

Soja brasileira ganha espaço com tensões entre EUA e China, mas avanço ameaça biomas e compromissos ambientais | Foto: REUTERS/Jorge Adorno
16 de outubro de 2025 — A guerra comercial entre Estados Unidos e China, reacesa durante o governo de Donald Trump, abriu uma nova janela de oportunidades para o agronegócio brasileiro, especialmente para os produtores de soja, hoje o principal produto de exportação agrícola do país. Entretanto, esse avanço econômico vem acompanhado de riscos ambientais severos, sobretudo para o Cerrado, a maior savana tropical do mundo.
A China, grande consumidora de soja para a produção de óleo e ração animal, praticamente suspendeu a compra do grão americano após a imposição de tarifas mútuas entre Pequim e Washington. Como resultado, o país asiático passou a depender ainda mais do Brasil, líder mundial nas exportações do produto, incentivando a expansão agrícola sobre áreas sensíveis.
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Nos últimos dez anos, a produção de soja no Brasil disparou, impulsionada pelo afastamento da China dos Estados Unidos. Em 2017, o Brasil já havia superado os norte-americanos como maior produtor global. Desde então, as áreas plantadas se multiplicaram: atualmente, mais de 40 milhões de hectares estão ocupados por lavouras de soja, representando 14% das terras agrícolas do país, segundo o MapBiomas.
Grande parte dessa expansão ocorre sobre o Cerrado, um ecossistema crucial para o equilíbrio climático e hídrico do Brasil, que abriga as nascentes das principais bacias hidrográficas do país. Apesar da redução do desmatamento na Amazônia, a pressão sobre o Cerrado aumentou significativamente. Pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Trase mostram que, em 2023, mais de 445 mil hectares de áreas desmatadas foram convertidos em plantações de soja.
A expansão do agronegócio reacendeu o debate sobre a Moratória da Soja, acordo firmado em 2006 entre o governo, exportadores e ONGs ambientais para impedir a compra de soja oriunda de áreas desmatadas na Amazônia após 2008. Embora tenha reduzido o avanço do desmatamento no bioma, o pacto vem sendo questionado por representantes do setor agrícola.
O vice-presidente da Aprosoja, Lucas Costa Beber, classificou a moratória como uma “barreira comercial disfarçada de proteção ambiental”, argumentando que a medida limita a competitividade brasileira no mercado internacional. Em agosto, o Cade chegou a suspender temporariamente o acordo, sob suspeita de conluio entre comerciantes, mas a Justiça Federal restabeleceu a medida. Ainda assim, o futuro da moratória permanece incerto.
A situação coloca o governo Luiz Inácio Lula da Silva diante de um dilema: conciliar o avanço econômico com os compromissos ambientais assumidos internacionalmente. O presidente será anfitrião da próxima Conferência do Clima da ONU (COP), em Belém (PA), em novembro, e prometeu endurecer as ações contra o desmatamento ilegal.
Especialistas alertam que a intensificação da guerra comercial entre Trump e Xi Jinping pode ampliar ainda mais a pressão sobre as fronteiras agrícolas brasileiras. “O Cerrado está desaparecendo, e a pressão para produzir soja para exportar será ainda maior”, afirmou Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe.
Enquanto isso, os agricultores americanos enfrentam queda nas vendas e alta nos custos de produção. A incerteza sobre um possível encontro entre Trump e Xi Jinping na cúpula comercial da Coreia do Sul, ainda este mês, mantém a soja no centro da disputa global.
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