

Produção agropecuária brasileira ganha protagonismo com avanço do acordo entre União Europeia e Mercosul | Foto: reprodução
09 de janeiro de 2026 – Os países da União Europeia (UE) deram aval provisório nesta sexta-feira (9) ao acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. A sinalização positiva destrava a etapa final de um tratado negociado há mais de 25 anos e recoloca o agronegócio brasileiro no centro do debate.
Com o aval político do bloco, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, poderá assinar oficialmente o acordo na próxima segunda-feira (12), durante agenda no Paraguai. Após a assinatura, o texto ainda precisará ser ratificado pelos parlamentos nacionais dos países envolvidos. Segundo o deputado alemão Bernd Lange, ouvido pela Reuters, a votação final deve ocorrer entre abril e maio.
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Embora o acordo envolva diversos setores, o agronegócio concentrou os principais embates ao longo das negociações. Produtores europeus promoveram protestos e pressionaram governos, alegando que a entrada de produtos sul-americanos mais competitivos poderia prejudicar a produção local.
Para o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo, o tratado é estratégico. A União Europeia já é o segundo maior destino do agro brasileiro, atrás apenas da China e à frente dos Estados Unidos.
O peso do acordo aumentou após a queda nas exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2025, provocada pelo tarifaço imposto pelo então presidente Donald Trump. Apesar da retirada parcial da sobretaxa em novembro, quase metade das exportações do agro brasileiro ainda segue submetida a tarifas.
Além disso, China e México, outros grandes compradores do Brasil, passaram a adotar restrições às importações de carne, o que reforça a importância do mercado europeu como alternativa.
O tratado prevê a eliminação das tarifas de importação de 77% dos produtos agropecuários que a União Europeia compra do Mercosul. Com isso, itens como café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais terão tarifas gradualmente zeradas, em prazos que variam de 4 a 10 anos, conforme o produto.
Produtos considerados sensíveis, como carne bovina e carne de frango, ficarão sujeitos a cotas de exportação, mecanismo criado para proteger o produtor europeu.
O setor de carnes é um dos pontos mais delicados do acordo. Pecuaristas da França e da Polônia lideram a resistência, temendo perda de mercado. O Brasil, no entanto, é o maior exportador mundial de carne bovina e de frango, com preços historicamente mais competitivos.
Atualmente, a carne bovina brasileira entra na UE por meio da cota Hilton, que permite a exportação de 10 mil toneladas anuais com tarifa de 20% — percentual que será zerado se o acordo for ratificado. Outras carnes bovinas pagam 12,8% de tarifa mais 221,1 euros por 100 kg.
Com o acordo, os países do Mercosul poderão exportar até 99 mil toneladas por ano, com tarifa inicial de 7,5%. Para especialistas do setor, embora a cota seja limitada, o tratado eleva o status do Mercosul a parceiro preferencial da UE.
No caso das aves, o Brasil poderá compartilhar com os demais países do bloco uma cota anual de 180 mil toneladas com tarifa zero, que será ampliada gradualmente ao longo de seis anos. As exportações fora dessa cota continuarão sujeitas às regras atuais.
O café é o segundo produto brasileiro mais exportado para a UE em valor, atrás apenas da soja. O café em grão já entra no bloco sem tarifa, mas o café solúvel paga atualmente 9%, enquanto o torrado e moído paga 7,5%.
Com o acordo, essas tarifas serão zeradas em até quatro anos, tornando o produto brasileiro mais competitivo frente a concorrentes como o Vietnã, que já tem tarifa zero. O tratado também pode estimular novos investimentos europeus na indústria cafeeira do Brasil.
Para a soja, principal produto do agro brasileiro exportado à UE, o acordo não traz alterações relevantes. O grão e o farelo já contam com tarifa zero, cenário que será mantido mesmo após a entrada em vigor do tratado.
Produtores brasileiros demonstraram preocupação com as salvaguardas aprovadas pela União Europeia para proteger seu agro. As regras permitem a suspensão temporária de benefícios tarifários caso as importações do Mercosul sejam consideradas prejudiciais a algum setor europeu.
Na prática, se a importação de um produto sensível crescer 5% na média de três anos, a UE poderá abrir investigação e aplicar restrições de forma mais rápida. Especialistas alertam para o risco de insegurança jurídica, embora entidades do setor avaliem que, se aplicadas de forma técnica e transparente, as salvaguardas não eliminam o potencial de exportação.
O acordo também interessa aos europeus. O tarifaço dos EUA afetou a UE e levou países como Alemanha e Espanha a defenderem o tratado, apesar da oposição liderada pela França. Ao final, 21 países votaram a favor, enquanto Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia foram contrários, e a Bélgica se absteve.
Com o livre comércio, a UE poderá ampliar exportações de carros, máquinas, produtos químicos, queijos e vinhos para o Mercosul, além de reduzir a dependência da China em minerais estratégicos.
As negociações entre UE e Mercosul começaram em 1999, avançaram em 2019 e ficaram paralisadas até serem retomadas em 2024, a pedido da Comissão Europeia. O anúncio final ocorreu no fim de 2024, iniciando a fase de aprovações.
Durante o G20, em novembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou a dimensão do tratado: um acordo que envolve 722 milhões de habitantes e cerca de US$ 22 trilhões em PIB, com potencial para se tornar o maior acordo comercial do mundo.
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