processados.
Outra frente apontada por especialistas é ampliar a presença de empresas brasileiras na China.
Para Larissa Wachholz, a presença do setor privado brasileiro no país asiático ainda está abaixo da importância que esse mercado tem para o agronegócio nacional.
Estar mais próximo do mercado chinês permitiria acompanhar mudanças regulatórias, tecnológicas e comerciais com mais agilidade.
O Brasil também pode criar oportunidades em setores de maior valor agregado.
Entre eles estão os combustíveis sustentáveis para aviação, conhecidos como SAF, e combustíveis para transporte marítimo.
Esses mercados devem ampliar a demanda por matérias-primas agrícolas nos próximos anos.
Nesse cenário, soja e milho podem ganhar novos usos, reduzindo a dependência da exportação de grãos em estado bruto.
Apesar dos desafios, especialistas reforçam que a nova estratégia chinesa está longe de provocar ruptura entre os dois países.
Para Theo Santana, os investimentos chineses em logística no Brasil mostram que a relação segue estratégica.
“Tem um sinal que vale mais que discurso: os chineses estão investindo no Brasil para garantir abastecimento de alimentos. A COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, comprou locomotivas e vagões, e há um memorando para estudar a ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico”, diz.
“Ninguém investe em logística de longo prazo num fornecedor que pretende abandonar. O comércio agrícola entre os dois países já bate a casa dos US$ 100 bilhões por ano. O que muda é a exigência, não a importância”, conclui Theo Santana.
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