

Brasil amplia acordos comerciais e busca novos compradores para reduzir os impactos das tarifas e da instabilidade internacional | Foto: reprodução
12 de julho de 2026 – O Brasil intensificou a estratégia de abertura de mercados e diversificação das exportações diante do avanço das tensões comerciais internacionais e da possibilidade de uma nova tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A medida norte-americana está prevista para ser anunciada até quarta-feira, 15 de julho, e mantém setores produtivos em estado de atenção.
A reação brasileira combina negociações diplomáticas, acordos comerciais firmados pelo Mercosul e apoio a empresas interessadas em vender para novos destinos. A estratégia ganhou urgência depois que o governo do presidente Donald Trump retomou o uso de tarifas como instrumento de pressão econômica e política.
Embora os Estados Unidos continuem sendo um mercado relevante, os dados do primeiro semestre mostram que o Brasil conseguiu compensar a redução das vendas ao país com o crescimento das exportações para outros parceiros. As remessas brasileiras ao mercado norte-americano caíram 13%, enquanto as exportações totais avançaram 11% e chegaram a aproximadamente US$ 180 bilhões até junho.
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Entre as principais iniciativas está o acordo comercial entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio, a Efta, formada por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein. O decreto brasileiro que promulgou o tratado foi publicado em 30 de junho, abrindo caminho para a entrada em vigor das novas regras.
Os países da Efta possuem alto poder aquisitivo e mercados consumidores exigentes. A redução de tarifas pode criar oportunidades para alimentos, produtos industriais, calçados, frutas, pescados, serviços e mercadorias com maior valor agregado.
O Brasil também ratificou o tratado entre Mercosul e Singapura, primeiro acordo de livre comércio do bloco sul-americano com um país asiático. A parceria pode facilitar a entrada de produtos brasileiros em uma das principais plataformas logísticas e financeiras da Ásia.
Outro avanço considerado estratégico é o acordo entre Mercosul e União Europeia, em vigor desde 1º de maio após mais de duas décadas de negociações. O bloco europeu reúne 27 países e representa cerca de 15% do Produto Interno Bruto mundial.
Os acordos procuram reduzir ou eliminar tarifas, estabelecer regras para investimentos, facilitar compras governamentais e ampliar a previsibilidade para as empresas. Canadá e Japão também aparecem entre os mercados com negociações retomadas ou em fase de preparação.
A busca por novos parceiros não ocorre apenas por razões econômicas. Rupturas nas cadeias de abastecimento durante a pandemia, a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e a política tarifária dos Estados Unidos modificaram a estratégia das empresas e dos governos.
Durante muitos anos, eficiência e preço eram os principais critérios para definir fornecedores. Agora, segurança, estabilidade política, distância geográfica e diversidade de parceiros passaram a receber maior peso.
“Até pouco tempo atrás, falava-se apenas de eficiência, mas a geopolítica entrou no jogo. Os países querem segurança e alternativas, especialmente aqueles mais expostos à China e aos Estados Unidos”, afirmou Lucas Ferraz, coordenador do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas e ex-secretário de Comércio Exterior.
A mudança também reflete o enfraquecimento das soluções multilaterais. Com as dificuldades enfrentadas pela Organização Mundial do Comércio, acordos bilaterais e tratados entre blocos passaram a ter importância crescente.
Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, Roberto Perosa, os tratados ganharam espaço exatamente porque os mecanismos multilaterais perderam capacidade de responder rapidamente às disputas comerciais.
A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para cerca de 9% em 2026. Em 2025, o percentual era de aproximadamente 12%. No início dos anos 2000, o mercado norte-americano absorvia perto de um quarto das vendas externas do Brasil.
A redução mostra uma mudança importante na geografia do comércio brasileiro. A China consolidou-se como principal destino, enquanto União Europeia, Índia e outros mercados emergentes ganharam espaço.
No primeiro semestre deste ano, as exportações para a China cresceram 21%. As vendas destinadas à União Europeia avançaram 12%. Para a Índia, que ainda responde por uma fatia relativamente pequena do total, o aumento chegou a 88%.
A ampliação das vendas para vários países permitiu que o Brasil preservasse o crescimento das exportações mesmo com o recuo no mercado norte-americano. O desempenho evidencia a capacidade de adaptação das empresas, mas não elimina os riscos.
A diversificação ainda está incompleta. Os dez principais destinos continuam representando cerca de 60% de tudo o que o Brasil exporta. Além disso, a dependência da China aumentou.
A participação chinesa passou de 29% para 32% das vendas externas brasileiras, o maior peso já alcançado por um único país. Isso significa que uma desaceleração econômica chinesa, mudança regulatória ou barreira comercial pode atingir uma parcela significativa das exportações nacionais.
“Se a ideia era ampliar o leque de compradores e reduzir riscos, ainda não foi isso que aconteceu. Na prática, qualquer problema na economia chinesa tem potencial para afetar um terço das nossas exportações”, avaliou a economista Daiane Santos, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O desafio, portanto, não é apenas substituir a dependência dos Estados Unidos pela dependência da China. O país precisa ampliar o número de compradores, diversificar produtos e reduzir a concentração em commodities.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, identificou avanço relevante entre as empresas apoiadas pela instituição. Das aproximadamente 2.400 companhias com negócios nos Estados Unidos, 72% chegaram a junho vendendo para pelo menos um novo país.
“As empresas não querem abandonar o mercado americano, que continua essencial, mas todas estão em busca de novos mercados”, declarou o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller.
No agronegócio, o Brasil conquistou acesso a cerca de 600 novos mercados desde 2023. Cada abertura corresponde à autorização sanitária ou comercial para que um determinado produto seja vendido a um país específico. Entre os exemplos estão a carne bovina destinada ao Vietnã e o gergelim vendido para a China.
Essas autorizações podem gerar resultados importantes, mas exigem adaptação das empresas. Cada mercado possui regras sanitárias, padrões de embalagem, documentação, logística e hábitos de consumo próprios.
O Ceará possui condições para aproveitar a estratégia de diversificação comercial. O Porto do Pecém oferece conexão com rotas internacionais e está localizado em posição favorável para atender Europa, América do Norte e costa africana.
Entre os produtos cearenses com potencial de expansão estão frutas, pescados, castanha de caju, cera de carnaúba, calçados, alimentos processados, produtos têxteis e componentes ligados às energias renováveis.
A estrutura do Complexo Industrial e Portuário do Pecém também pode favorecer projetos relacionados a hidrogênio verde, energia eólica, indústria de baixo carbono e logística internacional.
Para ampliar as exportações, empresas cearenses precisam investir em certificação, inovação, produtividade, inteligência comercial e participação em feiras e missões internacionais. Pequenos negócios podem acessar mercados externos por meio de cooperativas, consórcios e programas de promoção comercial.
A ofensiva tarifária dos Estados Unidos acelerou uma mudança que o Brasil já precisava realizar. O país é um dos grandes exportadores mundiais, mas ainda depende de poucos destinos e vende elevada proporção de produtos básicos.
Uma política duradoura deve buscar novos mercados e, ao mesmo tempo, ampliar a exportação de bens industrializados, tecnologia, serviços e produtos com maior valor agregado. Isso permite gerar empregos mais qualificados e aumentar a renda obtida em cada operação.
A decisão norte-americana prevista para 15 de julho será importante, mas não encerra o debate. Mesmo que a nova tarifa não seja aplicada, o cenário internacional continuará marcado por disputas, protecionismo e reorganização das cadeias produtivas.
A melhor proteção para o Brasil é construir uma rede ampla de parceiros, preservar mercados tradicionais e evitar dependência excessiva de qualquer país.
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