

Artigo analisa a ausência de um projeto nacional de longo prazo para o Brasil diante da disputa entre grandes potências econômicas | Fotomontagem feita com uso de IA
04 de junho de 2026 – Em 1961, no auge da Guerra Fria, o então presidente Jânio Quadros lançou um programa de governo que se transformaria em uma política de Estado duradoura nas relações internacionais brasileiras: a Política Externa Independente (PEI). Construída a partir das necessidades concretas enfrentadas pelo país, a PEI adquiriu coerência e unidade ao longo de sua implementação. Seu objetivo central era defender os interesses nacionais, promovendo o desenvolvimento econômico, a autonomia e a justiça social.
A proposta enfrentou resistência de grupos conservadores e de setores preocupados com as relações do Brasil com as grandes potências, mas recebeu amplo apoio popular. Entre seus princípios estavam a defesa da paz, da coexistência pacífica e do desarmamento. Também valorizava a não intervenção, a autodeterminação dos povos e a ampliação das relações comerciais com diferentes países, inclusive os socialistas. Além disso, apoiava a emancipação dos territórios coloniais e afirmava uma posição internacional autônoma e permanente para o Brasil.
Naquele período, existiam projetos de nação divergentes, mas que dialogavam entre si e davam origem a políticas de Estado. Apesar das crises políticas decorrentes do suicídio de Getúlio Vargas, da tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubitschek, da renúncia de Jânio Quadros e do golpe que depôs João Goulart, havia setores da sociedade e do Estado comprometidos com estratégias de desenvolvimento nacional, inclusive durante a primeira década do regime militar.
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Atualmente, o país enfrenta uma notável carência de projetos políticos voltados ao desenvolvimento de longo prazo. Uma das evidências desse quadro é o aumento da dependência em relação às grandes potências econômicas. A balança comercial entre Brasil e China, por exemplo, caracteriza-se pela forte exportação de produtos primários, como soja, minério de ferro e petróleo, enquanto o Brasil importa, principalmente, bens industrializados e tecnológicos de maior valor agregado. Essa dinâmica revela uma diferença significativa de produtividade entre os dois países, resultado dos investimentos chineses em inovação, indústria e tecnologia, que ampliaram sua presença nos segmentos mais avançados da economia global.
No caso dos Estados Unidos, essa assimetria é parcialmente reduzida pela presença de produtos manufaturados brasileiros nas trocas comerciais bilaterais. Ainda assim, a crescente influência chinesa no mercado brasileiro e o retorno de práticas protecionistas na política externa norte-americana colocam o Brasil em uma posição delicada. Os recentes anúncios de tarifas sobre produtos brasileiros sinalizam riscos para uma economia que já convive com gargalos logísticos, déficits de infraestrutura e limitações orçamentárias.
Nesse contexto, o debate político nacional parece cada vez mais concentrado em disputas eleitorais, pautas identitárias e conflitos de curto prazo, enquanto questões estruturais relacionadas ao desenvolvimento permanecem sem respostas consistentes. Tanto o campo político liderado por Lula quanto o grupo associado a Flávio Bolsonaro mobilizam seus apoiadores em torno de temas de forte apelo político e cultural, mas sem apresentar um projeto nacional capaz de enfrentar, de forma abrangente, desafios como o aumento da produtividade, a inovação tecnológica, a reindustrialização e a inserção estratégica do Brasil na nova ordem internacional.
Em um cenário marcado pela crescente competição entre grandes potências, a ausência de uma visão de longo prazo pode aprofundar a dependência econômica do país e reduzir sua capacidade de promover um crescimento sustentável nas próximas décadas.
Victor Missiato é professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. Analista político e Dr. em História
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