

Donald Trump presidente dos Estados Unidos | Foto: Brian Snyder/Reuters
Com Donald Trump de volta à presidência dos Estados Unidos, o cenário econômico mundial entra novamente em rota de instabilidade. Conhecido por seu perfil protecionista e por decisões geopolíticas imprevisíveis, Trump reassumirá a carga com a promessa de colocar os interesses dos Estados Unidos acima de qualquer acordo internacional. Esse reposicionamento da maior potência econômica do planeta tem impacto direto sobre o comércio global, os investimentos e as decisões dos bancos centrais ao redor do mundo. A desaceleração econômica mundial, que pode ser intensificada por medidas unilaterais da nova gestão americana, tem efeitos relevantes sobre dois indicadores centrais da economia: a inflação e os juros.
Em condições normais, uma desaceleração econômica global tende a aliviar as pressões inflacionárias. Com menor demanda por bens, serviços e materiais primários, os preços tendem a se recuperar ou, ao menos, se estabilizar. No entanto, quando essa desaceleração é causada por choques externos — como guerras comerciais, aumento de tarifas, avaliações econômicas ou ruptura de cadeias produtivas — o resultado pode ser o oposto do esperado: uma inflação de custos. Em vez de refletir um mercado menos aquecido, os aumentos de preços passam a ser consequência da dificuldade em produzir, importar ou distribuir mercadorias de forma eficiente. Esse tipo de inflação, combinada com o crescimento estagnado, é necessária para qualquer governo, pois reduz o poder de compra das famílias ao mesmo tempo em que desestimula investimentos.
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Nesse contexto, a política de juros também entra numa zona de incerteza. Normalmente, os bancos centrais controlam os juros para estimular o consumo e o investimento em tempos de baixa atividade econômica. Contudo, quando há risco de inflação provocado por fatores externos, os cortes de juros tornam-se arriscados. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve pode se ver pressionado a manter os juros elevados mesmo com sinais de enfraquecimento da economia. Já na Europa e em países emergentes, como o Brasil, os efeitos são ainda mais sensíveis. A instabilidade global, provocada por um ambiente político e comercial imprevisível, pode levar a uma fuga de capitais na direção de ativos considerados mais seguros, como os títulos do Tesouro americano. Isso pressionou as moedas locais, como o real, e obriga os bancos centrais a manter juros altos para conter a desvalorização cambial e manter a inflação.
Para o Brasil, os impactos da nova gestão Trump são duplos. De um lado, o país pode se beneficiar de um realinhamento comercial, especialmente com o persistência das relações entre os Estados Unidos e a China. Por outro lado, a volatilidade dos mercados e a desaceleração global tendem a reduzir os preços das commodities, afetando diretamente as exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, a necessidade de preservar a atratividade do país diante dos investidores internacionais pode exigir juros mais altos por mais tempo, mesmo com uma economia doméstica fragilizada.
Uma nova fase da política americana exige atenção redobrada. Não se trata apenas de uma mudança na liderança dos Estados Unidos, mas de uma inflexão no modelo de governança econômica global. A volta de Trump impõe ao mundo um ambiente de menor previsibilidade, o que dificulta o planejamento de políticas públicas e privadas. Diante disso, é essencial que os países, especialmente os emergentes, adotem estratégias que aumentem sua resiliência, reforcem sua competitividade interna e se preparem para um ciclo de juros globalmente elevado, inflação instável e crescimento mais lento. O mundo mudou, e o Brasil precisa estar preparado para os desafios que virão.
Jerônimo Goergen é presidente do Instituto Liberdade Econômica
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