

Canetas anunciadas ilegalmente como retatrutida preocupam autoridades sanitárias e especialistas, que alertam para a falta de controle sobre a composição, a origem, a dosagem e as condições de fabricação dos produtos | Foto: reprodução/TV Globo
25 de julho de 2026 – A retatrutida, substância experimental apontada como uma possível nova geração de medicamentos contra a obesidade e o diabetes tipo 2, já está sendo comercializada ilegalmente no Brasil, apesar de não ter sido aprovada por nenhuma agência sanitária do mundo.
Atualmente, a única forma legal de uma pessoa receber doses da molécula é por meio da participação em estudos clínicos conduzidos pela Eli Lilly, farmacêutica responsável pelo desenvolvimento do medicamento. Ainda não existe venda autorizada, bula aprovada ou registro sanitário da retatrutida.
Mesmo assim, produtos anunciados com o nome da substância circulam em sites, redes sociais e rotas clandestinas de entrada no Brasil. As apreensões realizadas pela Receita Federal e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), especialmente na fronteira de Foz do Iguaçu, cresceram de forma expressiva.
Somente nos três primeiros meses de 2026, o valor dos medicamentos irregulares apreendidos ultrapassou R$ 11 milhões, montante superior ao registrado durante todo o ano de 2025.
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A Anvisa reforçou que a retatrutida permanece em fase de desenvolvimento clínico e que ainda não foi apresentado pedido de registro da substância no Brasil ou em qualquer outro país.
Antes de solicitar a aprovação de um medicamento, a fabricante precisa concluir estudos capazes de identificar a dose com melhor relação entre benefícios e riscos, os possíveis efeitos adversos, as contraindicações, as interações com outros medicamentos e a duração dos resultados obtidos.
As autoridades reguladoras também precisam avaliar a composição do produto, os processos de fabricação, as condições das plantas industriais e os mecanismos de controle de qualidade.
Em nota, a Eli Lilly confirmou que a retatrutida está na fase 3 dos estudos clínicos e que “ainda não foi avaliada ou aprovada por nenhuma autoridade regulatória no mundo”.
A empresa acrescentou que, diante dessa situação, “ninguém pode comercializar o produto”. A farmacêutica também considera prematuro prever quando a molécula poderá ser submetida à análise regulatória ou disponibilizada ao mercado.
A retatrutida pertence à mesma família de medicamentos que inclui a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, e a tirzepatida, utilizada no Mounjaro.
A diferença está no mecanismo de ação. A semaglutida atua principalmente sobre o receptor do hormônio GLP-1, enquanto a tirzepatida combina os efeitos do GLP-1 e do GIP. A retatrutida age simultaneamente sobre três receptores: GLP-1, GIP e glucagon.
Os hormônios GLP-1 e GIP são liberados pelo intestino após a alimentação e ajudam a transmitir ao cérebro a sensação de saciedade, além de auxiliarem o pâncreas no controle da insulina.
O glucagon, por sua vez, pode estimular o organismo a aumentar o gasto de energia, inclusive durante períodos de repouso. A expectativa dos pesquisadores é de que a ação tripla amplie a perda de peso e proporcione benefícios metabólicos adicionais.
O estudo de fase 3 TRIUMPH-1 acompanhou mais de 2,3 mil adultos com obesidade ou sobrepeso associado a alguma comorbidade. Entre os participantes que receberam a dose mais elevada, de 12 miligramas, a perda média de peso chegou a 28,3% ao longo de 80 semanas.
A redução média foi equivalente a até 31,9 quilos. Quase metade dos participantes perdeu pelo menos 30% do peso corporal inicial, percentual próximo aos resultados observados em algumas cirurgias bariátricas.
Cerca de 65% dos voluntários deixaram de se enquadrar no diagnóstico de obesidade pelo Índice de Massa Corporal (IMC) ao final do período analisado.
Em uma extensão de 104 semanas, pacientes com quadros mais graves de obesidade registraram perda média de 38,5 quilos.
Outro estudo, realizado com 930 adultos com diabetes tipo 2, apontou redução significativa do peso e melhora no controle da glicose. A pesquisa também registrou diminuição da gravidade da apneia do sono, das dores relacionadas à osteoartrite no joelho e de indicadores associados ao risco cardiovascular.
Apesar dos resultados considerados promissores, os estudos também identificaram efeitos adversos, principalmente problemas gastrointestinais, como náuseas, diarreia, constipação e vômitos.
A taxa de abandono do tratamento aumentou conforme a elevação da dose. Entre os participantes que utilizaram 4 miligramas, 4,1% deixaram o estudo. O índice subiu para 6,9% entre os que receberam 9 miligramas e chegou a 11,3% no grupo tratado com 12 miligramas.
Também foram observadas alterações sensoriais leves e maior incidência de infecções urinárias em parte dos pacientes. Os eventos foram classificados pela fabricante como leves ou moderados.
O acompanhamento dos voluntários é fundamental para identificar efeitos raros, riscos de longo prazo e grupos de pacientes que não devem utilizar o medicamento.
Um dos principais perigos da venda ilegal é a impossibilidade de confirmar o conteúdo das canetas comercializadas como retatrutida. Fora dos estudos clínicos oficiais, a substância ainda não é fabricada industrialmente para venda em nenhum país.
O diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, alerta que a primeira dúvida está relacionada à origem e à composição dos produtos.
Segundo o médico, os riscos incluem contaminação bacteriana, presença de substâncias desconhecidas, falhas de esterilização e reações imunológicas provocadas pela molécula.
“Existe a síndrome de Stevens-Johnson, que faz uma reação cutânea grave, descamativa, que pode acontecer por causa de medicamentos”, afirmou Macedo.
O especialista também chama atenção para a conservação térmica. Sem refrigeração adequada, componentes do produto podem se modificar e provocar reações alérgicas, inflamações locais ou danos a órgãos como fígado, coração e cérebro.
Macedo considera especialmente preocupante a utilização de insumos farmacêuticos produzidos por empresas sem controle regulatório ou fora das exigências de patente e qualidade.
“É um absurdo, porque é uma medicação com potencial absurdo e é a bola da vez”, declarou o endocrinologista.
O coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da SBEM, Fernando Valente, destaca que nem mesmo o laboratório responsável pela patente lançou comercialmente a substância.
“Realmente não dá para ter ideia do que tem lá dentro dessa caneta”, afirmou.
“Não há como saber a concentração real, se há resíduos do processo de fabricação nem se a substância presente na caneta é, de fato, a retatrutida”, acrescentou Valente.
O médico também alerta para a possibilidade de mistura com semaglutida, tirzepatida, vitaminas ou outros componentes capazes de alterar a absorção do produto.
Além dos sintomas gastrointestinais, uma perda de peso acelerada pode aumentar o risco de formação de cálculos na vesícula e, consequentemente, de pancreatite.
O perigo é ampliado quando o uso ocorre sem acompanhamento médico, exames laboratoriais, avaliação da composição corporal e orientação sobre alimentação e hidratação.
A Eli Lilly classificou o mercado clandestino de medicamentos falsificados para obesidade como “criminoso e perigoso” e recomendou que os pacientes evitem esses produtos.
Segundo a empresa, os consumidores “não têm qualquer garantia sobre o que esses produtos contêm ou sobre as condições de segurança em que foram fabricados”.
A fabricante informou já ter identificado contaminação bacteriana, endotoxinas e outras impurezas em medicamentos falsificados voltados ao tratamento da obesidade.
A empresa também afirmou que problemas relacionados à segurança, esterilidade e eficácia desses produtos vêm sendo amplamente registrados.
A orientação é de que medicamentos sejam adquiridos exclusivamente em farmácias licenciadas e após avaliação de um profissional de saúde.
O Paraguai aparece como uma das principais origens dos medicamentos clandestinos da classe GLP-1 que chegam ao Brasil. A Receita Federal e a Anvisa realizam apreensões frequentes na região de fronteira com Foz do Iguaçu.
Em março de 2026, antes da divulgação de resultados consolidados dos estudos clínicos, uma empresa paraguaia promoveu um evento com influenciadores brasileiros para divulgar a fabricação de canetas anunciadas como produzidas à base de retatrutida.
A Anvisa reforça que a compra e o uso de medicamentos sem registro representam riscos à saúde. A comercialização de produtos irregulares também pode configurar crime sanitário.
Para pessoas que procuram tratamento contra obesidade ou diabetes tipo 2, a recomendação das autoridades sanitárias e da Eli Lilly é não comprar ou utilizar produtos apresentados como retatrutida fora dos estudos clínicos autorizados.
Medicamentos com semaglutida ou tirzepatida já possuem versões aprovadas e registradas no Brasil, mas também devem ser utilizados somente após avaliação médica.
A escolha do tratamento depende do histórico de saúde do paciente, das doenças associadas, dos medicamentos já utilizados e dos riscos individuais.
A Eli Lilly ainda não informou quando concluirá o programa de estudos da retatrutida ou quando apresentará pedidos de registro às autoridades sanitárias.
Até que todas as etapas científicas e regulatórias sejam concluídas, qualquer produto comercializado como retatrutida permanece sem garantia de origem, concentração, eficácia ou segurança.
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