

Resultado da avaliação nacional dos estudantes de medicina reacende debate sobre qualidade da formação médica no Brasil | Foto: reprodução
21 de janeiro de 2026 — O Conselho Federal de Medicina (CFM) estuda adotar uma medida que pode impedir cerca de 13 mil estudantes de Medicina, prestes a se formar, de obter o registro profissional e atuar imediatamente na área. A proposta atinge alunos que não alcançaram a nota mínima no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicado em todo o país.
O Enamed é uma prova anual que avalia o desempenho dos estudantes e a qualidade dos cursos de Medicina. Na última edição, 351 cursos foram analisados e aproximadamente 30% ficaram na faixa considerada insatisfatória. Entre os alunos do último semestre, três em cada dez não atingiram o desempenho mínimo exigido, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
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De acordo com o CFM, os resultados acendem um alerta sobre a qualidade da formação médica e os riscos à segurança da população. Diante desse cenário, o conselho pretende publicar uma resolução que impeça a concessão do registro profissional a formandos com desempenho classificado nos níveis 1 e 2 do Enamed.
“Já encaminhamos para o jurídico uma proposta de resolução para que esses alunos prestes a se formarem e que tiveram desempenho 1 e 2 não consigam o registro. É muito tenebroso colocar pessoas que não têm qualificação para atender”, afirmou o presidente do CFM, José Hiran Gallo.
O conselho também solicitou ao Ministério da Educação o acesso aos dados detalhados dos estudantes avaliados, incluindo nomes e desempenho individual.
Atualmente, a legislação garante que todo estudante de Medicina, ao concluir o curso em instituição reconhecida pelo MEC, tenha direito automático ao registro profissional, sem a exigência de avaliação adicional. Para especialistas em direito médico, esse ponto pode gerar disputas judiciais caso o CFM avance com a resolução.
Segundo a advogada Samantha Takahashi, especialista em direito médico, não há respaldo legal para que o conselho crie exigências além daquelas previstas em lei. “No sistema atual, não existe brecha para que o conselho impeça que médicos diplomados obtenham o registro”, afirmou.
Já o advogado Henderson Furst, especialista em Saúde, concorda que a legislação não prevê esse tipo de restrição, mas avalia que o Judiciário pode interpretar a medida como uma forma de proteção à saúde pública. Para ele, a falta de uma lei específica cria uma lacuna que pode favorecer decisões provisórias em favor do CFM.
A discussão sobre a criação de um exame obrigatório para médicos formados avança no Congresso Nacional. Dois projetos tratam do tema: um no Senado Federal e outro na Câmara dos Deputados, inspirados no modelo do exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
No Senado, a proposta prevê a aplicação de um exame de proficiência como pré-requisito para o exercício da Medicina, além de instrumentos para acompanhamento da formação, como a aplicação do Enamed no 4º ano do curso, ampliação das vagas de residência médica e centralização da autorização de cursos pela União. O texto já foi aprovado na Comissão de Assuntos Sociais e aguarda nova votação.
Na Câmara, o projeto estabelece o exame como requisito para o registro nos Conselhos Regionais de Medicina. A proposta tramita em regime de urgência e prevê avaliações seriadas do 3º ao 6º ano, com exigência de aproveitamento mínimo de 60% e possibilidade de provas de repescagem.
O balanço mais recente do Enamed apontou que mais de 100 cursos de Medicina tiveram desempenho insatisfatório. Ao todo, 24 cursos receberam conceito 1, o mais baixo da avaliação, e 83 obtiveram conceito 2. Essas instituições poderão sofrer sanções, como restrição ao acesso ao Fies e suspensão da abertura de novas vagas.
Segundo o Inep, cerca de 89 mil estudantes participaram da avaliação, incluindo formandos e alunos de outros períodos do curso.
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Tags: CFM, Conselho Federal de Medicina, Enamed, exame nacional de Medicina, formação médica, registro profissional, médicos recém-formados, qualidade do ensino, saúde pública, cursos de Medicina, Inep, MEC, exame de proficiência médica, Congresso Nacional, judicialização da saúde, Portal Terra Da Luz