

Brasileiros deportados dos Estados Unidos para países africanos relatam incerteza sobre retorno ao Brasil e falta de informações sobre o futuro | Foto: reprodução/TV Globo
07 de setembro de 2026 – Brasileiros deportados dos Estados Unidos para países africanos vivem sem saber quando poderão retornar ao Brasil. Os casos foram revelados em reportagem exclusiva do Fantástico, da TV Globo, exibida neste domingo (6).
A apuração mostrou relatos de brasileiros enviados para países como Libéria e Guiné Equatorial, em meio a um processo de deportação que inclui falta de informações, ameaças, detenções, vigilância e destino incerto.
Entre os casos está o da mineira Paola Santos, de 21 anos, que trabalhava com limpeza de obras nos Estados Unidos havia cinco anos até ser detida pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), a polícia de imigração americana.
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Paola entrou ilegalmente nos Estados Unidos pela fronteira com o México, mas afirma que tinha permissão de trabalho porque morava em Massachusetts, estado considerado mais flexível com imigrantes.
Após uma blitz do ICE, ela ficou presa por um ano e três meses. Nesse período, passou por unidades prisionais em Massachusetts, Connecticut, Vermont, Texas e Louisiana.
Há duas semanas, foi colocada em um avião sem saber qual seria o destino.
“Falei com ele: ‘Se você não me falar para onde você está me mandando, eu não irei descer do ônibus’. E ele: ‘Se você não descer por vontade própria, a gente vai ter que fazer uso de força’”, lembra Paola Santos, em relato ao Fantástico.
A brasileira disse que só descobriu para onde estava sendo levada após uma viagem de 16 horas, durante a qual permaneceu com pés, mãos e cintura algemados.
“Bem-vindos, vocês estão na Libéria”, teria dito a imigração, segundo Paola.
De acordo com a reportagem do Fantástico, quase 25 mil pessoas foram deportadas pelo governo de Donald Trump não para seus países de origem, mas para outros destinos.
Esses países recebem recursos para acolher imigrantes enviados pelos Estados Unidos.
Não existe uma regra geral para esses casos, mas, normalmente, envolvem pessoas que pediram asilo nos Estados Unidos alegando não se sentirem seguras em seus países de origem por razões como violência ou perseguição política.
Como a Justiça americana impede que sejam devolvidas à terra natal, o governo dos Estados Unidos passou a enviá-las para outros países.
O Ministério das Relações Exteriores informou ao Fantástico que não recebeu notificação sobre o caso de Paola, “nem da parte dos estados supostamente envolvidos na deportação, nem da parte da nacional ou sua família”.

A reportagem também mostrou a situação de brasileiros enviados para a Guiné Equatorial.
Segundo os relatos, os imigrantes ficam em hotéis, mas sob vigilância e sem liberdade para circular.
Um dos casos é o do pernambucano Pietro Graza de Lima, que morava na Flórida.
Pietro contou ao Fantástico que integrava um grupo inicialmente deportado para a Libéria. Ao chegar ao país africano, ele e mais quatro pessoas resistiram ao desembarque.
“Nós ficamos com hematomas no corpo, nos jogaram praticamente na pista do avião”, afirmou Pietro Graza de Lima.
Segundo ele, um representante da Libéria informou que o país não aceitaria o grupo. O avião decolou novamente, levando os deportados a acreditar que retornariam aos Estados Unidos. No entanto, a aeronave pousou na Guiné Equatorial.
“Cerca de 10, 20 policiais encapuzados, com armas pesadas, estavam nos esperando. Esse foi o pior momento da minha vida. A gente olhou um para o outro e falou: ‘Não adianta resistir’”, disse Pietro.
Em 2016, Pietro foi preso no Recife por falsificação de anabolizantes. Ele permaneceu em liberdade para aguardar a sentença, mas afirma ter levado sete tiros em uma emboscada que, segundo ele, teria sido armada por policiais corruptos.
Pietro fugiu para os Estados Unidos e disse que tinha visto de estudante. Em Orlando, trabalhou como cozinheiro, mas afirmou ter passado a viver nas ruas por questões psiquiátricas.
Depois de perder o passaporte, acabou preso pelo ICE.
No tribunal, Pietro disse que corria risco de ser assassinado caso voltasse ao Brasil. Segundo ele, a juíza sugeriu que fizesse pedido de asilo nos Estados Unidos, mas a estratégia não funcionou.
Atualmente, ele está em um hotel semiabandonado que, segundo a Associated Press, costuma receber suspeitos de contaminação pelo vírus ebola e deportados pelo ICE.
O Ministério das Relações Exteriores informou ao Fantástico que, na última quarta-feira (2), o embaixador do Brasil na Guiné Equatorial foi comunicado de que Pietro “está em boa situação de saúde, hospedado em hotel determinado pelas autoridades e que uma visita será facilitada nos próximos dias”.

Outro brasileiro citado na reportagem é Alex Pereira Alves, que mora em Los Angeles e tenta evitar ser deportado para a Guiné Equatorial.
Há dez anos, Alex pediu asilo nos Estados Unidos por ser homossexual e afirmar que se sentia perseguido no Brasil.
Durante esse período, ele deveria se apresentar todos os meses de novembro à imigração americana para comprovar que vivia dentro da lei.
Em abril deste ano, a situação mudou. Ele foi convocado pela imigração e recebeu um aparelho de monitoramento eletrônico.
Em 12 de agosto, recebeu novo chamado, antecipando uma audiência que aconteceria em novembro.
A advogada de Alex, Jane Oak, contou que o brasileiro pediu para que ela o acompanhasse.
“Quando cheguei, fiquei uma hora procurando e nada. Me disseram que ele tinha sido preso cinco minutos depois de se apresentar”, relatou Jane Oak.
Alex está preso em Adelanto, na Califórnia, e tenta ser deportado para o Brasil, e não para a Guiné Equatorial.
“Ele acha que, dez anos depois, a sociedade brasileira mudou e se sentiria mais seguro”, disse a advogada.
Segundo o Fantástico, as condições variam entre os países que aceitam deportados enviados pelos Estados Unidos.
Alguns são democracias, como Costa Rica e Libéria. Outros têm regimes instáveis ou autoritários, como El Salvador, Essuatíni, República Democrática do Congo, República Centro-Africana e Guiné Equatorial.
A advogada Savi Arvey, da organização Human Rights First, afirmou que o governo americano adotou uma “tática de medo”.
“O governo Trump assinou acordos com mais de 35 países porque quer minar o sistema global de proteção, e também para coagir imigrantes que ainda estejam nos EUA a se autodeportarem, por medo de acabarem num país qualquer”, afirmou Savi Arvey.
Procurados pelo Fantástico, os governos da Guiné Equatorial e da Libéria não responderam o que pretendem fazer com os brasileiros deportados.
Enquanto aguarda uma definição, Paola tenta adaptar a rotina à vida forçada na Libéria.
Segundo a reportagem, ela frequenta a piscina do hotel, caminha até uma praia próxima e procura maneiras de fazer o tempo passar.
Sem saber por quanto tempo ficará no país africano, a brasileira diz não se arrepender do período vivido nos Estados Unidos.
“Eu tinha uma vida boa, vivia tranquilamente, ajudava minha mãe. Essa é a parte que eu não me arrependo nunca. Eu tinha condição de ajudar minha mãe, tinha condição de dar ao meu irmão tudo o que ele queria”, afirmou Paola Santos.
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