

Candidato segura prova do Enem; documentos sigilosos apontam mudanças internas na correção em 2025 | Foto: Érico Andrade/G1
05 de fevereiro de 2026 – Documentos oficiais e confidenciais obtidos com exclusividade pela repórter Luiza Tenente, do site G1, revelam que a correção das redações do Enem 2025 seguiu orientações distintas das adotadas em anos anteriores. Embora as competências avaliadas tenham sido mantidas formalmente, especialistas e corretores afirmam que mudanças internas nas regras afetaram de forma significativa o desempenho de milhares de candidatos.
Desde a divulgação das notas, em 16 de janeiro, estudantes passaram a relatar quedas bruscas e inesperadas nas pontuações da redação, especialmente entre aqueles que historicamente obtinham notas acima de 900. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nega qualquer alteração nos critérios e afirma que o processo manteve a isonomia.
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Vinícius de Oliveira, estudante do quinto ano de medicina e mentor de vestibulandos, faz o Enem anualmente desde 2021. Suas notas na redação foram 900, 960, 980, 920 e 940 entre 2021 e 2024. Em 2025, porém, a pontuação caiu para 760.
“Nem quando fiz a prova sem compromisso tirei uma nota tão baixa. A sensação é de que a correção virou uma espécie de sorteio, com corretores mais rígidos e outros mais flexíveis”, relata.
Situação semelhante viveu Guilherme*, de 23 anos, que nunca havia tirado menos de 900 pontos e recebeu apenas 740 em 2025. “Não uso modelo pronto, não desaprendi a escrever e não estava nervoso. O Enem virou uma bagunça”, afirma.
O material obtido pela reportagem exclusiva do G1 inclui cópias de e-mails, documentos internos e depoimentos de corretores (fotos abaixo). Segundo essas fontes, ao menos três mudanças foram suficientes para alterar a lógica da correção das redações.
Na competência 4, que avalia o uso de elementos coesivos, como conectivos e articuladores de ideias, a regra deixou de ser objetiva. Antes, havia contagem matemática desses elementos. Em 2025, a avaliação passou a considerar classificações subjetivas como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressiva”.
“A gente perdeu o parâmetro. Cada corretor interpretou de um jeito”, afirma um avaliador ouvido sob condição de anonimato.
Outra mudança relevante ocorreu na competência 5, que avalia a proposta de intervenção. Continuou sendo exigida a presença de cinco elementos: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento. A ausência de qualquer um deles sempre resultou na perda de 40 pontos.
Em 2025, porém, uma nota de rodapé determinou que a falta específica do elemento “ação” resultaria em penalização de 120 pontos. Segundo corretores, muitos candidatos foram surpreendidos por essa orientação não divulgada previamente.
“Há casos em que a ação foi confundida com a finalidade, e isso gerou uma perda muito maior do que o estudante imaginava”, afirma um corretor.

Os documentos também indicam que o repertório sociocultural passou a ter peso maior do que o previsto inicialmente. Embora o Manual do Candidato já alertasse para o combate aos chamados “repertórios de bolso”, um documento adicional enviado após os treinamentos determinou que referências consideradas inadequadas passassem a impactar simultaneamente as competências 2 e 3.
Segundo os corretores ouvidos pela reportagem, essa mudança foi decisiva para a queda generalizada das notas em 2025.
Procurado pelo g1, o presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que não houve qualquer mudança nos critérios de correção. Em nota, o órgão reforçou que as redações são avaliadas por ao menos dois corretores, com terceira correção em caso de divergência, garantindo “equilíbrio, justiça e tratamento isonômico”.
Em 2026, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a aceitar notas das três últimas edições do Enem, o que aumentou a sensação de injustiça entre candidatos que concorreram apenas com a nota de 2025.
“É como comparar banana com maçã. A correção deste ano foi mais rigorosa e subjetiva”, avalia Sérgio Paganim, coordenador de redação do Curso Anglo.
A reportagem exclusiva do g1 também apurou que corretores recebem cerca de R$ 3 por redação corrigida e chegam a avaliar até 200 textos por dia, enfrentando instabilidades no sistema e falhas de comunicação nos treinamentos.
“Um supervisor dizia uma coisa, outro dizia outra. Houve muito ruído”, relata a corretora Geralda*.
O Cebraspe, responsável pela correção desde 2023, afirmou que apenas o Inep pode responder sobre o Enem. Já o Inep não se manifestou sobre remuneração e carga de trabalho.
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