

"Os fatos que me indignam sempre fazem aflorar algo a ser dito através de canções", afirma Paulo Araújo que se declara compositor compulsivo | Foto: divulgação
Transformar palavras em versos e depois criar uma melodia para transformar a letra em música. Em resumo, essa é a arte da composição musical. Parece simples, não é? Mas a simplicidade está tão somente na primeira frase dessa reportagem.
Você já parou pra pensar na quantidade de músicas que existem em todo o mundo? Tirando as paródias e versões musicais, que são letras criadas em cima de melodias já existentes, uma composição nova depende de um processo criativo de letra e melodia totalmente inédito para não virar um plágio, que pode até se transformar num processo judicial por violação de direitos autorais.
Então, olhando por esse ângulo, a arte de compor uma música é um processo bem mais complexo do que o resumo apresentado no começo desse texto.
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Quando se fala em compor uma música, uma das primeiras coisas que vem à mente é que se trata de pura inspiração. Algo que surge a partir de um sentimento, seja de alegria, de tristeza, de uma emoção, de uma saudade ou até mesmo uma dor de cotovelo; e que o compositor passa a traduzir o que está sentindo para o papel. Mas nem sempre é assim. Pelo menos na visão do compositor e músico cearense, Paulo Araújo, que deu os primeiros passos na arte musical nos anos 70. O então aluno de violão do Mestre José Mário, no Conservatório Alberto Nepomuceno, em Fortaleza, nos dias de hoje compõe “compulsivamente”, como ele mesmo descreve.
“Eu componho de modo compulsivo, e tudo que nos cerca é motivo. A composição pra mim é um processo de mostrar aos outros o que acho que deva ser público, é meio uma catarse, pois eu socialmente falo muito pouco. Temas sociais, psicológicos, econômicos, políticos, o cotidiano, tudo me inspira. Os fatos que me indignam sempre fazem aflorar algo a ser dito através de canções”.
Mas para Paulo Araújo, essa vontade de expor os sentimentos tem muito mais a ver com “provocação” do que a forma romântica como o processo criativo de uma música é tratado.
“Eu não creio em inspiração. Aquela frase antiga do Tomas Edison, de 99% de transpiração é o que funciona pra mim. Essa ‘romantização’ do processo criativo é coisa de postergar o pensamento. O meu preparativo vem da provocação. Já a técnica, ela é muito resultado da própria provocação, é variável. Eu só componho por encomenda, nem que seja encomenda de mim mesmo: ‘Vou fazer uma canção falando sobre um dromedário’. A partir dai eu construo o cenário. Se o dromedário é real, se é linguagem figurada, se remete a um amor, a uma sede. E isso fica 24h comigo, como um quebra-cabeça a ser resolvido”, esclarece Paulo Araújo.



Mas será que qualquer pessoa pode desenvolver a habilidade de compor uma música? Não é uma resposta fácil. Para o compositor Paulo Araújo a pessoa precisa descobrir primeiro se tem o talento e, se tiver, deve investir no desenvolvimento da técnica da composição.
“Acho que qualquer pessoa pode tudo. Mas tenho consciência de que algumas habilidades específicas são natas de certas pessoas, que faz com que elas partam na frente em áreas diversas. Eu, por exemplo, já tentei esculpir. Foi um fracasso. É certo que com insistência poderia ser até um escultor medíocre, mas existem outras pessoas que com talento natural pegam um palito de fosforo e fazem uma pequena obra de arte. Então, acho que embora todos possam tudo, é mais produtivo que a gente desenvolva o que trazemos como potencialidade”, disse.
Encaixar uma letra numa melodia ou uma melodia numa letra são desafios que fazem parte da rotina dos compositores. As vezes a música já nasce completa com letra e melodia.
“Existem preferências de alguns compositores para esse processo. Alguns tem bloqueios de colocar melodias em letras, outros do inverso. Destaque-se ainda que alguns compositores não fazem melodias, outros não fazem letras, e outros fazem os dois. Nos dois primeiros casos, entram as parcerias. Até um certo tempo atrás, eu não gostava da experiência de colocar melodias em letras. Sempre acontecia com frequência de letrar melodias, ou letra e melodia virem juntas. Mas por força de algumas parcerias, fui quase que forçado a esse exercício. E hoje já gosto”, revela Paulo Araújo.
O compositor também acrescenta: “Hoje encontro maior riqueza melódica quando trabalho sobre as letras, e gosto principalmente de letras sem o rigor métrico da poesia. É quando a assimetria possibilita construções inesperadas, surpresas, saem da obviedade. Então, são três processos, que tem particularidades no resultado final. Mas existe ainda uma parceria que foi algo inusitado. Eu e o Alcio Barroso fizemos uma canção aos pedaços, via WhatsApp, em que cada um cantava um pedaço de canção, letra e melodia, sem saber o desfecho, tipo uma partida de xadrez, ou talvez de frescobol, já que o objetivo era comum. E saiu um resultado que adoramos.

O passo a passo da composição dessa música é interessante, pois se deu de uma forma um pouco diferente da tradicional. Como na maioria das vezes, o processo começou com um mote, que o Paulo Araújo passou para o colega Álcio Barroso pelo aplicativo de mensagens. Daí pra frente, diferente do habitual, quando letra ou melodia já estão prontos, os dois passaram a compor em partes, trocando mensagens pelo celular. Acompanhe no vídeo abaixo:
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No processo de composição de músicas, as parcerias são comuns. Cada um contribui com alguma parte da música ou, como ocorre em muitos casos, o autor da letra busca um parceiro para criar a melodia certa. As vezes ocorre o contrário. A melodia vem antes de uma letra e é necessário ajustar um texto que se encaixe.
“Meu mais constante parceiro é o cearense Luciano Franco, um melodista e maestro talentosíssimo. Com ele, sempre a melodia vem primeiro e eu coloco a letra. É a mesma situação de dois outros parceiros geniais, que são Carlinhos Patriolino e Luisinho Duarte. Outro grande parceiro é o Daniel Conti, paulista, em que o processo é inverso, eu envio as letras e ele coloca as melodias. Mas eu não diria principais parceiros, e sim parceiros mais frequentes, pois tenho alguns parceiros de uma canção só, como por exemplo, recentemente, o Giuliano Eriston, que me presenteou uma melodia que é uma pérola”, relata.
É uma música que tem uma curiosidade no processo criativo. A melodia já existia, assim como o título: “Pendular”. “Eu ouvia ele (Giuliano Eriston) tocando no violão e perguntei se eu poderia colocar a letra. E fiz uma letra falando de amor, preservando o mote “pendular”. Dias depois, ao apresentar o resultado, o Giuliano respondeu: ‘Gostei muito, mas quando eu fiz essa melodia, eu pensei em algo mais relacionado à vida, ao clico da vida. Uma letra mais filosófica”, relembra Paulo Araújo.
Bem, o resultado foi que o compositor fez uma segunda versão, de acordo com o parceiro musical. E a música “Pendular” está pronta para ser gravada em duas versões:
Pendular (versão nº 1) Letra: Paulo Araújo Chego a pendular Se você me olha lindo assim Hum, E me atravessa Sabe de fato De tudo, exato, sobre mim Vem me desnudar Fico à mercê, em suspensão Eu, Eu desafio a gravidade Toda a cidade já me viu pé ante pé Quase Voando Quase Parado Quase Etéreo Subverto As leis Quando Te amo Te amo Te amo E quando descompassa Quase valsa, quase não Volto a pendular E você me olha lindo assim Eu, Eu desafio a gravidade Toda a cidade já me viu pé ante pé Hum, hum…
Pendular (versão nº 2) Letra: Paulo Araújo Hoje é o lugar Ontem e amanhã estão aqui Sim, E se atravessam E se transpassam Em um eterno ir e vir Tempo pendular Breve ilusão de existir Fim Mas se relógio diz que é tarde Paro covarde os ponteiros pra dizer Hoje Chorando Hoje Sorrindo Hoje Sonhando Sempre hoje Viver Hoje Cantando Amando Amando E quando ele para É prelúdio de nascer Tempo pendular Breve ilusão de existir Fim Mas se relógio diz que é tarde Paro covarde os ponteiros pra viver Hum, hum..
Arquiteto de formação, Paulo Araújo encara a composição musical como um ofício não remunerado.
“É algo que se não realizasse, adoeceria. Como profissão remunerada, sou arquiteto. Interessante essa coisa mal resolvida de arquitetura e canção, né? Aqui no Ceará temos Fausto Nilo, Brandão, Ricardo Bezerra, Falcão… em nível nacional, Chico Buarque, Tom Jobim… no mundo, Pink Floyd. Já disse Goethe que a arquitetura é a música petrificada. Essa divisão é caótica. Mas eu sou caótico, funciono em paralelo, e ao mesmo tempo tenho hiperfoco. Nem eu sei explicar esse processo”, declara o compositor.
Paulo Araújo entrou para o universo da música tocando violão erudito. Em 2013, quase 40 anos depois do Conservatório, migrou para o popular e assumiu o lado compositor.


“Hoje me considero basicamente um compositor, pois a execução do violão, como instrumentista, deixou de ser praticada há tempos. Também não gosto de cantar, canto por necessidade; além de compor umas loucuras difíceis de cantar. Posso dizer que existem 4 vozes lindas que topam minhas loucuras: Bento Rezende, Clara Luz, Marcus Caffe e Raquel Gomes”, conta.
Ao longo da carreira, passou a investir em composições para concorrer em festivais de música no Brasil e no exterior. O festival, quando se conquista um prêmio, não deixa de ser uma forma de rentabilizar o trabalho.
“Fui picado pela mosca dos festivais em 2015. De lá pra cá, participei de algumas dezenas de festivais e tive 12 premiações, se não me engano. Queria destacar porém a última premiação que obtive. Foi no IV Premio de Criação e Canções da Ibermúsicas2021. O Festival reuniu 16 países latinos, incluindo Espanha e Portugal, com 1.111 canções. Foram premiadas 3 canções brasileiras, e eu fui um dos contemplados. É muito bacana, porque é reconhecimento de que você está realizando algo de valor, sob um olhar de um júri internacional. No caso, a canção premiada foi a faixa título do meu segundo álbum: O traficante das canções. Pena que a imprensa cearense não tenha se interessado”, comemora e lamenta ao mesmo tempo.
Paulo explica que para concorrer em festivais também é preciso um pouco de estratégia, que o candidato consegue estabelecer com a vivência.
“Não existe uma música própria para festival. Pode acontecer de que, após sucessivas edições, se consiga identificar perfis de determinados festivais. Tal festival gosta de vanguarda, outra já tende para o pop, um terceiro já gosta de música regional (pra não dizer que é bairrista), e por ai vai. Alguns olham menos a música e sim o nome do compositor, outros buscam interpretações em detrimento da própria canção. Então, com o tempo você sabe onde está pisando e avalia se vale a pena ou não se inscrever”, explica.
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Mais difícil do que ter uma música aprovada ou até vencedora de um festival de música, mesmo em nível nacional, é ver essa música virar um sucesso nas emissoras de rádio ou televisão.
“Se você separa cantor e compositor, não existe ninguém mais ignorado que o compositor”.
PAULO ARAÚJO, compositor

“Essa é uma questão complexa, um romance em que entra corrupção (o famoso jabá), o negócio, o interesse político cultural, a massificação de uma monocultura. Há alguns dias, li um artigo em que a empresária da Anita reclamava que não conseguia mais tocar no rádio, mesmo pagando para isso, porque o sertanejo cobria as ofertas, e até comprava as rádios. Veja que engraçado, é o sujo falando do mal lavado. Que fim levou os estilos que faziam frente ao sertanejo? Viraram nichos, ou então fazem como o pop, se não pode com o inimigo, une-se a ele. Como se explica uma dupla lançar um álbum já com uma estrutura enorme por trás? É o agronegócio. Veja que a música trazida por esses artistas, que se dizem sertanejos, não fala nada, absolutamente nada de suas origens. Nenhuma fala de meio ambiente, da terra, da reforma agrária. É um processo muito bem pensado de manipulação da massa, que por sua vez não aceita a ideia de que está sendo tratada efetivamente como gado. É a laranja mecânica. O que ouvimos hoje, é o que um sistema controlador decide, transformando em moda e tendência”, desabafa.



Paulo ainda complementa: “Tenho 8 anos de carreira e dois álbuns lançados, ambos em 2021. Se você separa cantor e compositor, não existe ninguém mais ignorado que o compositor. A canção é da Elis, é da Maria Bethânia, é do Ney Matogrosso, e o compositor é esquecido. Mas eu queria ser uma mistura de Chico Buarque, Caetano Veloso, Egberto Gismonti, Dori Caymmi, Edu Lobo, Guinga, Paulo Sergio Pinheiro e Aldir Blanc. Não sou muito pretencioso”, conclui o compositor fazendo uma clara ironia com grandes nomes da produção musical do Brasil.
Por Hermann Hesse, 18 de janeiro de 2022
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6 Comments
Bom demais conhecer o processo criativo do mestre Paulo Araújo! Considero um dos melhores trabalhos da atualidade e muito importante para a história da música popular brasileira.
Paulo Araujo é um dos maiores compositores do Brasil e uma figura humana fantástica. Muita inspiração pra ti caba bom!
Maravilha de matéria Hermamm Hesse. Quem é das artes sabe diferenciar uma obra de arte de um áudio publicitário disfarçado de canção (guardadas as probabilidades de produção de lindos e históricos jingles)…assim como um jornalista sabe detectar um boateiro (pela imprecisão da notícia) de um profissional da comunicação…
Parabéns ao veículo e que outros grandes profissionais tenham seu trabalho exaltado como merecem.
Parabéns!!!!👏👏👏
Matéria superinteressante sobre o trabalho de um compositor profícuo e inteligente. Paulo Araújo possui todas as faces do músico compositor – letrista, melodista, arranjador e instrumentista – e sabe trabalhar sozinho e em parceria. Enfim, foi uma escolha acertadíssima para mostrar umas pinceladas (Ah, ele também é pintor) do que passa na cabeça de um compositor de verdade. Parabéns ao portal.
Paulo Araújo já é um grande nome da música brasileira. A temática e melodia formidáveis.
Prezados, adorei o texto e o contexto de tudo quanto foi colocado pelo grande Paulo Araújo. Ainda assim, aos 80 anos, ainda estou tendo coragem de ingressar como escritor e compositor. De tudo que soube e aliado ao que já sabia, a minha ideia é quase ridícula, mas pretendo continuar. O ruim é que ninguém me conhece e não conheço ninguém do meio artístico, porém sou capricorniano. Estou preparando um Livro de contos, poesias, além de músicas. Se nada for pra frente, não importa, pois trata-se de um meio de me entreter e me divertir com utopias. Se aparecer um melodista disposto a compartilhar comigo, as minhas letras, muito bem. Vou aceitar de bom grado. Quanto às críticas ao mercado fonográfico, isso é notório, assim como é notório no país, um status quo que só privilegia os poderosos de toda a Nação Brasileira. E, para isso, não há remédio. Infelizmente. José Paulino Machado de Castro Alves da Silva. Mineiro de Perdizes MG, tentando me acostumar em São Paulo, onde moro há 60 anos.