
Estudo do projeto EcoShark identificou sertralina no cérebro de tubarões-martelo e alerta para contaminação por medicamentos no ambiente marinho | Foto: Patricia Scalea
21 de junho de 2026 – Um estudo realizado pelo projeto EcoShark, coordenado pela pesquisadora Dra. Mariana Bata Alonso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou a presença de antidepressivo no cérebro de tubarões-martelo no Rio de Janeiro.
A pesquisa identificou sertralina, medicamento usado no tratamento de depressão e ansiedade, no tecido cerebral dos animais. O achado acende um alerta sobre a presença de fármacos no ambiente marinho e sobre as limitações dos sistemas atuais de saneamento para eliminar esse tipo de contaminante.
Segundo a pesquisadora, desde 2018 o projeto recolhe carcaças de tubarões capturados acidentalmente em redes de pesca. A partir desse material, os cientistas analisam a presença de poluentes e contaminantes nos organismos dos animais.
>>>SIGA O YOUTUBE DO PORTAL TERRA DA LUZ <<<
De acordo com a Dra. Mariana Bata Alonso, a nova etapa do estudo buscou avaliar os efeitos de antidepressivos e ansiolíticos no ambiente marinho, especialmente após o aumento no consumo desses medicamentos durante a pandemia de Covid-19.
A preocupação levou a equipe a investigar os chamados contaminantes emergentes, como fármacos, além de resíduos industriais e pesticidas que já eram monitorados pelo projeto.
Os pesquisadores analisaram cinco órgãos dos tubarões: cérebro, fígado, músculo, brânquias e ampolas de Lorenzini, estruturas sensoriais características desses animais.
“Encontramos os contaminantes em todos os órgãos analisados. No entanto, o antidepressivo apresentou uma concentração maior no cérebro. Isso reforça que, assim como ocorre nos seres humanos, trata-se de uma substância que atua diretamente em questões psíquicas”, explicou a pesquisadora.
A explicação científica para a maior concentração no cérebro está relacionada às características da própria sertralina. A substância é lipofílica, ou seja, tem afinidade por gordura.
Como o cérebro é rico em lipídios, especialmente por causa da bainha de mielina, o medicamento tende a se acumular preferencialmente nessa região.
A pesquisadora explica que o consumo humano está na origem da presença desse tipo de substância no ambiente, mas a principal falha está no sistema de saneamento. Parte da sertralina ingerida por pessoas é excretada de forma inalterada.
As estações de tratamento de esgoto, segundo a especialista, não conseguem eliminar completamente fármacos. Esses resíduos podem chegar aos sedimentos, ser ingeridos por pequenos organismos, como camarões, passar para peixes maiores e, posteriormente, alcançar os tubarões por meio da cadeia alimentar.
Para a Dra. Mariana, os tubarões não devem ser vistos como vilões, mas como indicadores importantes da saúde dos ecossistemas marinhos.
“O mar sem tubarões, aí sim que a gente tem que se preocupar. Porque vai ser um mar em total desequilíbrio. E outra coisa é que ele está servindo como uma bandeira, uma sentinela, mostrando para a gente o que pode vir a acontecer conosco, com o planeta, com a nossa saúde”, afirmou.
Os tubarões desempenham papel essencial no equilíbrio dos oceanos. Eles controlam populações de espécies intermediárias, evitam desequilíbrios na fauna marinha e ajudam a manter ecossistemas como recifes de corais em funcionamento.
Sem esses predadores, pode ocorrer um efeito cascata, com aumento descontrolado de algumas espécies, desaparecimento de outras e perda de estabilidade ambiental.
A especialista também faz um alerta à população sobre o consumo de carne de cação. Ela lembra que cação é tubarão e que espécies como o tubarão-martelo estão criticamente ameaçadas de extinção no Brasil.
Além disso, a pesquisadora reforça que medicamentos não devem ser descartados no vaso sanitário, pois podem chegar aos rios e mares, agravando a contaminação ambiental.
O descarte correto deve ser feito em pontos de coleta adequados, geralmente disponíveis em farmácias, unidades de saúde ou campanhas específicas de recolhimento.
O Projeto EcoShark é uma iniciativa ambiental voltada à conservação dos ecossistemas marinhos, com foco especial nos tubarões. Mais do que proteger uma espécie, o projeto busca compreender o papel desses animais no equilíbrio dos oceanos e os impactos da ação humana sobre a vida marinha.
Ao investigar a presença de contaminantes em tubarões, a pesquisa também ajuda a revelar problemas que podem afetar toda a cadeia alimentar e, futuramente, a saúde humana.
O estudo reforça a urgência de ampliar investimentos em saneamento, tratamento de esgoto, descarte adequado de medicamentos e políticas de conservação de espécies ameaçadas.
Leia também | Casais esquecem aposentadoria no planejamento
Tags: Tubarões-martelo, sertralina, antidepressivo no mar, EcoShark, UFRJ, Mariana Bata Alonso, contaminação marinha, fármacos, contaminantes emergentes, meio ambiente, oceanos, tubarões, cação, saneamento básico, tratamento de esgoto, cadeia alimentar, poluição marinha, Rio de Janeiro, saúde ambiental, biodiversidade marinha, conservação marinha, espécies ameaçadas, descarte de medicamentos, ecossistemas marinhos, sustentabilidade, Portal Terra Da Luz