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Opinião: O Brasil e o mundo para 2026: ordem global e caos interno Por Ives Gandra da Silva Martins, jurista

O Brasil e o mundo para 2026: ordem global e caos interno

Prisão de Nicolás Maduro, tensões geopolíticas e desequilíbrio entre Poderes colocam em xeque o Direito Internacional e o futuro econômico do Brasil | Foto: reprodução

Cenário geopolítico global e instituições brasileiras em destaque ilustram os desafios políticos, econômicos e jurídicos que marcam o início de 2026.

Iniciamos 2026 com novidades marcantes. A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro — ditador que fraudou o pleito após obter apenas um terço dos votos — gerou imediata reação mundial.

Militarmente, os EUA realizaram operação excepcional ao invadir um bunker vigiado por militares venezuelanos e cubanos para prender e extraditar Maduro. O ex-ditador está sendo julgado por crimes que incluem genocídio, assassinato, perseguição a opositores, fraude eleitoral e corrupção sistêmica.

Sob a ótica do direito internacional, a invasão de uma nação soberana é injustificável; contudo, a questão exige uma análise sob dois aspectos.

Primeiramente, deve-se considerar que a violação do princípio da inadmissibilidade da aquisição de territórios pela força — consolidado em resoluções da ONU desde 1970 — não é inédita. Precedentes na Europa, no Caribe, no Oriente Médio e na Ásia demonstram que tal norma tem sido reiteradamente ignorada. O que se observa, rigorosamente, é que o Direito Internacional carece de mecanismos coercitivos, evidenciando a incapacidade da ONU em impor a observância de suas próprias regras.

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O segundo aspecto é que, desde a declaração de guerra do Japão em Pearl Harbor, não há mais declarações de guerra oficiais.

A Rússia não se diz em guerra com a Ucrânia, mas age hoje com total autonomia e faz o que quer. Vimos a presença do presidente brasileiro em Moscou durante o desfile militar de 9 de maio — uma exibição do poder bélico que tem destruído a Ucrânia. Ao endossar tacitamente a anexação de 20% da Ucrânia, o governo brasileiro reafirma uma afinidade diplomática com regimes autoritários, evidenciando sua preferência por ditaduras como as da Venezuela, Cuba e Rússia.

Em última análise, as normas da ONU — que aspirávamos ver respeitadas — são sistematicamente ignoradas pelos países mais fortes, prevalecendo, no cenário internacional, o “direito à força” sobre a “força do direito”. Foi assim que o ditador Maduro, acusado de narcotráfico e genocídio, sustentou-se no Poder. Seu regime encarcerou, perseguiu e vitimou o povo venezuelano, culminando na audácia de celebrar uma vitória eleitoral inexistente perante uma derrota evidente. Fato é que estamos diante de um ditador afastado.

Este panorama evidencia que o projeto da ONU iniciado em 1945 está longe do ideal da paz mundial que fundamentou sua criação; em vez disso, o que testemunhamos desde o fim da Segunda Guerra é a perpetuação de guerras e conflitos regionais. Estamos distantes, portanto, do ideal kantiano da Paz Perpétua.

Permanecemos em um sistema onde a prevalência do mais forte sobre o mais fraco continua sendo regra absoluta, apesar das normas internacionais. Nesse cenário, a figura de Nicolás Maduro se destaca de forma negativa: ele não foi apenas um ditador que suprimiu liberdades, mas um populista retórico e um líder cujo governo foi marcado pela corrupção sistêmica.

O legado de Nicolás Maduro tem o signo da perseguição política e da violência do Estado, crimes pelos quais ele deverá responder perante a justiça internacional. As evidências que sustentam as acusações dos Estados Unidos são bastante robustas.

Enquanto isso, o Brasil está longe de ser exemplar. Atualmente, o País atravessa um período difícil na relação entre os Três Poderes. No campo econômico, o cenário é de alerta máximo, com as contas públicas e finanças em estado crítico. Enfrentamos um déficit público crescente e uma trajetória de endividamento preocupante.

Continuamos gastando e aumentando a tributação e, neste ano de 2026, todos vão sentir. O resultado dessa gastança é o aumento da dívida pública e dos tributos e, ao mesmo tempo, a manutenção de juros elevados para que a inflação não volte.

Temos o Congresso Nacional   — o Poder mais forte da República por representar o povo e ser o único capaz de julgar tanto o Presidente quanto os Ministros do Supremo — que, infelizmente, está utilizando um volume inacreditável de emendas no interesse individual (em causa própria dos parlamentares), e não do Brasil e dos brasileiros.

Embora o Executivo afirme que o desemprego caiu no Brasil, o jornalista Alexandre Garcia pondera que a permanência de sete milhões de famílias no Bolsa Família há uma década indica uma estagnação na busca por emprego.

Ora, o desemprego é medido pelo número de pessoas que estão procurando ocupação, algo que quem recebe o Bolsa Família e está garantido pelo programa, em geral, não faz. Portanto, não se trata de uma queda real no desemprego, mas sim de pessoas que são sustentadas por aqueles que trabalham e pagam tributos.

Temos até, como vimos nos jornais, aqueles que utilizam o Bolsa Família para apostar em bets. Pagamos para que eles joguem nessas plataformas.

Não que eu seja contra o Programa Bolsa Família, mas deveria haver um controle para evitar que, durante dez anos, sete milhões de pessoas — segundo Alexandre Garcia — recebam o benefício sem procurar emprego, obviamente.

Como têm mostrado os editoriais dos grandes jornais do País, há uma falência completa das contas públicas brasileiras. Há quem aponte o fim melancólico do ministro Fernando Haddad por não ter conseguido implementar o arcabouço fiscal que, de fato, nunca foi efetivado.

Infelizmente, até mesmo no Judiciário — onde sempre atuei — advogados ilustres de Brasília, que sempre defenderam clientes importantes, são preteridos por aqueles que possuem algum grau de parentesco com Ministros, retirando, assim, o trabalho dos advogados comuns, de acordo com os próprios patronos que militam na capital federal.

Na verdade, vivemos hoje um desequilíbrio entre os Poderes: temos um Legislativo amorfo; um Executivo que gasta o que não tem e além do que arrecada e, possivelmente, manterá essa trajetória; um Banco Central que tenta, a todo custo, conter a inflação; e um Judiciário que, como demonstram as pesquisas, perdeu a credibilidade de outrora.

Vale destacar que essa situação pela qual passa o Supremo, contrasta drasticamente com as épocas de Ministros como Moreira Alves, Oscar Corrêa, Sydney Sanches, Cordeiro Guerra, Ilmar Galvão, Luiz Gallotti e outros magistrados que fizeram a história do Supremo Tribunal Federal. Eram homens que, ao caminharem pelas ruas, impunham tal respeito que as pessoas diziam com reverência: “Lá vai um Ministro do Supremo”.

Hoje, os ministros do Supremo têm que sair com segurança, pois são injuriados em lugares públicos. Sempre os admirei e continuo admirando pelos juristas que são. Contudo, confesso que permaneço divergindo profundamente da forma como o Tribunal tem interpretado a Constituição e se posicionado no cenário atual.

Quando meu filho, Ives Gandra da Silva Martins Filho, foi indicado para Ministro do Tribunal Superior do Trabalho, não aceitei mais questões trabalhistas no escritório. A única vez em que dei um parecer trabalhista após sua posse no TST, só o fiz porque a questão já não tramitava mais naquela Corte, mas sim no Supremo Tribunal Federal. Assim, não havia o risco de meu filho sofrer o constrangimento de ter que decidir uma questão em que seu pai era o advogado. Esse é um dos velhos costumes que mantenho ao longo de mais de 60 anos de advocacia.

É por essa razão que, neste início de ano, o que eu gostaria é que todos os Poderes voltassem a ser o que eram no passado: o Legislativo, legislando e defendendo sua competência; o Executivo, sendo o administrador zeloso das contas públicas; e o Judiciário, mantendo-se como aquele poder imparcial, capaz de dar estabilidade à nação diante de ataques às instituições. Todos eles deveriam retornar à essência do que foram as funções Legislativa, Judiciária e Executiva na época em que iniciei minha trajetória na advocacia (1957).


Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para portalterradaluz.


Ives Gandra da Silva Martins | Foto: Andreia Tarelow

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O editor responsável pelo Portal Terra da Luz é o jornalista Hermann Hesse, profissional reconhecido pela atuação na imprensa cearense desde 1990. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou durante quase 20 anos na TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo, como repórter, produtor, editor, apresentador, editor-chefe do jornal mais importante e de maior audiência do Ceará, o CETV. Em 2011, assumiu a Coordenadoria de Comunicação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e, dois anos depois, foi Coordenador de Comunicação Institucional da Prefeitura de Fortaleza. Em janeiro de 2019, assumiu a direção de Jornalismo do Grupo Cidade de Comunicação, onde atuou por 2 anos e meio. No dia 12 julho de 2021 colocou no ar a primeira notícia e, desde então, é o responsável por todos os conteúdos publicados no Portal Terra da Luz. Entre agosto de 2022 e agosto de 2025 atuou, paralelamente, como diretor de Jornalismo da Band Ceará, emissora ligada diretamente à cabeça de rede, em São Paulo.

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