

Novo paradigma militar visa aniquilar ameaças antes que se concretizem, com apoio velado de potências regionais e dos EUA | REUTERS/Fadi Whadi
O ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que matou mais de 1.500 pessoas — em sua maioria civis —, foi não apenas uma tragédia nacional sem precedentes, mas um marco histórico que redefiniu o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. A brutal falha de segurança do Estado israelense revelou sua vulnerabilidade tática, mas a resposta subsequente demonstrou que havia mais em jogo: a emergência de uma nova doutrina militar e estratégica. A partir desse ponto, Israel abandonou o paradigma da contenção para iniciar uma campanha deliberada de aniquilação das capacidades militares e logísticas de seus principais inimigos regionais: Hamas, Hezbollah, Houthis e, por fim, o Irã.
Durante décadas, a política de segurança de Israel se estruturou em torno de uma lógica de “administração do conflito”. Essa abordagem, inspirada por uma visão realista da impossibilidade de uma paz imediata, consistia em conter ameaças, calibrar a resposta militar e evitar grandes guerras, mantendo uma estabilidade relativa. No entanto, os efeitos cumulativos dessa doutrina foram perversos: o Hamas consolidou seu controle em Gaza e se sofisticou militarmente, o Hezbollah no Líbano construiu um arsenal de mais de 150 mil foguetes (conforme estimativa do Center for Strategic and International Studies), e o Irã avançou em sua capacidade de enriquecimento de urânio, aproximando-se do limiar nuclear.
Essa “gestão da instabilidade” alimentou a profissionalização das milícias, permitindo que se transformassem em braços armados eficientes da estratégia regional iraniana. Como escreveu Michael Koplow, analista do Israel Policy Forum, “o Hamas deixou de ser uma ameaça tática e se converteu em um vetor estratégico de desestabilização regional” (Atlantic Council, 2024).
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Em meio a uma crise interna profunda — marcada por protestos massivos contra a reforma judicial e uma aprovação em queda livre —, Benjamin Netanyahu foi acusado por críticos de usar o conflito como uma válvula de escape político. Ainda que haja indícios de instrumentalização, como apontou a jornalista Dahlia Scheindlin no Haaretz, essa leitura é parcial. O que ocorreu, de fato, foi a articulação de uma estratégia de reposicionamento histórico: uma virada doutrinária que visava redefinir o papel de Israel na região, ampliar sua margem de manobra militar e estabelecer novas fronteiras de contenção geoestratégica.
Como observou Gideon Rachman no Financial Times (“Donald Trump, Benjamin Netanyahu and the new Middle East”, 21/06/2025):
“Netanyahu está convencido de que o antigo paradigma está morto. Sua aposta é a de que somente o uso decidido da força pode redesenhar o mapa político e militar do Oriente Médio antes que os inimigos o façam”.
A reação israelense se deu em etapas claramente articuladas:
• Gaza e o Hamas: Não se tratou de um contra-ataque convencional, mas de uma tentativa de desmonte total da capacidade organizacional, logística e simbólica do Hamas. O Wall Street Journal relatou que, após meses de bombardeios e operações terrestres, Gaza foi reduzida a ruínas — mas sem o colapso completo da organização, o que revela os limites da ação militar pura (“Israel’s War on Hamas Is Not Producing Clear Victory”, 15/05/2025).
• Líbano e o Hezbollah: No norte, o número de confrontos transfronteiriços superou 4.400 até meados de 2025, segundo o CSIS Tracker. O Hezbollah, mais sofisticado que o Hamas, representa um desafio maior, mas os ataques de Israel minaram parte de sua infraestrutura.
• Houthis no Iêmen: Embora Israel não tenha se envolvido diretamente, os Estados Unidos realizaram bombardeios em alvos houthis com base em informações compartilhadas com a inteligência israelense. Segundo o New York Times (Janeiro de 2025), foi uma operação coordenada sob o guarda-chuva da proteção marítima no Mar Vermelho.
• Irã: Após a morte do presidente Ebrahim Raisi, em um acidente de helicóptero em 19 de maio de 2024, o Irã viu-se abalado politicamente. A suspeita da atuação do Mossad paira no ar — como admitiu, sob anonimato, um ex-agente de inteligência ao The Guardian (“Speculations Surround Raisi’s Death”, 20/05/2024) — e preparou o terreno para os ataques cirúrgicos israelenses a instalações nucleares em Natanz e Isfahan, conforme detalhado pelo Financial Times (“A changed Middle East brings vindication for Netanyahu”, 20/06/2025).
Aqui está o núcleo da inflexão israelense. Sua nova doutrina parte da convicção de que os riscos de inação seriam, no médio prazo, mais graves e imprevisíveis do que os riscos imediatos da guerra. Em vez de responder passivamente às ameaças, Israel decidiu antecipar o confronto — reduzindo, em sua perspectiva, a entropia do sistema.
Essa é a tese que propomos: o ataque de 7 de outubro ofereceu a Israel a oportunidade estratégica de deflagrar uma guerra controlada agora, para evitar uma guerra descontrolada no futuro — com o Irã nuclearizado e seus aliados armados até os dentes. O general Herzi Halevi, chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, disse em entrevista ao Times of Israel (22/05/2025):
“Esta é uma guerra que travamos não apenas pelo presente, mas para impedir a guerra que viria depois — e seria muito pior.”
Essa estratégia ecoa a doutrina de guerras preventivas, tal como formulada nos anos 2000 pelos Estados Unidos, mas com uma particularidade israelense: trata-se de uma guerra pela manutenção da superioridade relativa em um ambiente regional hostil e assimétrico, como bem analisa Kori Schake, do American Enterprise Institute (Foreign Policy, maio 2025).
A participação dos EUA seguiu um roteiro coordenado. Enquanto Joe Biden aprovava discretamente operações de apoio e logística, Donald Trump assumiu uma retórica hesitante, para em seguida dar apoio público à ação contra o Irã. Essa “hesitação encenada” serviu para manter um clima de imprevisibilidade no xadrez global.
Segundo o Washington Post (“Trump’s strikes on Iran reinvigorate U.S.-Israel ties after being tested”, 25/06/2025), Trump e Netanyahu mantêm contato frequente desde o fim da presidência anterior, e “a coordenação entre ambos é mais intensa do que se imaginava”. A convergência estratégica entre as duas maiores potências do campo conservador global é, portanto, um pilar central dessa ofensiva regional.
O impacto da guerra é massivo:
• Humanitário: A ONU estima que mais de 35 mil civis palestinos foram mortos, com infraestrutura urbana e sanitária em colapso total em Gaza (UN OCHA, Relatório de Junho 2025).
• Econômico: A bolsa israelense TA‑125 valorizou 21% no primeiro semestre de 2025, puxada por empresas de defesa como Elbit e Rafael Advanced Systems (Business Insider, 15/06/2025).
• Geopolítico: O Time (“A New Middle East Is Unfolding Before Our Eyes”, 10/06/2025) aponta que países árabes moderados, como Emirados e Bahrein, estão silenciosamente apoiando Israel, consolidando uma “nova ordem regional”.
Entretanto, há riscos. Como alertam David Ignatius e Ishaan Tharoor no Washington Post (“Israel is succeeding but will it overreach?”, 20/06/2025), Israel corre o perigo de ultrapassar os limites da vitória estratégica e cair no erro histórico do “overreach” — quando o sucesso militar não é acompanhado por soluções políticas sustentáveis. A falta de um plano de reconstrução para Gaza, a ausência de um interlocutor palestino forte e a radicalização da juventude árabe são bombas-relógio.
Uma das transformações mais silenciosas — e ao mesmo tempo mais estruturais — no Oriente Médio da década de 2020 é a mudança de eixo econômico das potências árabes do Golfo. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar passaram a articular uma transição deliberada de suas economias da dependência do petróleo para modelos ancorados no turismo de alto padrão, finanças internacionais e inovação tecnológica.
Essa transição, liderada por projetos como o Vision 2030 saudita, o hub global de negócios de Dubai e a diplomacia ativa de Abu Dhabi, gerou novas necessidades estratégicas: se antes estabilidade era desejável, agora é condição imprescindível. O petróleo tolerava guerras; o capital estrangeiro e o turismo de luxo, não.
Como destacou o World Economic Forum (2024), cerca de 1 em cada 3 aviões comerciais de longa distância hoje decola de Dubai, Abu Dhabi ou Doha, tornando a região não apenas um centro de conexões, mas um nó logístico e simbólico da globalização pacificada. A Emirates, a Etihad e a Qatar Airways não vendem apenas assentos — vendem segurança, imagem e experiência.
Nesse contexto, Israel enxergou uma janela geopolítica rara: aproximar-se de países de maioria sunita, que já não viam o conflito palestino como prioridade e cujos regimes são profundamente hostis ao Irã xiita. O que estava em jogo na aproximação com a Arábia Saudita (interrompida com a guerra de 2023, mas não cancelada) era mais do que um gesto diplomático: era o ingresso de Israel no novo consórcio de estabilidade lucrativa do Golfo.
A lógica é clara:
• Israel tem inovação, tecnologia e força militar.
• O Golfo tem capital, visão estratégica e desejo de estabilidade.
• Ambos veem o Irã como ameaça existencial à ordem regional.
Assim, a aproximação de Israel à Arábia Saudita e aos Emirados não é uma “traição à causa palestina”, como gritam seus críticos, mas uma mudança de eixo pragmática: menos ideologia, mais cálculo de risco e retorno. O novo Oriente Médio não é o da guerra das narrativas religiosas — é o da infraestrutura turística, dos fundos soberanos, das megacidades e das conferências internacionais.
Entretanto, a guerra aberta deflagrada em Gaza e a escalada contra o Hezbollah e o Irã colocaram esse projeto em suspenso. O temor é que a instabilidade volte a ocupar o centro do tabuleiro, espantando investidores e turistas. Mesmo os países que silenciosamente apoiam Israel, como Emirados e Bahrein, fazem isso com limites táticos, pois precisam manter suas vitrines de normalidade e prosperidade.
Como observou Karen Young, do Columbia Global Energy Policy, em artigo publicado pela Foreign Affairs (junho de 2025):
“A nova elite do Golfo é cosmopolita, calculista e pragmática. Ela aposta na paz porque a paz dá lucro. Mas também sabe que pode ser sugada por uma guerra que não deseja, mas que se aproxima perigosamente.”
Quem já visitou a região conhece esta verdade.
Além de petróleo e segurança, a nova economia do Golfo se apoia em cultura, turismo e grandes eventos esportivos — alçando a região de pólos do consumo global e símbolos de modernidade que dependem da estabilidade mais do que nunca.
Em menos de duas décadas, surgiram quatro grandes prêmios de F1: Bahrain, Abu Dhabi, Qatar e Jeddah (Arábia Saudita), com apoio direto de fundos do petróleo e patrocínios como da Aramco com a Aston Martin . Esses eventos movimentam centenas de milhões em turismo, mídia e branding esportivo, atraindo patrocinadores de tecnologia, finanças, luxo e até cripto ().
Dubai, Abu Dhabi e Doha investem maciçamente em museus de arte moderna, cultura islâmica e esportiva, além de eventos como a Expo 2020 em Dubai (adiada para 2021–22), e os estádios e infraestrutura construídos para a Copa do Mundo FIFA no Qatar em 2022 — que transformaram Lusail em cidade-símbolo da diversificação cultural ().
Projetos como NEOM, Qiddiya (incluindo Ferrari World, Six Flags, parque Dragon Ball) e Lusail refletem a transformação de desertos em playgrounds globais, com fundos soberanos controlando bilhões em ativos imobiliários e infraestrutura turística.
Nessa lógica, a aproximação de Israel com Arábia Saudita e Emirados ganha nova camada de sentido. Israel oferece tecnologia, finanças, segurança; o Golfo responde com capital, turismo e ambição global. O que está em jogo é um núcleo regional de estabilidade econômica — um projeto que exige ordem e rejeita turbulência militar.
A escalada militar em Gaza e a retórica contra o Irã complicam esse quadro. Mesmo aliados discretos como Emirados e Bahrein têm limites: precisam garantir que seus hubs globais — museus, pistas de F1, parques, voos — sigam operando sem riscos à imagem.
Israel não está simplesmente respondendo a mais uma escalada. Está redefinindo sua doutrina de segurança nacional. O que se viu após outubro de 2023 foi uma infração calculada das regras anteriores do jogo, com o objetivo de evitar uma guerra futura que, aos olhos de seus líderes, seria existencial e potencialmente perdida.
O cálculo é brutal: destruir hoje para não ser destruído amanhã. Em um mundo de múltiplas guerras, democracias em crise e potências revisionistas, a ação israelense é uma aposta desesperada na manutenção da ordem — ainda que para isso precise subvertê-la.
Élcio Batista é Cientista Social, Professor e Líder em Inovação. Coordenador do Programa Cidade +2°C do Centro de Estudos das Cidades | Laboratório Arq.Futuro | Insper
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Tags: Israel, Oriente Médio, Hamas, Hezbollah, Irã, Netanyahu, Estados Unidos, guerra preventiva, estabilidade regional, geopolítica