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Opinião: Brasil entre algoritmos e tarifas: o novo rosto do imperialismo Por Rogério Baptistini, professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)

Brasil entre algoritmos e tarifas: o novo rosto do imperialismo

Sob pressão dos Estados Unidos, país enfrenta tarifações comerciais e disputa por soberania digital em meio ao avanço das big techs no controle da informação | Foto: reprodução

23 de julho de 2025 – Enquanto o governo norte-americano impõe tarifas ao Brasil em nome de seus interesses comerciais, cresce a pressão por controle das redes sociais e do Judiciário.

Neste momento em que os Estados Unidos agem em prejuízo da soberania brasileira, utilizando tarifas comerciais como instrumento de pressão política, uma pergunta se impõe àqueles que acompanham a escalada de agressões promovidas pelo trumpismo contra seus próprios parceiros de negócios: há algo que conecta essa ressurgência das guerras comerciais à corrida imperialista do século XIX?

O cenário atual parece reforçar a ideia de que a concentração de capital e a busca por mercados continuam sendo forças estruturantes da economia global. A principal diferença, no entanto, está na forma de dominação: se antes era territorial, hoje ela se realiza no universo financeiro e digital — com protagonismo das big techs.

No campo econômico, que é o que nos interessa aqui, o imperialismo do passado representou a expansão dos interesses das grandes potências do capitalismo industrial sobre a África, a Ásia e a Oceania. O objetivo era claro: dominar mercados para escoar excedentes, controlar matérias-primas, explorar mão de obra barata e, sobretudo, investir o capital acumulado, que já não encontrava oportunidades de reprodução rápida e lucrativa nas economias centrais.

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Os avanços tecnológicos e administrativos promovidos pela Segunda Revolução Industrial agravaram a desproporção entre oferta e demanda, desafiando o otimismo da chamada Lei de Say — segundo a qual a oferta criaria sua própria demanda. Essa noção, adotada como um dos pilares do pensamento clássico, mostrou-se ineficaz diante das crises de superprodução, algo que liberais ortodoxos ainda hoje relutam em admitir.

Com os mercados saturados, o capital excedente passou a buscar oportunidades externas para garantir a própria valorização. A solução foi a extroversão: redirecionar os investimentos para territórios insuficientemente explorados. Assim, fosse na construção de infraestrutura (portos e ferrovias), na exploração de minas e plantações ou na concessão de empréstimos a governos endividados, o excesso de capital tornou-se motor da expansão imperialista.

Não por acaso, o século XIX também foi marcado por uma guerra tarifária. Qualquer estudante de História Econômica sabe que as nações industrializadas recorreram ao protecionismo para preservar seus mercados internos, ao mesmo tempo em que impunham aberturas forçadas às regiões periféricas. É nesse ponto que o passado ecoa no presente: o discurso simplista do atual presidente norte-americano, ao prometer uma nova era de prosperidade sob o lema “Make America Great Again” (MAGA), pressupõe a adoção de políticas protecionistas e o aumento das rivalidades internacionais — o que inevitavelmente eleva o risco à estabilidade global.

Pode-se dizer que o imperialismo foi um salto adiante na acumulação capitalista dos países centrais — mas à custa da exportação da crise para a periferia do mundo. Hoje, embora estejamos em uma nova fase do capitalismo, as forças históricas da reprodução do capital seguem operando. Agora, combinadas com avanços tecnológicos disruptivos, promovem uma concentração de riqueza sem precedentes e precarização do trabalho em escala global.

A demanda está em queda, a desigualdade explode nos Estados Unidos e na Europa, e a miséria — inclusive nas economias centrais — deixa de ser exceção para tornar-se tendência. Enquanto isso, o capital excedente é canalizado cada vez mais para a especulação financeira, inflando bolhas que, ao estourarem, provocam crises sistêmicas, como foi o caso da do subprime em 2008.

A guerra comercial do século XIX estava vinculada à superprodução e ao excesso de capital nos países industrializados. Hoje, embora o argumento “nacional” ainda esteja presente nos discursos oficiais dos EUA, a motivação parece mais defensiva: busca-se conter a desindustrialização, reverter a perda de empregos e reduzir o déficit comercial — especialmente com a China. As cartas públicas de Trump deixam isso claro. Ainda assim, é evidente que também há um impulso de hegemonia: manter os Estados Unidos como potência absoluta, algo que ressoa com o controle global exercido pelas big techs sobre a realidade digital.

Ao que tudo indica, não é a Justiça brasileira em si que incomoda, mas o Judiciário interferindo no funcionamento dos algoritmos — ou seja, no centro do poder simbólico e econômico da era digital.

Em um instigante livro recentemente traduzido no Brasil, o ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, sustenta que o capitalismo, ao triunfar, pode ter se autodestruído tal como o conhecíamos. Em “Tecnofeudalismo” (2023), ele propõe que estamos vivendo sob um novo regime: não mais capitalista, mas tecnofeudal. A economia já não se baseia na renda fundiária nem no lucro industrial, mas na renda das plataformas (cloud rent). O poder não está mais com os capitalistas tradicionais nem com os Estados nacionais, mas com os senhores das plataformas digitais. Estes não vendem mercadorias: alugam acesso. Não produzem, extraem. Não respondem a governos, mas ajudam a moldá-los. São a nova nobreza feudal, atuando acima das leis fiscais e nacionais, manipulando a opinião pública e contando com políticos à disposição de seus interesses disruptivos.

E é exatamente isso que estamos assistindo neste momento.


Rogério Baptistini é professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM)


*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Portal Terra da Luz. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, ou um outro artigo com suas ideias, envie sua sugestão de texto para portalterradaluz.


Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie  

Rogério Baptistini / Foto: divulgação

A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) foi eleita como a melhor instituição de educação privada do Estado de São Paulo em 2023, de acordo com o Ranking Universitário Folha 2023 (RUF). Segundo o ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking, o Guia da Faculdade Quero Educação e Estadão, é também reconhecida entre as melhores instituições de ensino da América do Sul. Com mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pela UPM contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.


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Tags: imperialismo digital, big techs, tarifas comerciais, Estados Unidos, Brasil, redes sociais, soberania digital, capitalismo, tecnofeudalismo, Yanis Varoufakis, Rogério Baptistini, Universidade Mackenzie

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O editor responsável pelo Portal Terra da Luz é o jornalista Hermann Hesse, profissional reconhecido pela atuação na imprensa cearense desde 1990. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará (UFC), atuou durante quase 20 anos na TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo, como repórter, produtor, editor, apresentador, editor-chefe do jornal mais importante e de maior audiência do Ceará, o CETV. Em 2011, assumiu a Coordenadoria de Comunicação da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e, dois anos depois, foi Coordenador de Comunicação Institucional da Prefeitura de Fortaleza. Em janeiro de 2019, assumiu a direção de Jornalismo do Grupo Cidade de Comunicação, onde atuou por 2 anos e meio. No dia 12 julho de 2021 colocou no ar a primeira notícia e, desde então, é o responsável por todos os conteúdos publicados no Portal Terra da Luz. Entre agosto de 2022 e agosto de 2025 atuou, paralelamente, como diretor de Jornalismo da Band Ceará, emissora ligada diretamente à cabeça de rede, em São Paulo.

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