

A ascensão de Sanae Takaichi ao comando do governo japonês reflete três décadas de aprendizado político, disciplina institucional e domínio das regras do jogo parlamentar | Foto: Yuichi YAMAZAKI/POOL/AFP
26 de outubro de 2025 – A ascensão de Sanae Takaichi a primeira-ministra do Japão é menos o brilho do “pela primeira vez” e mais o ponto alto de uma trajetória pacientemente investida no jogo político. Num regime parlamentar, onde o imperador simboliza o Estado e o poder de governo nasce da maioria na Dieta, Takaichi chega ao Kantei por consagração de trajetória, não por exceção estatística. No léxico de Bourdieu, ela venceu o campo político porque aprendeu, incorporou e performou o sentido do jogo, até que aliados, burocracias, mídia e adversários reconhecessem sua autoridade.
No campo político, voto não é a única moeda. Pesam reputação, confiabilidade, ascendência sobre facções, domínio de rituais de Estado e capacidade de transformar agenda em política. Takaichi organizou sua subida convertendo capital cultural (formação universitária; treino no Matsushita Institute of Government and Management) em capital internacional prático (imersão nas entranhas do Congresso dos EUA como congressional fellow), que por sua vez se converteu em capital social (alianças) e capital institucional (cadeias de cargos no Executivo e no partido). Reconversão atrás de reconversão, até decantar em capital simbólico: o reconhecimento de legitimidade para falar e decidir em nome de um projeto de país.
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Como todo habitus bem calibrado, o de Takaichi foi forjado em provas públicas. Ela perde, ganha, cai e volta; aprende a linguagem dos plenários e o silêncio dos comitês; acumula ministérios e liderança partidária. Em termos bourdieusianos, persevera porque acredita no jogo (illusio) e melhora a cada rodada. O percurso estabiliza um perfil de autoridade legível para eleitores, previsível para aliados e confiável para a burocracia, trinca que sustenta governos no Japão.
O habitus é um saber incorporado que guia escolhas quase sem deliberação. Em Takaichi, ele se manifesta como ritualidade de Estado (gestos simbólicos de memória nacional), ordem estratégica (defesa e disciplina institucional) e disciplina organizacional (economia de palavras, timing, coesão pública). Há uma coerência entre posições (liderança partidária, gabinetes, governo) e disposições (ritual, ordem, disciplina) que maximiza conversões de capital. É tradição como recurso de futuro, não saudosismo, num entorno regional tenso.
Weber oferece a gramática moral dessa trajetória. A política como vocação pede paixão, responsabilidade e proporção. Em Takaichi, a paixão é austera: menos arroubo, mais perseverança. Sua ética pende à responsabilidade, cálculo de meios e efeitos num tabuleiro onde erros custam caro. E há, sobretudo, o que Weber chamou de “o lento perfurar de tábuas duras”: a paciência institucional que transforma convicções em regras, orçamento e política pública. Viver para (e não apenas de) a política, aqui, é rotina de poder: trabalhar a máquina, federar vontades, aguentar a intempérie, voltar no dia seguinte.
Shakespeare nos lembra que “All the world’s a stage” (todo o mundo é um palco) e que “Uneasy lies the head that wears a crown” (inquieta repousa a cabeça que usa a coroa). Em Takaichi, a dramaturgia do Estado é domínio de papéis: guardiã da tradição nos ritos, gerente pragmática no orçamento, comandante na coalizão. É performatividade que produz realidade política, não teatro vazio. E há método no gesto: “Suit the action to the word, the word to the action” (ajusta a ação à palavra, a palavra à ação). O palco legitima a fala; a fala redesenha o palco. Assim, símbolos (memória), regras (instituições) e escolhas (políticas) se ancoram numa figura de autoridade.
Até a biografia íntima revela o metal do habitus: casamento com parlamentar, divórcio, reconciliação, arranjos que expõem a porosidade entre público e privado na elite política japonesa. Não é anedota, é a política transbordando o espaço doméstico, exigindo do casal as mesmas virtudes de proporção e disciplina que o campo cobra dos governantes. É Borgen, mas no espelho invertido.
Em Borgen, Birgitte Nyborg tem tempo de aprender, desiludir-se (quando tenta negar o jogo) e voltar a jogar (quando contraria antigos companheiros e se torna “irreconhecível”). Trata-se, no vocabulário de Bourdieu, de um habitus que se recalibra por ciclos: o campo pune a heresia, a protagonista ajusta disposições, retorna mais consciente das regras. É a lição de Hamlet: “The readiness is all” (a prontidão é tudo).
Com Dilma Rousseff, o relógio foi outro. Ela chegou ao Executivo disposta a negar ou reconfigurar o jogo, e o sistema, organizado como campo com doxas e capitais próprios (negociação de coalizão, liderança parlamentar, manejo de ritos e símbolos), reagiu. Sem tempo para o ciclo aprendizagem-recalibração, a presidente se viu numa mesa de pôquer em modo all-in: ao recusar as regras implícitas, acelerou o conflito com o Congresso, perdeu base, perdeu illusio e, por fim, perdeu o jogo. É a diferença entre o protagonista que amadurece no palco e a governante que tenta reescrever o roteiro com a peça em cartaz.
O contraste ilumina Takaichi: sua força não é negar o campo, mas habitar as suas regras. Enquanto Nyborg aprende e Dilma colide, Takaichi acumula. Cada derrota, uma aula; cada cargo, uma conversão de capital; cada rito, um tijolo simbólico. Quando a maré subiu, ela estava no cais: “There is a tide in the affairs of men, which taken at the flood, leads on to fortune” (há uma maré nos negócios dos homens que, tomada na enchente, conduz à fortuna).
Rótulos (“ultraconservadora”, “de direita”) iluminam parte do mapa, mas podem cegar para a engrenagem. O que explica sua consagração é a coerência entre capitais, posições e disposições num momento em que o eleitor japonês valoriza continuidade de Estado, prudência estratégica e respeito ritual. Isso não esgota as tensões, como igualdade de gênero, direitos civis e narrativas históricas, que seguem em disputa, mas ajuda a entender por que ela e por que agora.
Bourdieu explica o como (campo, capitais, habitus); Weber, o dever-ser do governante (paixão austera, responsabilidade, proporção); Shakespeare, o modo de encenar a autoridade (papel, gesto, silêncio). O caso Takaichi condensa as três camadas: trajetória convertida em legitimidade, vocação disciplinada em rotina de governo, dramaturgia calibrada para produzir consentimento. Eis a tese: ela não chegou ao poder porque é mulher; chegou porque foi, por três décadas, a política que melhor traduziu a demanda dominante do campo japonês em disposições incorporadas e capitais mobilizáveis. Se terá êxito, veremos no teste do tempo, onde o palco não perdoa e a coroa pesa. Até lá, a lição é simples e exigente: em política, trajetória vence rótulo, e quem domina o habitus do poder transforma memória em projeto.
Élcio Batista é Coordenador do Programa Cidade +2°C do Centro de Estudos das Cidades | Laboratório Arq.Futuro | Insper
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