

Xícara de café simboliza consumo moderado associado a menor risco de demência, segundo estudo de longo prazo | Foto: Freepik
13 de fevereiro de 2026 — Beber de duas a três xícaras de café com cafeína por dia esteve associado a um menor risco de desenvolver demência ao longo da vida, segundo um amplo estudo observacional realizado nos Estados Unidos. A pesquisa acompanhou mais de 131 mil pessoas por até 43 anos e foi publicada no Journal of the American Medical Association.
Os dados analisados fazem parte de duas grandes coortes prospectivas: o Nurses’ Health Study, com mulheres, e o Health Professionals Follow-up Study, com homens. Ao longo do acompanhamento, os participantes responderam questionários alimentares periódicos, e pessoas com câncer, Parkinson ou demência no início do estudo foram excluídas da amostra.
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Durante o período analisado, 11.033 participantes desenvolveram algum tipo de demência. A comparação entre os níveis extremos de consumo de café com cafeína mostrou diferença significativa na incidência da doença.
Entre os indivíduos com baixo consumo, foram registrados 330 casos de demência por 100 mil pessoas ao ano. Já entre os maiores consumidores, o número caiu para 141 casos por 100 mil pessoas ao ano. Mesmo após ajustes para fatores como idade, tabagismo, atividade física, dieta, obesidade, hipertensão e diabetes, a associação permaneceu.
Na análise final, os participantes com maior consumo de café com cafeína apresentaram um risco 18% menor de desenvolver demência ao longo da vida. Resultado semelhante foi observado para o consumo de chá, enquanto o café descafeinado não mostrou associação consistente.
Um dos principais achados foi a relação não linear entre consumo e risco. O menor índice de demência foi identificado entre aqueles que ingeriam cerca de duas a três xícaras de café por dia, o equivalente aproximado a 300 mg de cafeína. Quantidades superiores não demonstraram benefício adicional claro.
Segundo o neurologista Alan Eckeli, professor da Universidade de São Paulo, esse padrão é biologicamente plausível. Ele explica que substâncias como a cafeína podem apresentar um ponto de saturação, em que doses moderadas geram efeitos anti-inflamatórios ou metabólicos positivos, enquanto quantidades maiores não necessariamente ampliam os benefícios e podem prejudicar o sono.
A cafeína atua como antagonista dos receptores de adenosina no cérebro e pode influenciar processos ligados à neurodegeneração. Ainda assim, os pesquisadores destacam que outros componentes do café, como polifenóis e antioxidantes, também podem contribuir para o efeito observado.
Apesar do grande número de participantes e do longo tempo de acompanhamento, o estudo é observacional. Isso significa que identifica associação estatística, mas não comprova relação direta de causa e efeito.
O neurologista Renato Anghinah, professor da Faculdade de Medicina da USP, ressalta que o principal mérito do trabalho está na consistência dos dados ao longo de décadas, com medições repetidas. No entanto, ele alerta que os resultados devem ser interpretados como correlação, e não como prova de que o café previne demência ou Alzheimer.
Os próprios autores apontam limitações, como a possibilidade de causalidade reversa —mudanças no consumo de café podem ocorrer anos antes do diagnóstico clínico da demência— e fatores de confusão residuais, como perfil socioeconômico e hábitos de vida. Além disso, a amostra é composta majoritariamente por profissionais de saúde norte-americanos, o que pode limitar a generalização dos achados.
Além do diagnóstico de demência, os pesquisadores analisaram o desempenho cognitivo de parte das participantes, utilizando testes padronizados por telefone. Mulheres com maior consumo de café com cafeína apresentaram pontuação média ligeiramente superior, equivalente a pouco mais de meio ano de envelhecimento cognitivo a menos.
Segundo especialistas, o efeito individual é modesto e dificilmente perceptível no dia a dia. Ainda assim, reduções de risco entre 15% e 20% podem ter relevância quando analisadas em escala populacional, especialmente diante do envelhecimento acelerado da população.
O estudo reforça que o consumo moderado de café com cafeína parece seguro para a maioria das pessoas e pode estar associado a menor risco de demência. No entanto, isso não equivale a afirmar que beber café previne Alzheimer.
A prevenção do declínio cognitivo segue baseada em fatores com evidência científica mais consolidada, como controle da pressão arterial e do diabetes, prática regular de atividade física, estímulo intelectual, sono adequado e interação social.
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